O idolatrado racismo de Monteiro Lobato

Autor: Dra. Vanete Santana-Dezmann

Chegamos ao século XXI com vontade de renovar o mundo e quebrar as velhas estruturas. “Abaixo o preconceito” é o novo e bem-vindo lema. O que muitos que seguram esta bandeira parecem ignorar, porém, é que não se constrói um novo mundo do nada e que a cultura não se encontra fora de nós. Assim, alguns dos mesmos que se proclamam defensores dos historicamente oprimidos – mulheres e negros –, posicionando-se contra a misoginia e o racismo, ovacionam Martinho da Vila, cantando em coro “Ô nêga, vá trocar esse batom, porque assim não estás em bom tom. Combina com o esmalte da unha, mas esse vermelho encarnado esconde as virtudes que tens. Também está excessivo o perfume. Juro, não é só ciúme. Me orgulho de te verem bem. Não fala muito quem sabe falar. Não compra tudo quem sabe comprar. Não bebe muito quem sabe beber. Não come de tudo quem sabe comer. Mas ama muito quem tem só um amor. E tu és a minha única flor. Vai, nêga!”.

Em outras palavras: “então, negra, não é porque você é capaz de falar, comprar, beber e comer, que você vai fazer o que quer. Não vai sair de batom vermelho e perfume simplesmente porque você é minha propriedade e eu,  acho alfa forte e seguro, não quero”. Paradoxal e contraditoriamente, muitos que continuam cultuando este e outros sambas dos anos 70, com suas letras misóginas e – será que não? – racistas, decidiram cancelar Monteiro Lobato a todo custo. Basta explicar que Lobato usou para se referir aos negros do início do século XX o jargão corrente à época (e os motivos por que o fez), e comprovar que, no conteúdo, eleva as personagens da etnia negra à mesma posição que ocupam as de etnia branca? Não, não basta!

Basta explicar que, se Lobato se dirigisse a um público leitor negro, usaria outros termos? Senão por não ser racista, ao menos por tino comercial? Não, não basta! Basta explicar que não havia público leitor negro no início do século XX e que isso não era consequência da literatura que então se praticava, mas, sim, das características sociais e econômicas da época? Não, não basta! Basta explicar que O Presidente Negro é um livro de ficção científica e que as
falas das personagens de um livro não reproduzem o pensamento do autor do livro, até porque há diferentes personagens, com diferentes pontos de vista, e que, se as falas das personagens reproduzissem o pensamento do autor, todo escritor seria esquizofrênico? Não, não basta!

Basta explicar que Lobato ficou “P da vida” quando editores nos EUA não compreenderam o livro O Presidente Negro e desabafou, em tom irônico e escrachado, sua marca registrada, que lá chegou tarde demais; que se tivesse chegado antes, quando o Ku Klux Klan assolava o país, seu livro teria sido publicado? Afinal, ele escreveu um livro contra o racismo que foi tomado como sendo racista. Então, se era para ser assim, que o livro tivesse sido apresentado aos verdadeiros racistas, que, pelo motivo errado, teriam-no publicado. Não, não basta!

Basta explicar que não se analisam pedaços descontextualizados de falas e textos, como se tem feito no caso de Lobato, pinçando a dedo trechos de suas cartas e obra com o exclusivo interesse de comprovar um veredito previamente proclamado, quando o certo é a análise preceder o veredito? Não, não basta! Basta explicar que Lobato foi reivindicado por comunistas, integralistas e eugenistas, embora não seja possível provar que ele tenha sido comunista ou integralista ou eugenista e que, como todo ser humano de carne e osso, como você e eu, Lobato, à medida que conhecia melhor as coisas – lendo sobre elas, frequentando reuniões sobre elas, conversando com quem as apresentava –, mudou de opinião sobre muitas coisas ao longo da vida? Não, não basta! E por que não basta?! Porque, na era do twitter, ninguém se dá ao trabalho de ler mais do que 280 caracteres. Porque, na era do politicamente correto, qualquer ocupante de algum “lugar de fala” pode falar e escrever o que quiser, pode até, simbolicamente, enforcar Lobato pendurado em uma árvore, como faziam os condenáveis membros do clã, enquanto dançam e cantam “Ô nêga, vá trocar esse batom!”. Pois é… a cultura não se encontra fora de nós… E é mais fácil ver um grão de pólen no olho alheio do que um cabresto bem posto.

Vanete Santana-Dezmann é professora, pesquisadora e tradutora. É responsável pelas Jornadas Monteiro Lobato USP-JGU, juntamente com John Milton. Tem pós-doutorado em Estudos da Tradução (USP), com estágio de pesquisa no Goethe-Museum de Düsseldorf; doutorado em Teorias de Tradução (UNICAMP), com estágio de pesquisa na Universidade Livre de Berlim, e mestrado na mesma área (UNICAMP). Graduou-se em Letras (UNICAMP).

 

O retrato falado do “racismo na obra infantil de Lobato” – Vanete Santana-Dezmann. https://vanetesantanadezmann.blogspot.com/2021/01/o-retrato-falado-do-racismo-na-obra.html

Emília, a cidadã-modelo soviética: Como a obra infantil de Monteiro Lobato foi traduzida na URSS. – Marina Darmaros e John Milton: https://www.researchgate.net/publication/334594154_Emilia_a_cidada-modelo_sovietica_Como_a_obra_infantil_de_Monteiro_Lobato_foi_traduzida_na_URSS

Beloved, Amistad e Negrinha… libelos contra o racismo – Vanete Santana-Dezmann: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/dilemas-contemporaneos/beloved-amistad-e-negrinha-
libelos-contra-o-racismo/

LOBATO POR LOBATO – A PEDIDO DE UM AMIGO, MONTEIRO LOBATO FORNECEU AS SEGUINTES NOTAS BIOGRÁFICAS – Furacão na BOTOCÚNDIA)

“Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de…1884(na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez aos 5 anos, um célebre ditado: “Cavalo pangaré/Mulher que.. em pé /Gente de Taubaté/Dominus libera mé”. Concordou. Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11.

Primeiras espinhas aos 15. Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne. Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau – apagado.

Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Foi promotor em Areias, mas não promoveu coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi(que nunca usou no dede, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4.200 a arroba e feijão a 4000 o alqueire. Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários.

Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros. Escreveu umas tantas lorotas que se vendem – Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho.

Pretende publicar ainda um romance sensacional que começa por tiro: Pum! E o infame cai redondamente morto… Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula. Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenas Aires. Físico: Lindo!”

A Novela Semanal, São Paulo n. 1, 2 maio de 1921

MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

Por: MARISA LAJOLO

Na Noite de 18 de abril de 1882 nasce em Taubaté o primogênito do proprietário das fazendas Paraíso e Santa Maria. O recém-nascido é o primeiro filho de José Bento Marcondes Lobato e de Dona Olímpia Augusta Monteiro Lobato.

Neto pelo lado materno de José Francisco Monteiro, visconde de Tremembé, o menino recebe na pia de batismal o nome de José Renata. A família o trata de Juca e Juca será para eles pela vida afora, mesmo depois que, por volta dos onze anos, decide mudar de nome: prefere José Bento, cujas iniciais coincidem com as letras encastoadas em ouro numa bengala de seu pai Juca cobiça a bengala, naquele momento tempo complemento indispensável à elegância masculina.

A situação é emblemática da força de vontade, do senso prática e da garra do menino que viria a ser o famoso escritor Monteiro Lobato.
No aconchego doméstico, decorre a infância comum de menino medianamente abastado do interior paulista, no fim do século. Vive com os pais e as irmãs menores, Teca, Judite, na fazenda Santa Maria em Ribeirão das Almas, nos arredores de Taubaté.

Entremeia a vida na roça com temporadas longas na casa que os pais mantinham na cidade e com visitas demoradas à casa do avô visconde, no meio da de uma chácara. Como todos os meninos de sua classe social, Juca tem um pajem que o acompanha nas brincadeiras.

Com as irmãs Teca e Judite faz bonecos e bichos de chuchu e tem muito medo de assombração. Sua infância é cheia de pescarias no ribeirão, de banhos de cachoeira, de tiros com sua espingardinha marca Flaubert, de passeios em seu cavalo Piquira.

Ao tempo dos calças curtas, trepa em árvores, chupa fruta no pé, aprende a gostar de circo, de pamonha, de içá torrada e de pinhão. Nas visitas à casa do avô – conta mais tarde – fascina-o a biblioteca: os livros, em particular os ilustrados, seduzem-no ainda mais do que a figura do imperador Pedro II, que conhece como hóspede do avô numa das últimas viagens imperiais a São Paulo.

Compensando a rigidez das relações afetivas com pai austero, Juca tem imensa ternura pela avó materna, a humilde professora Anacleta Augusta do Amor Divino, em tudo diferente da viscondessa legítima. Esta, a senhora Maria Belmira França, com quem o visconde se casará depois de ter tido dois filhos com Anacleta, será para sempre a visconda, na voz desdenhosa de Juca.

A dureza da forma de tratamento assinala a precoce compreensão de todo o preconceito que nascimentos ilegítimos e relações extraconjugais despertavam no século passado, tempo de convenções sociais bastante rígidas: a querida avó Anacleta morava em casinha bem menor e mais distante do que a casa da visconda…. As primeiras lições do menino Juca são em casa, com dona Olímpia, que o ensina a ler, escrever e contar.

Depois disso, como era uso no tempo, um professor particular – Joviano Barbosa – encarrega-se de sua educação. É só mais tarde que Juca frequenta as raras e efêmeras escolas particulares de Taubaté: o colégio do professor Kennedy, depois o Colégio Americano( escola mista dirigida por Miss Stafford, educadora irlandesa), depois o Colégio Paulista.

Nesse último, foi aluno do professor Mostardeiro, mestre que volta a procurar mais tarde, depois de formado, para com eles discutir as novas filosofias que tanto o fascinavam em São Paulo: Mostardeiro era positivista, o que era vanguarda para a época e o diferenciava na intelectualidade da pacata Taubaté. Juca frequenta, finalmente, o Colégio São João Evangelista. Ali, o diretor é o professor Antônio Quirino de Souza e Castro, que anos depois desempenha importante papel na história de Monteiro Lobato, pois é na casa do antigo mestre que o ex-aluno se aproxima da mulher será sua companheira de toda a vida, a neta do Velho Quirino.

Mas ainda não é tempo de amores. O tempo é de escolas, e com São João Evangelista aparece encerrada a vida escolar de Juca em colégios do interior paulista. O rumo é São Paulo. O Século XIX está chegando ao fim, e as malas de Juca estão prontas, com destino ao Instituto Ciências e Letras da capital, onde vai estudar as matérias necessárias ao ingresso no curso de Direito.

Chega à Paulicéia nada desvairada de 1895, mas é reprovado em Português e tem de arrepiar caminho: volta para Taubaté e para o Colégio Paulista. E é lá que que estreia em letra impressa como colaborador de O Guarany, improvisado jornalzinho estudantil.

O menino, Juca para a família, começa a ser para os leitores do jornaleco Josbem e Nhô Dito, pseudônimos, com que assina suas primeiras colocações: uma crítica a Enciclopédia do Riso de da Galhofa( espécie de almanaque, extremantes popular) e uma crônica dos acontecimentos diários da escola.

Hoje é dia de “falar a nossa língua”

Falar uma língua não é apenas comunicar-se com um outro indivíduo. Falar uma língua é também consumir sua história, cultura e, sem dúvida alguma, sua Literatura.

Oficial em pelo menos nove países, a língua portuguesa tem seu dia celebrado na data de hoje desde 2009. A comemoração foi criada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) , organização parceira da UNESCO, para celebrar a língua e suas respectivas culturas, como a literatura brasileira de Monteiro Lobato, importante herança de nossa língua que com seu apoio, conseguimos manter dia após dia através dos livros, histórias e registros.

São quase 300 milhões de falantes em todo o mundo, com forte extensão geográfica e riqueza cultural. Graças a esse multilingüismo, é que encontramos hoje uma diversidade cultural e promovemos, juntos, uma comunicação internacional.

Viva a Língua Portuguesa! Hoje é dia de “falar a nossa língua”!

Monteiro Lobato na cabeça

Por: João Luís Ceccantini

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (a mais ampla que se faz sobre o assunto no país), grande parte dos leitores brasileiros aponta Monteiro Lobato como seu escritor mais admirado ou aquele de que mais gosta.E por que essa escolha? Alguns diriam, de pronto: “porque se trata de um clássico”. Certamente, Lobato se tornou um “clássico”, mas colar, hoje, essa etiqueta ao autor, ainda que dê ideia do prestígio de que sua obra usufrui nos mais variados círculos de leitores – dos leigos aos especializados – oferece o risco, talvez, de percebê-la por uma perspectiva simplista. Se, de um lado, fortalece a ideia pertinente de que a literatura de Lobato influencia, de forma marcante, os autores que o sucedem e de que integra um patrimônio cultural que efetivamente vale a pena conservar e transmitir de geração a geração, de outro, pode transformá-la apenas em um conteúdo a mais entre outros, a ser “transmitido” a todo custo aos alunos.E nada trairia mais o espírito da literatura de Lobato do que abordá-la desse modo. O escritor, como poucos, sempre defendeu com muita convicção a liberdade do leitor, seu direito de gostar ou não gostar deste ou daquele livro e mesmo de rejeitar um autor que considerasse maçante ou tolo, ainda que se tratando de um medalhão das letras.*Professor de Literatura Brasileira da UNESP/ FCL Assis.Se a literatura de Lobato tem resistido bravamente ao tempo é porque conta com um pelotão de “leitores-mediadores” que a defendem e a promovem com garra. Leram Lobato geralmente na infância ou na juventude, e ficaram encantados pela literatura do escritor. Vivenciaram uma experiência de leitura impregnada de afetividade que deixou fortes marcas na memória, tornando-os profundamente convencidos de que vale a pena ler a obra desse autor original – e assim, querendo muito compartilhá-la com outros leitores.

Avós, pais, irmãos, primos, tios, amigos, bibliotecários, escritores, artistas e, claro, professores têm se empenhado em levar as novas gerações a conhecer a obra de Lobato. Isso é o que, acima de tudo, a tem mantido viva nos corações e mentes de leitores de sucessivas épocas.Esses “leitores-mediadores” fazem isso porque, na essência, se tornaram leitores apaixonados pela obra do escritor, encontrando nas páginas de Lobato um universo dos mais ricos, capaz de incendiar a imaginação, de provocar o riso, de alimentar o intelecto, de despertar o senso crítico, de multiplicar sentidos. Isso, para dizer o mínimo.No vigoroso projeto literário do escritor, um dos principais tópicos que têm sido destacados é a revolução realizada no que diz respeito à representação da infância. Até Lobato, as crianças eram representadas na literatura infantil brasileira, de um modo geral, de forma bastante artificial, com a finalidade primeira de promover modelos de educação, de “bom comportamento”, de valores morais etc. Em realidade, as personagens infantis antes dele, com raras exceções, constituíam um pretexto para promover valores adultos numa literatura de cunho edificante, não permitindo maior identificação dos leitores infantis com o texto que era a eles destinado. Lobato rompe radicalmente com os padrões, estereótipos e clichês associados a essa “literatura embolorada” e tira de cena as crianças modelares, submissas aos adultos e deles dependentes. Apresenta-nos a boneca-moleca, Emília, definida por si mesma como a “Independência ou Morte”, assim como dá vida aos destemidos aventureiros Narizinho e Pedrinho.

São personagens flagradas em imensa liberdade, distantes que estão de pais e mães, porque é sempre tempo de férias num sítio, em que os adultos presentes – Dona Benta e Tia Nastácia – não assumem a sisuda máscara da autoridade repressora.Outro aspecto fundamental na obra de Lobato é o modo especial como o autor lidou em suas narrativas com o trânsito que as personagens fazem entre a realidade e a imaginação. À medida que o escritor foi desenvolvendo sua obra, cada vez com maior ousadia, foi dissolvendo quaisquer fronteiras entre o real e o imaginário, permitindo aos integrantes do Sítio do Picapau Amarelo a ruptura radical com as coordenadas espaciais e temporais, bem como com as surradas convenções da literatura dita “realista”.Nessa obra de alta carga imaginativa, lógicas paralelas são construídas no mundo da fantasia pelo qual circulam as personagens do Sítio, o que lhes confere (e ao leitor) uma carga de liberdade como até então não se tinha visto na literatura infantil brasileira. Lobato constrói, assim, uma obra vibrante, em que o recurso ao pó de pirlimpimpim ou ao “faz de conta” propiciam uma experiência única à “turma do Sítio”.

É importante frisar, entretanto, que em Lobato a fantasia não é sinônimo de alienação; ao contrário, cria tensões fecundas com a realidade, que, em geral, propiciam uma visão original e crítica do meio. Aliás, as narrativas de Lobato estão sempre empenhadas em valorizar a emancipação, a curiosidade e a autonomia das crianças tanto frente aos adultos quanto às instituições sociais e às convenções, colocando a realidade prosaica continuamente em xeque. Sua literatura é feita de representações que rejeitam as soluções simplórias, o maniqueísmo e as ideologias, promovendo antes o questionamento contínuo de valores, a reflexão e, por vezes, até mesmo uma postura iconoclasta.Enfim, no conjunto, o universo literário inventado por Lobato constitui um irresistível convite à leitura para pessoas de todas as idades. Esses leitores, por sua vez, convertem-se em potenciais mediadores para novos leitores, instaurando um movimento contínuo, como poucas vezes se tem visto na cultura nacional. Tal fenômeno, pelo que os dados indicam, não tem permitido que o leitor brasileiro de sucessivas gerações tire Lobato da cabeça. O que, diga-se de passagem, é ótimo! Que assim se faça por muito tempo…

Monteiro Lobato e o racismo em livros infantis de sua época

Por: Cilza Bignotto

Fonte: http://ameninacentenaria.bbm.usp.br/index.php/racismo-em-lobato/

Nos últimos dez anos, trechos de livros infantis de Monteiro Lobato vêm sendo apontados ou denunciados como racistas, devido a passagens relacionadas, principalmente, à personagem Tia Nastácia. É o caso, por exemplo, da expressão “negra de estimação”, usada pelo narrador de Reinações de Narizinho para apresentar Tia Nastácia aos leitores. A expressão – de fato chocante para os leitores de hoje – já aparecia no álbum A menina do narizinho arrebitado, publicado em 1920, que iniciou a saga do Sítio do Picapau Amarelo. As denúncias de racismo, realizadas em processos judiciais e em artigos, palestras, postagens em redes sociais, levaram a uma série de debates públicos, que continuam ocorrendo em várias esferas da Educação, do Direito, dos Estudos Literários, dentre outras. Os debates têm sido pontuados por questões como: Lobato poderia ter representado personagens negras de outra maneira na época em que produziu seus livros? Será mesmo que o contexto em que um escritor vive tem tanta importância no desenvolvimento de sua obra? Apresentamos, a seguir, elementos para ajudar você a pensar sobre essas questões e tentar respondê-las. Vamos começar pelos textos para crianças que circulavam quando Monteiro Lobato escreveu e publicou seus livros infantis, a partir de A menina do narizinho arrebitado.

A cor da invisibilidade

Como era a representação de personagens negras nos livros infantis que circulavam nas livrarias, escolas, bibliotecas públicas e particulares das primeiras décadas do século XX?

É triste, mas, em boa parte dos livros infantis escritos por autores brasileiros naqueles anos, simplesmente não havia personagens negras. Era como se as pessoas negras, que já constituíam a maior parcela da população nacional, não existissem – ou fossem invisíveis. É o que se observa, por exemplo, no Primeiro livro de leitura 1, que dá início, em 1903, a uma série produzida pelos educadores Arnaldo de Oliveira Barreto e Romão Puiggari, ambos muito renomados. A série de quatro livros, que teve numerosas edições ao longo das décadas seguintes e foi adotada em escolas públicas, sobretudo paulistas, era inspirada no livro Cuore (1886), do escritor italiano Edmondo De Amicis. Assim como na obra italiana, os livros de Barreto e Puiggari narram o cotidiano de um protagonista, o menino Paulo, em capítulos que tematizam lições aprendidas pelo menino em episódios ocorridos na escola e em sua casa.

Não há personagens negras no Primeiro livro de leitura, mas há nele uma cena bastante significativa para o exame da representação da população negra em livros infantis da Primeira República. Um capítulo é dedicado a Luíza, irmã caçula do protagonista, que “Parece uma alemãzinha pelo doirado dos seus cabelos, que são crespos e sedosos” e pelos olhos “azuis como um pedaço de céu”. Luíza tem várias bonecas:

Umas são grandes; outras pequenas. Quasi todas, porém, são brancas, coradas e louras como a mãezinha!

Há duas bonecas que servem de criadas. Essas são pretinhas, bem pretinhas, de lábios muito vermelhos.

O ideal de infância plasmado na narrativa do livro e nas bonecas de Luíza é o da criança loira, que parece europeia. Não há crianças negras na classe de Paulo. Sobre os criados da casa, provavelmente negros, nada se sabe, além do fato de que existem. O mesmo modelo ideal de criança se repete em outros livros de grande circulação naquele período, como os de João Kopke, Mariano de Oliveira, João Pinto e Silva, em meio a diversos outros educadores. De modo geral, crianças negras são pouco ou nada representadas nos livros didáticos que sustentavam o projeto republicano de educação para o país.

Os livros para crianças não eram para todas as crianças.

As poucas tentativas de incluir crianças negras como leitoras ou protagonistas de livros infantis foram realizadas de maneira sintomaticamente ambígua. É o que se nota no início de Páginas infantis 2, do professor Mariano de Oliveira, livro de leitura preparatória “dedicado à infância brasileira” e “adotado em todas as escolas”:

Os versos que funcionam como epígrafe da obra convidam “crianças loiras, claras, morenas” a abrir as Páginas infantis. Na ilustração que emoldura o poema, há um menino negro entre as 13 crianças brancas. Seu perfil, no canto superior da página, faz crer que o adjetivo “morenas” se refere também a crianças negras, e que haverá outras no interior do livro.

Não há.

A cor da escravidão

Quando negros, adultos ou crianças, aparecem como personagens em livros do final do século XIX e início do XX, geralmente as histórias transcorrem no período da escravidão. É o que se observa, por exemplo, em Contos Pátrios (1904) de Coelho Neto e Olavo Bilac. No conto “Mãe Maria”, o protagonista, já adulto, relembra a ama, uma velha senhora africana escravizada, que cuidara dele desde o nascimento. Mãe Maria amava tanto “Nhonhô Amâncio” que, certa vez, depois de ser apedrejada pelo menino, mentiu ao pai dele para protegê-lo: disse que os ferimentos haviam sido causados por uma queda. Quando o menino lhe pede perdão, a face de Mãe Maria lhe parece “tão bela, tão clara, tão iluminada quanto a daqueles anjos do Senhor” que povoavam suas “histórias de roça”. O afeto de uma criança branca tem o poder de elevar a figura da mulher negra, de “clarear” sua pele. O destino de Mãe Maria, entretanto, é ser vendida, com outros escravos, e morrer como indigente.

BILAC, Olavo; NETO, Coelho. Contos pátrios (para as crianças). Ilustrações de Vasco Lima. 44a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1958. Acervo de Cilza Bignotto.

 

Página do conto “Mãe Maria”, de Olavo Bilac, integrante do livro Contos pátrios.
Ilustração de Vasco Lima. Acervo de Cilza Bignotto.

 

Em outro conto do livro, “A borboleta negra”, a “pureza” moral de crianças brancas é responsável por salvar “uma criaturinha de pele preta”, abandonada no mato. Leonor e Henrique – “que só tem nove anos, mas é um homem!” – levam o bebê para casa. Ao entregá-lo à mãe, Leonor exclama: “que mãe malvada, que preta malvada a que abandonou assim esta filhinha! Não é verdade que mamãe vai ser também mãe dela?”3.

A pele negra, se não é “clareada” por sacrifícios realizados para ajudar pessoas brancas, é sempre relacionada à maldade, ao embrutecimento, quando não à corrupção e ao vício. Esta é a clave que pauta as histórias infantis do período, mesmo quando escritas por abolicionistas notórios, como Coelho Neto e Olavo Bilac – o qual, nas primeiras décadas do século XX, defendeu os direitos de negros numerosas vezes em suas crônicas de jornal. Também são compostas nessa linha as histórias infantis de Manoel Bomfim, médico que se posicionava contra a ideia de inferioridade da raça negra, então dominante nos meios científicos e intelectuais. Seu livro Primeiras saudades: leitura para o primeiro ano do curso médio das escolas primárias (1920)4 retrata algumas personagens negras em circunstâncias excepcionais: Henrique Dias, que lutou ao lado dos portugueses contra os holandeses, no século XVII, e um “preto robusto”, anônimo vendedor de bananas que salva um homem branco do afogamento. Em Através do Brasil 5, escrito com Olavo Bilac, os protagonistas são brancos. Quando precisam atravessar o sertão baiano, conhecem Juvêncio, um adolescente “simpático, moreno, entre caboclo e mulato”. O “tipo” auxilia os heróis a enfrentarem a rudeza dos campos brasileiros.

Finalmente, as figuras de negros ou negras libertos são usadas em algumas obras infantis para justificar a reunião de diferentes contos populares. Quem lê Serões da mãe preta: contos populares para crianças (1897)6, de Juvenal Tavares, encontra os contos populares, mas nenhuma história protagonizada pela referida mãe. Em Histórias do Pai João, de Renato Sêneca Fleury, a personagem Pai João só aparece para os leitores, e muito rapidamente, no quarto conto dos cinco integrantes do livro. Figuras negras revelam-se como meros eixos articuladores de Contos da Mãe Preta: estórias do folclore adaptadas à leitura das crianças (1932), de Oswaldo Orico, que inaugurou a Biblioteca Infantil de O Tico-Tico, e no posterior Histórias de Pai João: estórias do folclore adaptadas à leitura de crianças, do mesmo autor.

 

FLEURY, Renato Sêneca. Histórias do Pai João (do folclore africano). 2a. ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d.

(Biblioteca Infantil n. 67). Acervo de Cilza Bignotto.

 

A cor da maldição

Nos livros para crianças da Primeira República, são reconhecidas como dignas e virtuosas as personagens negras que ou sacrificam a vida por alguém branco ou são mestiças de pele clara. A pele negra quase sempre é relacionada não apenas a brutalidade e a vícios, mas também a maldições. Um exemplo dessa terrível associação é o conto “A princesa Negrina”, integrante de Contos para crianças (1906), de Chrysanthème – pseudônimo da escritora Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos. Nele, uma rainha é amaldiçoada por desejar muito uma filha, mesmo que “escura como a noite”. O pedido é atendido: a princesa nasce negra e terá de passar pelas mais terríveis provas para se tornar branca e conhecer a “real felicidade”. O livro foi traduzido para o inglês e publicado na Inglaterra em 1929. Outro exemplo é “Pérola da manhã”, um dos “contos do folclore africano” reunidos no livro Flor encarnada, da Biblioteca Infantil Melhoramentos, organizada pelo professor Arnaldo de Oliveira Barreto. Pérola da manhã é uma “linda moça” negra que deseja encontrar um rio mágico cujas águas tornam brancas as pessoas que nele se banham.

BARRETO, Arnaldo. Flor encarnada.10a. ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d. (Biblioteca Infantil n. 18)

 

Pérola da Manhã se banha no rio mágico que branqueia pessoas negras.

 

A pele escura também está ligada a outras formas de maldição. No livro Lendas brasileiras, de Carmem Dolores – pseudônimo de Emília Bandeira de Melo, mãe de Chrysanthème – o conto “A mula sem cabeça” narra como uma “rapariga atrevida, espécie de mestiça altaneira” foi transformada em assombração diabólica por tentar seduzir um padre. Já a “preta Isidora”, do conto “Os sapatinhos de pão”, é mulher escravizada que fica “como idiota”, “bebendo às vezes cachaça”, até ser encontrada morta. Tudo porque fizera os tais sapatos de pão para calçar o filho morto. A alma do menino não consegue entrar no céu com os sapatos e volta para pedir à mãe que os tire de seus pés, pois ele precisa ficar descalço como os anjos. O “lindo menino loiro” da Sinhá, morto no mesmo dia, entra no céu sem sapatos – mas vestido com as mais ricas vestes. Vivo ou morto, o filho de uma escrava não podia usar sapatos. Ainda que fosse católica fervorosa, uma mulher escrava atraía para si e para o filho a maldição, por desejar sapatos para o “moleque”.

 

 

Acervo de Cilza Bignotto

 

 

Acervo de Cilza Bignotto.

 

Ser negro era ser amaldiçoado, conforme uma série de ficções que circulavam oralmente e por escrito, entre elas a narrativa bíblica da maldição lançada por Noé a seu filho Cam, que teria recaído sobre o neto Canaã, interpretada por teólogos do passado como explicação para o surgimento das populações africanas.

 

Reescrevendo os atributos da cor negra

O racismo evidente nos livros infantis que circularam na Primeira República pode ser explicado por meio de algumas hipóteses. Em primeiro lugar, era efeito do racismo que estruturava (e ainda estrutura) a sociedade brasileira. Em segundo, era produto do racismo que permeava o sistema de ensino do período. Pesquisas recentes têm apontado o racismo vigente nas políticas de educação formal, que abrangiam da separação de crianças brancas e negras em diferentes turnos escolares a eventuais normas, como a exigência de sapatos para entrar nos recintos escolares, as quais impediam o ingresso de crianças pobres, como o eram, em sua maioria, as negras e pardas. Era possível entrar no céu sem sapatos, mas não em salas de aula.

Como a produção de livros infantis estava fortemente atrelada ao consumo escolar, é possível que autores, editores, ilustradores e demais agentes literários produzissem obras em consonância com as diretrizes, explícitas ou implícitas, das instituições de ensino. Tal contexto explicaria a ausência de personagens negras e os estereótipos raciais negativos nas obras infantis de autores como Coelho Neto, Olavo Bilac, Manoel Bonfim, os quais, em textos para adultos, defendiam os direitos das pessoas negras, a igualdade racial, o fim do racismo.

É preciso levar em consideração, ainda, as obras infantis que serviam de modelo para os escritores brasileiros. Presciliana Duarte de Almeida afirmava imitar os livros do alemão Cônego Schmidt; Olavo Bilac e Manoel Bomfim se inspiraram no romance francês Le Tour de la France par deux enfants (1877), de Augustine Fouillée, para escrever Através do Brasil; Arnaldo de Oliveira Barreto e Romão Puiggari seguiam o modelo do italiano Amicis. Estes e outros autores europeus forneceram os moldes pelos quais os brasileiros produziam literatura infantil. As regras do jogo só começaram a mudar com as obras de Monteiro Lobato.

Inovações no campo da literatura infantil, porém, não costumam acontecer de forma abrupta. Editores comumente publicam modelos já conhecidos e consagrados, que pais e professores reconhecerão como bons e adequados para crianças. Por isso, mesmo grandes inovadores, como Hans Christian Andersen ou Lewis Carroll, mantiveram elementos dos modelos de obras infantis do passado em suas criações. Esse tipo de cuidado garantia que suas obras fossem reconhecidas como infantis, para começo de conversa. Caso as inovações formais ou de conteúdo fossem muito radicais, as obras daqueles escritores corriam o risco de não serem aceitas por mediadores de leitura e pelas próprias crianças.

Como apresentar aos leitores Tia Nastácia, uma personagem negra que não apenas era muito visível, mas atuaria como protagonista? A situação era inédita em 1920. Podemos compreender por que, naquelas circunstâncias, Tia Nastácia foi introduzida como “negra de estimação”. Podemos, igualmente, imaginar por que o narrador insiste em se referir a ela como “boa negra”. Afinal, negros não costumavam ser naturalmente bons em histórias infantis; somente sacrifícios extremos por alguém branco os tornava moralmente dignos de apreciação.

Monteiro Lobato parece seguir as convenções de seu tempo, mas, na realidade, ele as transformou em grande medida.

O escritor mudou muitos dos atributos até então associados à pele negra. Tia Nastácia tem voz, sabedoria, e numerosas virtudes. Não porque sua pele seja clara, devido à mestiçagem; pelo contrário, seus traços negros são sempre realçados. Não porque alguma fada tenha lhe dado sabedoria, ou algum rio mágico a tenha branqueado. Não porque alguma criança loira a veja como “um anjo do Senhor”, depois de torturá-la. Ela é negra e é boa. A repetição exaustiva das duas qualidades pelo narrador indica o quanto era estranho encontrá-las reunidas em uma personagem de literatura infantil.

Outra forma utilizada por Monteiro Lobato para transformar o modo como personagens negras eram retratadas foi a crítica irreverente às demais obras infantis que então circulavam. É o que se observa, por exemplo, na cena de “O Circo de Escavalinhos” em que Pedrinho explica a Narizinho que Tia Nastácia talvez não vá ao espetáculo das crianças porque na plateia há muitas princesas: “Está com vergonha, coitada, por ser preta.”. Quem não teria vergonha, sabendo que a própria pele estava associada a maldições diversas? Qualquer conhecedor de contos de fadas de origem europeia – e Tia Nastácia os conhecia bem – saberia que negros só entravam em histórias protagonizadas por princesas para encarnar o mal ou atrair maldições. Narizinho responde que Tia Nastácia não deve “ser boba” por ter vergonha da própria pele. A menina apresenta Dona Benta e Tia Nastácia aos príncipes e princesas da seguinte maneira:

— Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a Princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura.

A explicação de Narizinho alude a obras literárias e a outros discursos sociais nos quais o valor de mulheres brancas era determinado pela origem e posição social da família, especialmente de seus integrantes masculinos. A importância solene que a figura do cônego poderia projetar sobre Dona Benta, porém, é transformada em piada hilariante pelo nome ridículo do cônego, sua fama nula e o fato de que ele nem vivo estava. Dona Benta, já sabiam os leitores, valia por si mesma. Quanto à Tia Nastácia, o discurso para justificar sua presença é o mesmo dos contos de fadas para crianças, como o de Chrysanthème, que associavam a cor da pele negra a maldições impingidas a princesas originalmente brancas. Mesmo princesas africanas, como Pérola Negra, do conto de Arnaldo Barreto, desejavam ardentemente o branqueamento. As palavras de Narizinho aludem, ainda, a ficções nada literárias que ainda hoje circulam, tais como a de que negros “bons” teriam “alma branca”. Tais ficções, conhecidas das crianças das primeiras décadas do século XX, revelam-se mentirosas e ridículas, por meio da fala de Narizinho. A falsidade e o absurdo das explicações exigidas para que o “respeitável público” acolha Tia Nastácia contrasta com o sentimento de inferioridade da personagem — muito verdadeiro para grande parte da população negra, na qual tais ficções eram incutidas.

A cena é exemplar da complexidade com que as obras infantis de Monteiro Lobato tematizam problemas adultos os mais variados, incluindo as tensões raciais brasileiras. A fala de Narizinho, se desvela o “faz de conta” de discursos racistas, ancorados em fantasias, simultaneamente revela o poder das fantasias na estruturação da realidade cultural. Trocando em miúdos, “Uma coisa existe quando a gente acredita nela”, como explica o saci a Pedrinho, no livro O saci. O racismo é sustentado por fantasias; nem por isso deixa de ser real.

Monteiro Lobato não “apaga” de seus livros infantis nem os negros, nem os discursos racistas que então circulavam, alguns dos quais, infelizmente, permanecem na sociedade brasileira. Ofensas de teor racial, porém, são majoritariamente proferidas pela boneca Emília, criada por Tia Nastácia. O recurso permite que falas racistas sejam desautorizadas no momento em que são expressas, por meio de vários mecanismos narrativos. A boneca não é humana, o que torna desumanos, por conseguinte, seus discursos. As ofensas geralmente surgem quando Tia Nastácia contraria os interesses mesquinhos, quando não maldosos, de Emília. A injustiça e o absurdo das falas preconceituosas da boneca se tornam ainda mais evidentes, em certas cenas, pelas ações de Tia Nastácia.

A passagem do tempo, porém, transformou os livros de Lobato – muito mais, talvez, do que seu autor poderia prever. Estão desaparecidas, das bibliotecas e das memórias, praticamente todas as obras infantis que circulavam na mesma época em que A menina do narizinho arrebitado era lida e, posteriormente, Reinações de Narizinho tomava seu lugar. Um dos efeitos provocados pelo fato de apenas a obra lobatiana ter atravessado um século e continuar a ser conhecida é que o diálogo, por vezes crítico e cáustico, estabelecido pelos textos lobatianos com outras obras infantis não é mais percebido pelos leitores. Para crianças e jovens adultos de hoje, que convivem com modelos muito diferentes de livros, filmes e outras produções para o público infantil, pode parecer, por exemplo, que Monteiro Lobato inventou a horrível história de que ter a pele negra pode ser uma maldição.

Leitores contemporâneos podem também estranhar a insistência do narrador em se referir a Tia Nastácia como “boa negra” por desconhecerem o quão forte era a associação entre pele negra e maldade, e o quão raras eram personagens negras em histórias infantis.

Na mesma linha, é difícil, para leitores de agora, ter ideia da dimensão da novidade que foi a criação da boneca Emília. As bonecas retratadas em obras infantis no tempo do escritor eram loiras, feitas de louça e vestidas de seda. O fato de a boneca de Narizinho ter sido criada por uma mulher negra já era um acontecimento singular. A valorização dos saberes e fazeres populares, em especial os afrobrasileiros, começa para valer nas obras infantis com Monteiro Lobato.

A trajetória de Emília, por sua vez, é bastante simbólica. Bonecas têm aparência humana mas são coisas que pertencem a pessoas; podem ser entendidas metaforicamente, portanto, como escravas. Crianças mordem bonecas, cortam seus cabelos, atiram-nas ao chão, gritam com elas, dão-lhes ordens. O corpo de Emília é rasgado o tempo todo, e novamente costurado por Tia Nastácia. Ao longo da saga do Sítio do Picapau Amarelo, a boneca vai ganhando autonomia, independência e humanidade; nas últimas histórias escritas por Monteiro Lobato, ela já deixou de ser coisa e passou a ser gente. Ora, ser gente significa ser frágil. Em uma das últimas histórias criadas por Monteiro Lobato, “A reinação atômica” (1947), Emília descobre que tem câncer. Ela havia viajado ao Atol de Bikini para ver “os estragos da bomba atômica”. Ao saber que está doente,

" Emília perdeu a compostura, fez cara de choro — ela que nunca havia chorado! E correu à cozinha em busca de tia Nastácia, à qual contou tudo, entre soluços, querendo saber se não havia remédio.
A negra riu-se, riu-se, e gozou de ver a invencível Emília abatida, chorosa, largada em seu colo, a fungar, no horror de ficar careca.
Mas teve dó dela e consolou-a:
— Não tenha medo, bobinha. Eu dou um arranjo nisso. Tio Barnabé tem um remédio para cabelo tão bom, tão bom, que até faz nascer cabeleira em ovo de galinha. Arranjo com ele uma dose, e deixo essa cabecinha com uma cabeleira que nem a de Sansão.
Emília fungou, fungou e afinal se consolou. "

Minutos depois, Emília está brincando com Pedrinho. A relação entre Emília e tia Nastácia é das mais complexas da literatura. No excerto reproduzido, é Tia Nastácia quem Emília procura quando finalmente se descobre frágil e chora. No colo da mulher que a criou, ela desabafa e pede ajuda. Tia Nastácia “goza” de ver Emília finalmente conhecer a dor; mas, como alguém que sabe bem o que é dor, especialmente a de um estigma, consola a boneca, como só ela poderia consolar. Vale notar, ainda, que saberes negros e populares entram em cena para combater a doença provocada por saberes brancos e científicos.

É também de 1947 “A violeta orgulhosa”, provavelmente o mais antirracista conto infantil de Monteiro Lobato. Para provar a uma violeta branca que ela não era superior às violetas roxas, às quais humilhava, Emília conta com a ajuda do Visconde — que explica, cientificamente, o quão despropositada era a ideia de “superioridade ariana”.

Não é possível julgar qualquer aspecto da obra infantil de Monteiro Lobato por apenas uma cena, por apenas um volume. Há que se ler todos, a fim de acompanhar como as personagens evoluem e como temas complexos, tais como as tensões raciais brasileiras, são desenvolvidos, por meio de sofisticados recursos narrativos. O que se pode afirmar, como comentário geral ao tratamento que Lobato dá ao tema do racismo em seus livros infantis, é que ele começou o longo processo da reescrita dos atributos de personagens negras em nossa literatura infantil. Esse processo ainda está em curso e tem gerado obras para crianças que, enfim, apresentam personagens negras como protagonistas não apenas livres de estigmas, como orgulhosas de suas origens étnicas.

  1. BARRETO, Arnaldo de Oliveira; PUIGGARI, Romão. Primeiro livro de leitura. 18a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1915. Disponível em: <http://lemad.fflch.usp.br/sites/lemad.fflch.usp.br/files/2018-06/primeiro_livro_de_leitura_barreto_1915.pdf> Acesso em: 22 dez. 2020.
  2. OLIVEIRA, Mariano de. Páginas infantis: leitura preparatória. 48a ed. São Paulo: Melhoramentos, 1935. Disponível em: <http://blij.bn.gov.br/blij/handle/20.500.12156.7/19> Acesso em: 22 dez. 2020.
  3. BILAC, Olavo; NETO, Coelho. Contos pátrios (para as crianças). Ilustrações de Vasco Lima. 44a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1958. p.76.
    BOMFIM, M. Primeiras saudades: leitura para o 1º ano do curso médio das escolas primárias. 1a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1920. Disponível em: <http://blij.bn.gov.br/blij/handle/20.500.12156.7/14> Acesso em: 22. dez. 2020.
  4. BILAC, O.; BOMFIM, M. Através do Brazil: (narrativa) livro de leitura para o curso médio das escolas primárias. 10a. ed. revista. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1923. Disponível em: <https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5051>
  5. TAVARES, J. Serões da mãe preta: contos populares para crianças. Pará: Tipografia de Alfredo Silva & Cia, 1897. Disponível em: <http://www.fcp.pa.gov.br/obrasraras/publicacao/seroes-da-mae-preta/>

Carta a Purezinha

Créditos e fonte: http://www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/monteirolobato/leia.html

Carta a Purezinha

À sua esposa, Pureza Monteiro Lobato, da prisão política de São Paulo em março de 1941

Purezinha

Só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. Mas de tanto trabalhar acaba girando num círculo, isto é, volta sempre às mesmas coisas. Os pontos que formam o círculo do nosso pensamento, ou as estações em que o pensamento pára, para pensar sempre a mesma coisa, são – 1º você. Penso em V. com uma ternura imensa e um imenso dó, e culpo-me de um milhão de coisas. Meu dever era só cuidar da tua felicidade, Purezinha, e no entanto passei a vida a te contrariar e a fazer asneiras que tanto nos estragaram a vida. Se eu tivesse ouvido em negócios, minha situação seria hoje de milionário. Não ouvi, nem sequer te consultei, e o resultado foi desastroso. Cheguei até à prisão!

Depois de pensar e repensar em você e de convencer-me que apesar de todas as aparências, e da nossa eterna divergência, é você a única pessoa que eu amo no mundo, pulo para outra estação. Há a estação da Morte, penso na sobrevivência, no Além, em promessas do espiritismo, etc. Penso em Guilherme (filho do escritor falecido aos 24 anos de idade) e Heitor (Heitor de Morais) e acho-os tremendamente felizes por já terem morrido, isto é, feito uma coisa que nós ainda vamos fazer. Depois penso no meu caso – na vingança que os homens de cima que eu insultei hão de querer tirar de mim. Que tolice dar soco em faca de ponta! Espetei a mão a faca ficou no que era. Meu soco não a quebrou.

A vida aqui me tem feito pensa no horror que V. sempre teve pela prisão, pela condenação do homem ao confinamento por anos e anos. Agora vejo como, sem Ter experiência própria, V. adivinhou o certo. Não há castigo maior. Mil vezes a cadeira elétrica ou a forca – dores de um momento.

Estou preso há quase três dias e já me parecem três séculos. As horas têm 60.000 minutos. As noites não têm fim. Sou obrigado a não fazer nada de nada. Não há o que ler – nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou, agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém, nem comunicar-me com ninguém.

Imagine agora o meu prazer quando ontem recebi um pacote. Abri e vi logo você ali – ceroulas, lenços, meias, pijama novo e aspirina. Que presente, Purezinha! Como qualquer coisinha é todo um mundo para quem está sem nada! Repeti mil vezes o teu nome, e hoje de manhã, ao acordar e ver em cima da mesa as coisas, peguei nas meias e beijei-as… Imagine agora a que fica reduzida uma criatura depois de anos de prisão se eu só com dois dias já estou assim.

Foi o primeiro contacto com o mundo externo, esse preente que V. m mandou. Que alegria imensa me causou! Foi o mesmo que receber a tua visita.

Tratam-me muito bem aqui. Os guardas e diretores são pessoas delicadíssimas; que vêm ver-me todos os dias e conversar. Estou num “apartamento” otimozinho, com um banheiro de primeira ordem, com lavatório, bidê, privada e banheiro novinho com água quente. Sou servido no quarto pelo João, um mulato que está preso há já três meses. Cinco refeições, imagine! Para eu que só azia três. Café com leite, pão e manteiga às 7 h. Almoço com seis pratos às 11, chá mate, pão e manteiga às 2. Jantar às 5 e chá à noite. Creio que vou engordar. Mas o que mais me dói é não Ter o que ler, nem o que fazer – eu com tanto trabalho em andamento aí em casa! Quem me dera pilhar a tradução a Gulnara (Gulnara Monteiro Lobato, nora e sobrinha de Monteiro Lobato) para corrigir! E o prebrezinho de Edgard? (Edgar Monteiro Lobato, então doente dos pulmões) Como vai ele? Febre ainda? Como eu prejudiquei aquele menino – como eu prejudiquei a vocês todos, minha cara Purezinha! E agora, no fim de dez anos de lutas, dou de presente a vocês o que meu Deus! A minha prisão – mais amargura para você, mais sofrimento…

O Ernâni, aquele em cuja casa você esteve anteontem mostrou-se muito camarada. Pedi-lhe que telefonasse a você ontem e agora espero-o ansioso para saber se telefonou. Ele entra em serviço às 9 horas, um dia sim, um dia não. São 8. Daqui a uma hora saberei se ele conversou com você. Adues, minha querida, minha cada vez mais querida Purezinha. Um apertadíssimo abraço, e outro em Rute (Rute Monteiro Lobato, filha do escritor) e Edgard. Coragem aí, que cá do meu lado é o que não falta.

Estou escrevendo por escrever, para dar vazão aos sentimentos, porque não há jeito de fazer este papel chegar a você.

Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra

Juca.

Bisneta de Monteiro Lobato participa de live com educadores da rede

Fonte: https://www.limeira.sp.gov.br/sitenovo/news.php?p=11816

A Biblioteca Pedagógica de Limeira promove na próxima segunda-feira (26) um encontro formativo com Cleo Monteiro Lobato, que é bisneta de Monteiro Lobato. Historiadora formada pela USP, escritora e tradutora, Cleo é filha de Joyce Campos (neta que teve contato com o escritor até os 18 anos) e idealizadora de um projeto que prevê adaptações da obra de Monteiro Lobado aos tempos atuais. Atualmente, Cleo dedica-se à tradução do livro “Reinações de Narizinho”, para o inglês. A iniciativa ocorre das 18h às 19h e integra o conjunto de ações em torno do Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril, em alusão à data nascimento do escritor.

A ação é voltada aos professores da rede municipal de ensino, profissionais da educação e a todas as pessoas interessadas na vida e na obra do autor. E segundo a bibliotecária Taciana Lefcadito Alvares, a ideia é subsidiar e fomentar a literatura infantil, em especial no mês de abril, com a temática voltada a Monteiro Lobato. O encontro será virtual, no formato de live, com transmissão pelo canal da Secretaria de Educação no YouTube.

Monteiro Lobato, o verdadeiro patriotismo militante.

Créditos e fontes: https://www.proust.com.br/

No dia 2 de julho de 1948, Monteiro Lobato concedeu à rádio Record aquela que seria a última entrevista de sua vida, que encerrou com as palavras: “O Petróleo é Nosso”! Dois dias após, “O Repórter Esso”, na voz de Herón Domingues, anunciou a morte de um grande brasileiro, desses que surgem poucos a cada geração: “E agora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande escritor e patriota Monteiro Lobato!”

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882, falecia aos 66 anos de idade; o corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre, que seguiu a pé até o Cemitério da Consolação, havia mais de dez mil pessoas, que compreendiam que Monteiro Lobato representara, a seu modo, o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas, aventuras pessoais ou coletivas, que formatariam um Brasil moderno.

Advogado sem vocação, seu primeiro emprego foi o de promotor público na cidade de Areias. Depois teve sua experiência como fazendeiro, mas as inovações agropecuárias que realizou demonstraram-se desastrosas; no entanto, “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Cavalheiro, porque o melhor “fruto da fazenda” foi o livreto “Urupês” (1918), uma coletânea de quatorze contos, nos quais surge a figura do Jeca Tatu.

O que “Urupês” desencadeou foi quase uma hecatombe na classe média que se expandia no Brasil. Surgia exatamente na contramão do otimismo que o recém reeleito Presidente Rodrigues Alves, o mesmo que higienizara o Rio de Janeiro com mão de ferro em seu primeiro mandato (1902/ 1906). O governo estabelecera o ufanismo nacional como plataforma de governo e, por encomenda, Afonso Celso publicara em prosa e verso o livro “Por que me ufano de meu país”. Por incrível coincidência, Rodrigues Alves morreria antes do final do ano de gripe espanhola contraída no Rio de Janeiro, a mesma gripe que em poucos meses dizimou dezessete mil pessoas somente na capital carioca.

O propósito claro de Lobato em “Urupês” e “Jeca Tatu” foi produzir um conto que fosse um grito de alerta contra o atraso cultural de nosso país, a miséria e o conservadorismo corrupto e corruptor. Se o índio fora o modelo idealizado por muitos escritores românticos do século passado, a figura do caboclo seria seu substituto moderno.

Jeca Tatu representa a miséria e o atraso do homem do interior. Ele é desleixado tanto na aparência quanto na higiene pessoal. Sem educação ou cultura própria, Jeca era ingênuo e repleto de crendices, visto como alcoólatra e preguiçoso. Porém, como afirma Monteiro Lobato, “Jeca Tatu não é assim, ele está assim”, a sociedade o deformou. “Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens nas tripas e no sangue todo um jardim zoológico da pior espécie. É bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não… És tudo isso sem tirar uma vírgula, mas ainda és a melhor coisa desta terra!”

“Urupês”, além desta personagem trouxe também uma série de inovações linguísticas. Monteiro Lobato estava preocupado em reproduzir nos seus textos a riqueza da fala do homem brasileiro do interior, seus coloquialismos e neologismos. De acordo com a crítica literária, o recurso da oralidade foi a maior ousadia do escritor em Urupês, pois nessa época o uso do português coloquial em obras era visto como algo “inferior” e sem valor literário.

Quando Monteiro Lobato em 1917 escreveu o texto “Mistificação ou paranoia”, criticando os modernistas, não se dera conta de que desde “Urupês” ele era uma clara ponte ligando o passado às convenções estilísticas propostas pelos mesmos que criticava.

De todo modo, Moteiro Lobato desistiu dos experimentos agrícolas, quando o êxito dos primeiros contos sacudiu o homem empreendedor e o levou a investir todas as suas forças e dinheiro no mercado editorial.

No princípio do século, os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa; Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil e abrindo possibilidade para diversos autores totalmente desconhecidos do público. “Um país se faz com homens e livros”. “Livro não é gênero de primeira necessidade… é sobremesa; tem que ser posto embaixo do nariz do freguês, para provocar-lhe a gulodice.”

Lobato conseguiu desenvolver um mercado de massa e transformar a indústria editorial em indústria de consumo. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominavam nosso mercado livreiro. Seu parque gráfico era o maior da América Latina.

O voo editorial, entretanto, fora alto demais. Sem nenhum apoio governamental, as grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética que se abatia sobre o Brasil e fazia as rotativas pararem. Lobato enfrentou dignamente a falência de sua Editora, em cujos alicerces ele, alguns anos após, plantaria uma nova, os da Companhia Editora Nacional, existente até os dias de hoje.

É depois da primeira experiência com uma editora que ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue a carreira de escritor. Seguidor de Figueiredo Pimentel, o brilhante autor português de “Contos da Carochinha”, Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra infanto-juvenil, que constitui aproximadamente metade da sua produção literária.

Em 1927, Lobato realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferro: é preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo.

Nos anos 30 havia interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo, afinal o ouro negro já jorrava espontaneamente no solo do meio oeste norte americano. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Na contramão dos interesses dominantes, fundou a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas elas a Companhia Mato-grossense de Petróleo (em 1938), que visava realizar perfurações quase junto à fronteira com a Bolívia, cujo governo nacionalista já encontrara gás e petróleo.

Em dois livros, “Ferro” (1931) e “O Escândalo do Petróleo” (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, que era acusado de “não perfurar e não deixar que se perfure” proibiu “O Escândalo do Petróleo” e mandou recolher todos os exemplares disponíveis, naquilo que seria o primeiro lance da longa sequência de escândalos envolvendo o petróleo brasileiro, que prosseguem até os dias de hoje.

A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe moveram os governantes, os burocratas e os sabotadores dos interesses pátrios, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso. Em 1941, depois de enviar outra carta a Vargas, acusando-o de má conduta na política brasileira de minérios, acabou preso. No Presídio Tiradentes foi confinado por quase quatro meses, na mesma cela do Pavilhão 1, pela qual passariam tantos presos da ditadura militar de 1964.

Na cadeia manteve-se altivo e escreveu ao general Horta Barbosa, comandante do Conselho Nacional do Petróleo, responsável por seu encarceramento, agradecendo “os deliciosos dias passados na Casa de Detenção”, que lhe permitiram “meditar sobre o livro de Walter Piktin, ‘A short introduction to the history of Human Stupidy'”.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lobato conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, bandeiras de lutas que se aprofundariam após a sua morte e que redundariam na fundação da Petrobras, empresa criada em 1953, na fase populista do então presidente Getúlio Vargas, impulsionada pela campanha popular iniciada em 1946 por Lobato, sob o slogan de “O petróleo é nosso”.

Voltemos ao Monteiro Lobato, o grande escritor da maior parte das histórias infantis nacionais. “A menina do narizinho arrebitado”, com edição inicial de cinquenta mil exemplares ocorreu no ano de 1921; nela Lobato introduziu o elenco de crianças e bonecos do Sítio do Pica Pau Amarelo. A seguir outras tão importantes ou mais foram: “Reinações de Narizinho” (1931), “Caçadas de Pedrinho” (1933) e “O sítio do pica-pau amarelo” (1939).

Lobato criou personagens inesquecíveis, que se incorporaram para sempre ao folclore brasileiro. Emília, a boneca de pano falante com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identificava quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã.

A figura folclórica do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação no autor de “Reinações de Narizinho”.

Lobato também acreditava que era chegada a hora de nos libertarmos da influência de Portugal e desenvolvermos uma linguagem brasileira. Nas suas adaptações infantis ele emprega uma linguagem coloquial e simplificada. Quase dez anos após, em 1928, o modernista Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico” apresentou a imagem do canibal brasileiro que devora o inimigo para apropriar-se de sua alma. “Assim como o canibal, o escritor brasileiro não deve absorver passivamente as influências estrangeiras, mas transformá-las em algo novo, abrasileirado, a la Monteiro Lobato”.

“Nós usamos a linguagem o mais simplificada possível, como a de Machado de Assis que é nosso grande mestre.”

Em “Don Quixote para crianças”, por exemplo, Emília, a boneca de pano, um dos álter egos do escritor, retira da estante o pesado Don Quixote que Dona Benta passa a ler para as crianças, netos e bonecos, nos famosos “Serões de Dona Benta”. Emília, depois de ouvi-la falar em lança em cabido, adargar, etc., perde o interesse e decide brincar. Então Dona Benta resolve contar a história de Cervantes com suas próprias palavras e quando Pedrinho, no final, pergunta se contara a história inteira, a avó diz que toda a história era apenas para os adultos. “Temos que abrasileirar a linguagem, tornando a literatura desejada pela nossa infância”.

“Os doze trabalhos de Hércules” concluem os trinta e nove livros infanto-juvenis e quase um milhão de exemplares em circulação. Através das viagens que os personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo empreendem com Hércules, Lobato conta os trabalhos de humanização realizados pelo maior dos heróis gregos, como também os principais e mais belos trechos da mitologia grega, em linguagem apropriada para crianças, mas com riqueza de detalhes raramente encontrada em outros livros de adaptações mitológicas.

Lobato, em sua época, foi o escritor mais traduzido para línguas estrangeiras como o francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas acabou derrotado. Tal qual ocorrera anos antes com Lima Barreto, era a segunda vez que isso sucedia. Na primeira vez, em 1921, Lobato desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para pedir votos. Na segunda vez, concorria à vaga de um jurista. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois votos, idêntica votação recebida anos antes por Lima Barreto.

Anticlerical por excelência, Monteiro Lobato sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil, na primeira fila do reacionarismo da guerra fria, denunciou o livro “História do Mundo Para Criança” como sendo o “comunismo para crianças”. Muitos exemplares do livro foram queimados por clérigos e autoridades Brasil afora. Por ordem do governo Getúlio Vargas, a adaptação infantil de Peter Pan foi aprendida pelo DOPS em todo o Estado de São Paulo.

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou “Paranoia ou Mistificação”, a crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a taxá-lo de reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos “ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de “colonialismos”, “europeizações”, da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone e nisso, como já o dissemos, ele mesmo era uma ponte para o moderno.

É bem verdade que a obra literária de Lobato da década de vinte, continha preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação fora um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Em seu livro, “O Presidente Negro” (1926), descreve um conflito racial de um tempo futuro (ano de 2.228), após a eleição de um negro para a presidência dos EUA, com consequências desastrosas advinda do cheque de raças, quase um século antes da eleição de Obama.

Posteriormente, com sua aproximação do socialismo, essa faceta “eugênica” e preconceituosa se desfaria. Relata seu biógrafo, Cavalheiro, que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio romântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político”.

Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes, durante a ditadura de Vargas. Empolgou-se com a luta antinazista na Segunda Guerra Mundial. Jamais escondeu sua admiração e estima por Luiz Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu, enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações.

Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de “Zé Brasil”, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o Presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

Monteiro Lobato foi um dos homens mais íntegros e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, daqueles que, passados quase um século, nossa pobreza ética e intelectual ainda se ressente da falta.

Bibliografia:

1. Lobato M. Urupês. Ed. Brasiliense, 1971.

2. Lobato, M. O Presidente Negro ou O Choque das Raças: Romance Americano do Ano 2228. Ed. Brasiliense, 1964.

3. Pereira, Astrojilgo. Crítica Impura. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963.

4. Lobato, M. Obras Completas, Ed. Brasiliense, 1959.

5. Schuacz, L.M. e Starling, H. Brasil: Uma Biografia. Brasil, Companhia das Letras, 2013.

Live Especial: “Monteiro Lobato, ontem, hoje e sempre”

Fonte: https://guiataubate.com.br/agenda/live-monteiro-lobato

 

Sobre o Evento

 

No reino do Taubaté Shopping Center será realizada live especial “Monteiro Lobato, ontem, hoje e sempre”

A live acontece pela plataforma do instagram @taubateshopping às 17h, do dia 24 de abril  e contará com interpretação em Libras. Em um primeiro momento a criançada participará online  com a Tia Gih da Oficina “Como fazer o Pó de Pirlimpimpim?”, em duas versões, uma delas comestível inclusive.

A dica é se preparar para a live, com traje ou maquiagem dos personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo, ou quem sabe trazer para a live um bom sabugo de milho, ou a boneca Emília, mas um bom livro do autor também é uma ideia muito borbulhante.

No segundo bloco, acontece um bate papo descontraído com a Cleo Monteiro Lobato, que lançou recentemente sua versão da obra “Reinações de Narizinho”, que é a obra mais literária do Lobato. Obra bilíngüe, adaptada e contém também uma versão em inglês. As ilustrações cheias de cor, meiguice e vida são do Rafael Sam.

Cleo afirma que pretende re-energizar o legado do seu bisavô e levar sua obra infantil para os EUA. E pasmem a Tia Nastácia tem turbante, saiu da cozinha e agora também compartilha a vida na sala de estar.

Estamos em contagem regressiva para esta live que promete muitas reinações

A live é recomendada para educadores, mães, pais, crianças, jovens e aos apaixonados pela obra de Monteiro Lobato, para maiores informações, entrar em contato via whatsapp (12) 99199 3946.

Manda chamar o Brecheret! Por Antonio Silvio Lefèvre

MANDA CHAMAR O BRECHERET!

ANTONIO SILVIO LEFÈVRE

Sobre a primeira e até agora inédita escultura de Monteiro Lobato

Era um tranquilo domingo, 4 de julho de 1948, quando, ligando o rádio pela manhã, meu pai, o médico Antonio Branco Lefèvre, ouve a notícia que menos desejaria ouvir:  a de que seu amigo e também paciente, o escritor Monteiro Lobato, havia falecido naquela madrugada.

Sim, embora meu pai fosse um neuropediatra, havia sido chamado algumas vezes para examinar Lobato juntamente com outros médicos pois, há alguns anos já, seu quadro de saúde era complexo e tinha componentes neurológicos, tanto que acabou morrendo de um derrame cerebral.

Indo direto para o velório, que foi instalado na Biblioteca Municipal de São Paulo, lá encontrou grande número de amigos próximos seus e de Lobato, como Caio Prado Junior, o dono da Editora Brasiliense, que editara as obras completas de Lobato, toda a turma da revista Clima… Antonio Cândido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Sales Gomes, Alfredo Mesquita, Lourival Gomes Machado.  E também o casal Tatiana Belinky e Julio Gouveia que mais tarde lançariam o Sítio do Picapau Amarelo na TV e muitos outros.  Entre eles Artur Neves, que havia sido sócio de Lobato nas suas primeiras iniciativas como editor, além de escritor.

E enquanto vários dos presentes discursavam enaltecendo o legado de Lobato e lamentando sua morte, de repente alguém observou que, por mais famoso que já fosse o escritor, era estranho que não  houvesse estátua ou busto dele em lugar nenhum.  Foi quando Artur Neves, impressionado com a lembrança, exclamou: “Manda chamar já o Brecheret!”.

Aquele que já era o mais famoso escultor brasileiro de então e que depois se tornaria “imortal” com o Monumento aos Bandeirantes no Parque do Ibirapuera, em São Paulo (apelidado jocosamente de “não me empurra…”), apareceu pouco depois no velório e com muita destreza e rapidez, para não perturbar a cerimônia, aplicou  uma massa no rosto do falecido e tirou dele um molde. Que alguns dias depois se transformou num busto ou máscara mortuária em bronze, a primeira escultura de Monteiro Lobato, criada no dia da sua morte.

Confiada por Brecheret a Artur Neves, em homenagem à sua amizade com Lobato, esta obra histórica  está hoje sob a guarda da filha de Artur, Marcia Neves Bodanzky, esposa do cineasta Jorge Bodanzky, não por coincidência meu mais velho amigo.

Sim, pois as coincidências não faltam neste universo lobatiano, já que, em minha geração, somos todos “filhos de Lobato”, como tão bem descreve o meu também amigo José Roberto Whitaker Penteado, ex Presidente da ESPM, em seu livro com esse título.

Todos os presentes naquele velório e pelo menos a geração seguinte, da qual eu faço parte, tiveram forte ligação com Lobato e sua obra. Dois anos depois, em 1950, Artur Neves foi o produtor e roteirista de um filme pioneiro baseado no livro de Lobato “O Saci”, pequena obra-prima que lançou Alex Viani, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros jovens no âmbito do cinema. Com trilha musical do Cláudio Santoro, fotografia de Ruy Santos e por aí vai. E a produtora deste filme foi a Cinematográfica Maristela, inaugurada neste ano e  cujo sócio e presidente era meu avô materno, Benjamin Fineberg.

E seis anos depois, em 1954, eis que Tatiana Belinky, que iniciara o Sítio do Picapau Amarelo na TV Tupi, escolhe este articulista, filho do amigo Lefèvre, para interpretar o Pedrinho na série. Sim, porque não havia artistas crianças disponíveis naquela época e o casal  ia escolhendo seus protagonistas entre os filhos dos amigos que eram treinados no TESP (Teatro Escola São Paulo) que haviam criado com esta finalidade em 1949, exatamente um ano após a morte de Lobato.  Só para o personagem da boneca Emília é que não foi possível encontrar um intérprete infantil, tão difícil era o papel…  e assim ele foi confiado a uma profissional de teatro que fez história na TV de então, Lucia Lambertini.

Em julho de 2018, 70 anos depois do falecimento de Lobato, sua obra entrou em domínio público e deve ser reeditada e divulgada por várias editoras, na esperança de que novas gerações venham a apreciá-la, como a minha.  Assim, 2019 tem tudo para ser um “Ano Lobato”.

Neste contexto me ocorreu faria todo sentido que este busto inédito de Lobato por Brecheret estivesse exposto num museu ou local público importante, onde todos pudessem apreciá-lo.  Imaginei-o, por exemplo, no hall de entrada do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que está sendo reconstruído.  Pois muito embora o acervo deste museu seja em grande parte digital, se há algo que mereceria estar lá fisicamente, em bronze, é justamente este grande escritor brasileiro do século XX que foi Monteiro Lobato.

Em tempo: neste “Ano Lobato” devemos uma homenagem especial a minha querida diretora Tatiana Belinky, cujo centenário de nascimento comemoramos  em março último. E eu, pessoalmente, cada vez que penso nela me lembro, saudoso, do seu filho André Belinky de Gouveia, grande amigo meu na adolescência e que foi também ator, como eu, tendo morrido muito jovem num acidente de moto na França. Um “filho de Lobato” a menos na nossa geração.

Celebre o Dia Mundial da Criatividade!

De sua incrível imaginação, surgiram os personagens mais marcantes e inesquecíveis: a Emília – uma boneca falante, a Cuca – uma espécie de bruxa com cabeça de jacaré, o Visconde de Sabugosa – uma espiga de milho intelectual. Até mesmo a Mula sem Cabeça e o Saci Pererê fazem parte de suas histórias!!! 🧡

Graças a sua imaginação repleta de magia, Lobato conseguia pensar como uma criança na primeira infância e através de suas obras, descrevia os universos fantásticos onde coisas incríveis acontecem e os limites eram ditados apenas pela capacidade quase infinita que ele tinha de imaginar.

Na sua imaginação, boneca de pano era gente, espiga de milho era gente e o pó de pirlimpimpim fazia as pessoas viverem aventuras fantásticas.

E no Dia Mundial da Criatividade, não falar de Lobato é quase que impossível.

Inspire-se na criatividade lobatiana e encontre a sua coragem de tirar as suas ideias da cachola!

Dia do livro infantil com Cleo Lobato

Especial Semana Monteiro Lobato no Dicas de Roberth – Dia 18/04/2021

Fonte: Dia do livro infantil com Cleo Lobato – O Maringá (omaringa.com.br)

Eu basicamente li todos os livros infantis e a maioria da coleção adulta. Em casa minha família era contra ter televisão. Então custei muito a ter o hábito de ver TV. Quase não assisti ao Sítio da televisão, nenhuma das séries… pois além de não ter o hábito, nessa altura já estava fazendo faculdade, namorando e casando. Mesmo assim minhas personagens preferidas das séries de TV são a Emília e a Cuca.

Agora dos livros eu sempre fui fã do Hércules! Sempre adorei mitologia Grega. Fomos a Grécia duas vezes! Visitei o palácio do Rei Minos.
O que mais me impressionava na obra de Lobato quando eu era criança era como era divertido aprender! Imagina que eu li até Aritmética da Emília e Emília no País da Gramática e achei maravilhoso! Hoje em dia me impressiona como Lobato trata de situações complexas e difíceis nos seus livros que são “infantis”. Por exemplo em Reinações de Narizinho, Emília fala sobre morte, ou melhor o “assassinato” da vespa pela Narizinho. Assassinato este não intencional (Narizinho mordeu a jabuticaba e matou a vespa) mas mesmo assim a vespa sofreu (Emília descreve detalhadamente o sofrimento da vespa) e morreu…olha que assunto complicado! Que oportunidade para se iniciar uma conversa sobre o que é morrer (tem toda uma longa descrição do enterro da vespa) e se existe matar alguém sem intenção…

Esse último ano, com a pandemia, tem sido muito difícil. Estava acostumada a viajar para o Brasil e ver minha mãe a cada três meses, mas agora já faz um ano inteiro que não a vejo. O interessante é que a pandemia impulsionou a minha presença virtual e o meu trabalho com Monteiro Lobato. Antes era complicado eu não estar fisicamente no Brasil, mas durante este ano tudo passou a ser virtual. Pude até organizar um evento virtual de três dias de duração com mais de 700 inscritos celebrando o primeiro livro infantil de Monteiro Lobato – A Menina do Narizinho Arrebitado – que aconteceu em Dezembro do ano passado.
Tivemos nove mesas redondas com os principais estudiosos de Lobato, falando de tradução, da influência de Lobato e mil outras coisas. Se quiserem ver está tudo disponível no YouTube Lobatocomvc e no site www.Natrizinho100anos.com

Há anos que penso em trazer Monteiro Lobato para os EUA mas este pais é muito insular e eu tinha dúvidas se os Americanos se interessariam em ler Lobato, mesmo ele sendo tão importante no Brasil. Curiosamente o que descobri é que existe um contingente muito grande de Brasileiros imigrantes igual a mim que estão criando filhos bilingues (ou estão tentando) e querem Lobato em Português nos EUA. Inversamente também descobri que existem Brasileiros no Brasil, criando filhos bilingues e querendo Lobato em Inglês!

Após descobrir meu público foi que eu iniciei esse processo de adaptação e tradução da primeira história do livro Reinações de Narizinho que se chama Narizinho Arrebitado-livro 1 e saiu em Dezembro de 2020.
Ao se traduzir um livro necessariamente a obra passa por uma adaptação, pois está havendo uma transposição de uma cultura para outra cultura. Esse processo de tradução junto com a minha vivência de 23 anos aqui nos EUA e o fato de ter conhecido minha editora, Nereide Santa Rosa (outra brasileira que emigrou para os EUA) foi o que me impulsionou a fazer a adaptação em português e lançar Monteiro Lobato nos EUA e no Brasil em Inglês e Português e com ilustrações novas.

Na adaptação que fizemos, Tia Nastácia ganhou nova roupagem, não só externa, mas também interna. Esse foi o único ponto da obra de Lobato que eu e minha editora decidimos que era necessário modificar. Decidimos que Tia Nastácia, o único personagem afro-descendente além do Saci e o Tio Barnabé, na obra de Lobato, precisava ser atualizada para que os livros do meu bisavô continuassem a dialogar com o mundo atual. Também para que seus livros continuassem a ser lidos pelas crianças de hoje e continuassem a criar leitores pensantes como fazem há 100 anos. Tia Nastácia original não reflete mais o papel do negro na sociedade Brasileira. Já se foi o tempo em que na TV, nas novelas, só havia espaço para atores negros representarem empregada/os. Mesmo na adaptação da televisão da TV Globo Tia Nastácia ainda era a ex-escrava, empregada que cozinhava bem e ajudou D. Benta a criar Narizinho. Na adaptação que fizemos alteramos Tia Nastácia para o presente onde ela é amiga de infância de D. Benta e mantivemos todo o resto: quituteira, a pessoa que simboliza o conhecimento do folclore brasileiro, a pessoa que dá colo e amor quando as crianças se machucam…eu acho que essa modificação reflete a evolução da sociedade Brasileira.

Nossa Tia Nastácia também tomou uma injeção de orgulho no visual que o ilustrador Rafael Sam, do Recife criou para ela. Tem sido fundamental a participação do Rafael Sam com as novas ilustrações para criarmos a nova Tia Nastácia que tem orgulho das suas origens africanas. Os livros de Lobato se passam num universo de fantasia que retrata o interior do Vale do Paraíba no período após a abolição da escravidão. Agora com a adaptação que fizemos esse universo fantástico passa a existir num nível atemporal onde os personagens do Sítio vivem suas aventuras, interagem com o mundo e aprendem sobre a vida.
Na adaptação que fizemos colocamos um prefácio explicativo além de um glossário com definições das palavras em desuso. Acho importante para os leitores saberem que houve escravidão no Brasil, que o sistema capitalista do Brasil colônia e do Brasil Império foram baseados no trabalho escravo e que essas condições sócio-econômicas evoluíram até os dias de hoje. Apesar de grandes conquistas em todos os níveis ainda é necessário mais progresso para se ter um Brasil com maior igualdade socio econômica para todos.
O que mais me fascina na biografia do meu bisavô era sua capacidade de sonhar grande e de sempre rever suas opiniões. É absolutamente inacreditável como Lobato, ao herdar a fazenda São José do seu avô, o Visconde, parte para modernizar o sistema de plantio e colheita. Minha bisavó, Purezinha tratava dos colonos com homeopatia! É de conhecimento de todos que Lobato ficou horrorizado com a apatia do colono e escreveu Jeca Tatu. Depois foi pesquisar as causas da tal apatia e descobriu que a culpa não era do Jeca, mas sim da verminose que sugava o Jeca e o deixava assim! Então, não contente em somente denunciar a situação ele se alia a Candido Fontoura, criador do Biotônico Fontoura e cria a maior campanha publicitária para resolver o problema da verminose do homem do campo! Lobato parece não ter a noção desses limites, e achar que pode resolver o problema de todos e do Brasil…depois foi a vez de Petróleo e ferro. Ele realmente se esforçava para resolver os problemas do Brasil – e pensava sempre nesses termos monumentais e ia atrás com uma perseverança, energia e tenacidade incríveis!

Eu acredito, igual Lobato, que um país se faz com homens e livros, mas também professores bem pagos.. É fundamental termos pessoas que saibam ler, entender e discutir situações complexas. E isso só se consegue com um bom sistema de ensino onde o professor seja valorizado e bem pago para poder fazer seu trabalho de formação dos alunos.
Narizinho Arrebitado-livro 1 está disponível no Amazon.

Dicas de Roberth em parceria com Mundo Geek e O Maringá agradecem por fazer deste dia muito mais especial com leitura e esperança para todo o povo brasileiro.

Viva Monteiro Lobato! Viva o livro infantil em todo lar de nosso Brasil!

Monteiro Lobato: da morte às origens. Por Antonio Silvio Lefèvre

Autor: Silvio Lefèvre

Créditos e fontes: https://www.chumbogordo.com.br/34725-monteiro-lobato-da-morte-as-origens-por-antonio-silvio-lefevre/

(O judeu Monteiro Lobato, aprendendo a ler e escrever com meu pai…)

ANTONIO SILVIO LEFÈVRE 

Desde o final de 2018, 70 anos depois da morte de Lobato, quando sua obra entrou em domínio público, eu, como intérprete do Pedrinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo (TV Tupi, 1954) fui chamado a participar de muitas conferências, debates e “lives” sobre sua vida e sua obra.

Por mais que já se tenha escrito e debatido sobre Lobato e sua obra, sempre pude revelar fatos inéditos, que o convívio intenso com a herança cultural lobatiana desde a minha infância me trouxe a ventura de conhecer.

Aqui mesmo, no Chumbo Gordo, contei o que aconteceu no dia mesmo da morte de Lobato (4 de julho de 1948) quando, no velório, seu sócio, Artur Neves gritou “Manda chamar o Brecheret!” para que o já famoso artista tirasse um molde do rosto de Lobato para esculpir uma máscara mortuária.

Mais recentemente, a amiga Márcia Neves Bodanzky, esposa do amigo cineasta Jorge Bodanzky e filha do Artur Neves, passou a mim uma descoberta de arrepiar… um exemplar até então soterrado da edição especial da revista Fundamentos, da Editora Brasiliense, publicada em setembro de 1948 e totalmente dedicada à memória de Lobato, recém-falecido. E eis que, entre os artigos de muitos famosos, deparo com um de meu pai, o médico neurologista Antonio Branco Lefèvre, com o título “Lobato diante da morte”. E nele meu pai relata o que ocorreu num atendimento a Lobato, logo após ele ter tido um pequeno AVC.

«Quando foi que morri?», perguntou Lobato


«Quando foi que morri?», perguntou Lobato calmamente, imaginando que já estivesse em outro mundo. Prosseguindo o exame do paciente, meu pai verificou que embora ele estivesse bastante fluente na fala, simplesmente não conseguia ler nem escrever nenhuma palavra!

E meu pai explica no artigo: “Tratava-se de uma sequela que é bastante rara na patologia neurológica: uma alexía, sem o menor componente afásico, apresentando, entretanto, uma agrafia bem nítida. Estranha esta coincidência. Um cérebro como o de Lobato atingido exclusivamente em duas funções que eram nele tão extraordinariamente desenvolvidas: a leitura e a escrita”.

E sobre a reação de Lobato, comentou: “Tudo isto pode levar a crer que fosse enorme seu desespero em face desta situação. Poucas vezes entretanto o encontrei irritado com sua moléstia. É verdade que a recuperação foi se fazendo tão rapidamente, que o doente, sentindo os seus progressos diários, sabia que a cura estava próxima, como de fato se deu em duas semanas, aproximadamente.”
Já nos primeiros dias, em que meu pai fazia exercícios para ensinar Lobato a ler e a escrever, o aluno, jocosamente lhe perguntou: Quando é que vou passar para o segundo ano?”

Infelizmente, quando Lobato teve um segundo AVC este o fulminou instantaneamente. “Quando cheguei à sua casa naquela fria madrugada de domingo, ele já estava morto, com uma estranha expressão de calma e serenidade na face”, escreveu meu pai.

Da morte às origens de Lobato

MONTEIRO LOBATO

Além de tudo o que me foi perguntado sobre Lobato nas conferências e debates, que se estenderam até agora, na celebração dos 70anos da TV no Brasil, em que foram relembradas as várias apresentações do Sítio do Picapau na TV, desde a primeira, da qual participei, houve uma que me levou ao extremo oposto da sua morte…a busca das suas origens familiares.

Tudo começou com uma conversa minha com sua bisneta, Cleo, que vive atualmente nos Estados Unidos e de lá administra um site criado para a memória de seu bisavô, o www.monteirolobato.com

Cleo é filha de Joyce, neta de Lobato, por sua vez filha de Martha, uma das duas filhas mulheres de José Bento Monteiro Lobato, como era seu nome completo. Formada em História pela USP, Cleo se interessa muito pelas origens da família e me relatou que sua mãe, Joyce,  lhe disse ter o sentimento de que a família era de cristãos-novos, ou seja, de judeus conversos para escapar da Inquisição. Possivelmente essa curiosidade pelo lado judaico tenha sido estimulada pelo fato de Joyce ter-se casado com um judeu polonês, Jerzy Matheusz Kornbluh, pai de Cleo.

Quando lembrei Cleo que minha sogra, Anita Novinsky, que havia sido sua professora na História da USP, é a maior especialista no tema da Inquisição e dos cristãos-novos no Brasil, ela ficou muito entusiasmada e de pronto me mandou uma árvore genealógica da família Lobato, elaborada por uma equipe da UNICAMP, sob a direção da Marisa Lajolo, renomada estudiosa da obra de Lobato. E me mandou também um pequeno tesouro, que é o “Caderno de Dona Purezinha”, em que a dedicada esposa de Lobato faz revelações extraordinárias sobre a vida e obra do marido, mas também muitas sobre as origens da família.

Pois bem. Não foram necessários estudos históricos aprofundados para que Anita me assegurasse que, sem dúvida alguma, a família toda de Lobato é de cristãos-novos, portanto judeus convertidos. Já numa simples análise das últimas gerações lobatianas, observou que José Bento Monteiro Lobato tinha duas irmãs com prenomes tipicamente judaicos: Esther e Judith. E ele mesmo deu nomes judaicos para suas duas filhas: Ruth e Martha (mãe da Joyce)

Ora, é sabido que esses nomes não vêm por acaso… sendo evidente que tanto o pai de Lobato, como ele mesmo, os tinham no seu inconsciente cultural.

Os ancestrais cristãos-novos de Lobato

MONTEIRO LOBATO

E quando lembrei a Anita que a família de Lobato havia se estabelecido em Taubaté o diagnóstico, então, foi fulminante pois, segundo, ela, Taubaté foi um dos mais importantes locais de partida dos bandeirantes para todo o Brasil. E, sabidamente, os bandeirantes eram em sua quase totalidade cristãos-novos, alguns como Raposo Tavares, com ancestrais queimados pela Inquisição e que, por isso mesmo, nutriam um ódio figadal contra os jesuítas, que combateram na “Guerra das Missões’”

“Monteiro Lobato era descendente dos primeiros fundadores de Taubaté, Pinda, e Paraibuna, gente que teve desbravadores do sertão e sempre as rédeas do Governo que se difundiu pelo seus descendentes,”, escreveu Purezinha no seu diário. Tanto que entre os nomes que aparecem na genealogia da família Lobato está o do bandeirante Pedroso Alvarenga. Sobre Luiz da Costa Cabral, um ancestral dos Lobato, Purezinha conta que “ em companhia de Borba Gato, foram portadores de valiosos presentes à D. João IV”

Voltando mais atrás na história encontrei um ancestral Lobato que ficou famoso por ter renegado a conversão forçada ao catolicismo e voltado às raízes judaicas. Segundo relata Meyer Kayserling em seu clássico “História dos judeus em Portugal”, Diogo Gomes Lobato (prenome original Abrão Cohen) tinha um primo, Paulo de Pina, que pretendia se tornar monge e que Diogo aconselhou fortemente a não fazê-lo e voltar à religião materna. “Pina viajou com seu parente Lobato para o Brasil e de lá para Amsterdão, onde se tornou fiel adepto do judaísmo”

Ficando mais do que claras as origens judaicas dos Lobato pesquisei eventuais referências do próprio Lobato a este fato. Nada encontrei nos seus textos em relação às origens mas sim muitas referências aos judeus. Sempre muito eloquentes em termos de admiração e respeito.

Lobato e os judeus

Numa entrevista concedida ao jornalista Nelson Vainer nos anos 40, ainda durante a guerra, Lobato dá um depoimento que merece ter um trecho reproduzido por sua expressividade e, incrível, por sua grande atualidade:

“O maior drama da História temo-lo na vida dos judeus, a raça que, como disse Heine, criou para si mesma uma ‘pátria portátil’ e talvez por essa razão se tornasse indestrutível – e tão perseguida pelas raças de pátria fixa. Várias circunstâncias tornaram o judeu um povo à parte e eterno aluno da Escola da Adversidade. E se o cursar essa escola durante séculos traz realmente superioridade, o povo judeu tem razão no alto juízo que faz de si mesmo, porque nenhum outro fez na escola terrível curso tão longo. Daí o aparentemente estranho fenômeno de um povo tão pequeno em número ter produzido grandes homens e grandes coisas em proporção tremendamente superior à dos demais povos, a ponto de tornar-se um eterno “caso” no mundo”.

O que mais é preciso para sabermos que Lobato, além de ser judeu pela origem, se sentia também como um judeu e fazia um discurso próximo do sionismo?

Fiquei curioso apenas por saber o que Lobato sentiu quando, exatamente dois meses antes da sua morte, em 14 de maio de 1948, era fundado o Estado de Israel e os judeus não precisaram mais ser “portáteis”.

O mundo encantado de Monteiro Lobato

Sua primeira história, “A menina do narizinho arrebitado”, depois intitulada “Reinações de Narizinho”, foi publicada em 1920. O sucesso foi tão grande que ele não parou mais. Depois deste livro inicial, criou outros,  imortalizando os personagens que viviam num lugar mágico chamado Sítio do Pica-Pau amarelo.

As histórias se passavam neste sítio de Dona Benta, avó de Narizinho e Pedrinho, e a estes se juntavam Tia Nastácia – que fazia deliciosos bolinhos de chuva; Tio Barnabé – o velho contador de causos; a dupla engraçada de trabalhadores rurais: Zé Carneiro e Pedro Malazarte; e os famosos Emília, a boneca de pano, teimosa e engraçada; Visconde de Sabugosa, o sabugo de milho que tinha virado gente e era  dono de uma admirável inteligência; o Marquês de Rabicó, porquinho que vivia às voltas com a boneca falante em suas brincadeiras mirabolantes.  Às vezes apareciam no Sítio personagens das lendas brasileiras, como o Saci e a Cuca; e outros da literatura universal, como Hércules e certos mitos gregos. Dona Benta, grande contadora de histórias, podia entreter os meninos durante horas, narrando para eles a História das Invenções. Ou  então era Emília que se aventurava com seus companheiros pelo País da Gramática. Tudo muito divertido.

Desde o início os livros foram ilustrados. Quem fez os primeiros desenhos foi um amigo de Lobato chamado Voltolino, que era caricaturista. A caricatura é um desenho onde os traços são bem fortes. Hoje há edições belíssimas de todos os livros. Se você ainda não leu um deles, comece já!

Monteiro Lobato morreu em 4 de julho de 1948. Morreu, não! Como Emília  gostaria  de dizer, transformou-se em “gás inteligente”.

Seis livros que toda criança deve ler

Reinações de Narizinho: Neste livro Lúcia, mais conhecida como Narizinho, visita o Reino das Águas Claras, levando a tiracolo sua boneca de pano, Emília. Com a chegada de Pedrinho, o primo da menina do nariz arrebitado, que veio de São Paulo passar as férias no Sítio do Picapau Amarelo, tudo fica mais divertido.

As Caçadas de Pedrinho : Uma onça pintada anda rondando o Sítio do Picapau Amarelo, lá para os lados do Capoeirão de Taquaraçus. E Pedrinho resolve montar uma verdadeira expedição para sair em sua busca. Claro, sem contar para Dona Benta ou Tia Nastácia. Muitas aventuras e um novo personagem para o Sítio: o rinoceronte Quindim.

O Saci: Pedrinho ganha um novo amigo para suas aventuras. Ele tem só uma perna, fuma cachimbo, usa barrete vermelho na cabeça. Vem do folclore para fazer companhia na busca pela cultura brasileira… Entre as personagens que eles encontram estão a Cuca e o Boitatá.

A Chave do Tamanho: As notícias sobre a Segunda Guerra Mundial chegam ao Sítio pelo rádio e entristecem Dona Benta e toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Emília, a protagonista desta história, resolve sair em uma aventura para acabar com as batalhas e acaba por fazer todos diminuírem de tamanho.

Serões de Dona Benta: A avó usa acontecimentos do dia a dia para falar sobre ciências com as crianças. Entra um pouco de tudo… geologia, física, geografia… As perguntas e as observações engraçadas de Emília ajudam na construção do conhecimento.

Viagem ao Céu: A matéria agora é Astronomia! As crianças se divertem no espaço – dos anéis de Saturno à cauda um cometa – e Tia Nástácia, no mundo da Lua, cozinha para… São Jorge, em pessoa!

Títulos da literatura infantil de Monteiro Lobato:

1 – Reinações de Narizinho

2 – Viagem ao céu e O Saci

3 – Caçadas de Pedrinho e Hans Staden

4 – História do mundo para as crianças

5 – Memórias da Emília e Peter Pan

6 – Emília no país da gramática e Aritmética da Emília

7 – Geografia de Dona Benta

8 – Serões de Dona Benta e História das invenções

9 – D. Quixote das crianças

10 – O poço do Visconde

11 – Histórias de tia Nastácia

12 – O Picapau Amarelo e A reforma da natureza

13 – O Minotauro

14 – A chave do tamanho

15 – Fábulas

16 – Os doze trabalhos de Hércules (1º tomo)

17 – Os doze trabalhos de Hércules (2º tomo)

Fonte: GCN

Conheça mais Marcia Camargos

Escritora com pós-doutorado em História pela USP, ela tem 30 livros publicados, entre ensaios, biografias, romances e infanto-juvenis. Foi co-autora de Monteiro Lobato em “Furacão da Botocúndia”, obra que lhe rendeu prêmio Jabuti e Livro do Ano pela CBL em 1998, e escreveu também “À mesa com Monteiro Lobato”, em 2008, e “

Juca e Joyce: memórias da neta de Monteiro Lobato”, em 2007. Curadora das suas “Obras Completas”, relançadas pela Editora Globo, em 2007, mudou-se para a França em 2016, onde passou a preparar um segundo pós-doutorado na Sorbonne, sobre os modernistas em Paris nos anos 1920.

Você sabe como surgiu a Semana Monteiro Lobato?

A Semana Monteiro Lobato é um evento que aconteceu pela primeira vez entre 11 e 18 de abril de 1953, em Taubaté.  Ela surgiu com o objetivo de resgatar a importância do escritor taubateano e sua contribuição única para a formação de um pensamento genuinamente brasileiro. 

Para atingir esse objetivo, os organizadores procuraram evitar debates e estudos que abordassem um tema espinhoso: a conturbada relação de Monteiro Lobato com Taubaté,  sua terra natal, assunto muito polêmico na cidade e causador de prejuízos à memória do escritor. Durante anos, foram “fabricadas” dezenas de mitos injuriosos, quase todos girando em torno de um suposto desprezo de Lobato com a gente de Taubaté. Como resultado, até aquele momento, todas as tentativas de envolver a cidade em homenagens ao já consagrado escritor resultaram em retumbantes fracassos.


Esse rancor doméstico teria se “oficializado” em 1922, logo depois do lançamento de “Cidades Mortas”, livro que traça um perfil não muito simpático de um decadente Vale do Paraíba nos primeiros anos do século XX.


Em Taubaté, a reação contra o livro de Lobato partiu de um vereador, Luís Câmara Leal, que em uma sessão da Câmara Municipal, subiu à tribuna como porta-voz de uma ressentida e indignada “elite” da cidade, que dizia se sentir traída pelo escritor. Eles acreditavam que, principalmente, por ser o neto do outrora poderoso Visconde de Tremembé (falecido em 1911) e por viver até poucos anos sob a sua sombra, Lobato não poderia e não tinha o direito de expor com tanta crueza a realidade retrógrada que na época o Vale vivia. 


Durante anos e sem sucesso, os jacarés (apelido dos super amigos de Lobato) Cesídio Ambrogi (1893-1974), Gentil de Camargo (1900-1983) e Urbano Pereira (1902-1968) tentaram mudar esses conceitos, sempre ressaltando que a importância do escritor era muito maior do que as picuinhas regionais. 


A ideia de realizar uma Semana Monteiro Lobato surgiu de Gentil de Camargo em 1952: “Fui convidado para fazer uma palestra sobre Euclides da Cunha, cuja semana estava sendo festejada em Taubaté. (…) E terminada a conferência no Rotary Club, então eu fiz essa pergunta: se uma cidade, que não é o berço natal de Euclides da Cunha, onde ele não redigiu ‘Os Sertões ‘, instituiu a existência da semana de Euclides da Cunha, então porque Taubaté, berço natal de Monteiro Lobato, não realiza uma semana para homenageá-lo? Lanço essa ideia na terra fértil desse clube”.(Texto adaptado do Almanaque Urupês)


Hoje, o evento já atingiu projeção nacional e conta com palestras, exposições artísticas, oficinas pedagógicas, concursos literários, contação de histórias, música, dança e teatro! 
E você, já conhecia o evento ou sabia da história dele?  Aproveite para conferir a programação SML 2021 CLIQUE AQUI

WORKSHOP ONLINE – MONTEIRO LOBATO

WORKSHOP ONLINE – MONTEIRO LOBATO

Estão abertas as inscrições para o workshop online "Monteiro Lobato: por que e como ler Lobato com as crianças de hoje?", uma parceria do Instituto Quindim com a Casa de Histórias Sônia Travassos. Em dois encontros virtuais, o objetivo é discutir aspectos da obra infantil de Lobato, mostrando porque seus livros são um marco na literatura para crianças no Brasil e se tornaram clássicos. 

As obras podem ser compartilhadas com as crianças de hoje? O que favorece e o que dificulta a leitura da obra lobatiana? Qual o lugar do professor como importante mediador?

@soniamariatravassos é doutora e mestre em Educação (UFRJ), especialista em Literatura Infantil e Juvenil (UFRJ), mediadora de leitura, escritora  e contadora de histórias. Idealizadora da Casa de Histórias Sônia Travassos (@casadehistorias.st), espaço virtual para a divulgação da literatura infantil e para a formação continuada de professores.

INSCREVA-SE NO LINK DA BIO: @institutodeleituraquindim e da @casadehistorias.st@gmail.com  será

AULAS: aos sábados, dias 17 e 24 de abril, das 09h às 12h.

INVESTIMENTO: 
R$ 180 (conveniados, ex-alunos do Instituto Quindim e da Casa de Histórias pagam R$ 150; o desconto deve ser solicitado pelo e-mail institutodeleituraquindim@gmail.com)

PAGAMENTO: boleto, Pix, transferência bancária, cartão de crédito e débito.
 

Você sabia que a Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato é a mais antiga biblioteca infantil do país?

Oi, gente! Vocês sabiam que hoje, dia 09 de abril, é celebrado o Dia da Biblioteca?! Ele é um dia muito importante para a cultura, para o livro, a leitura e as bibliotecas brasileiras! Além de incentivar a leitura e o interesse pela cultura, é importante para refletir o quanto é necessário um espaço destinado à leitura.

O Brasil tem mais de 7 mil bibliotecas e apesar de parecer um número alto, o país possui apenas uma biblioteca para cada 30 mil habitantes. O índice de leitura dos brasileiros também não é muito positivo:  44% dos brasileiros não têm o hábito de ler e ao menos 30% nunca nem compraram um livro!

Mas ainda bem que mesmo diante desse cenário, muitas bibliotecas estão buscando se reinventar e atrair mais usuários criando experiências únicas no universo literário, e sem contar com a tecnologia dos acervos digitais, que viabilizam o acesso à leitura sem precisar sair de casa.

Visitar novos espaços culturais é muito importante para aumentar o nosso conhecimento e estimular a criatividade. Inclusive, em São Paulo, você pode embarcar em uma viagem literária e conhecer as histórias lúdicas de Monteiro Lobato de pertinho.

A Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, localizada na Vila Buarque no Centro de SP, tem entrada gratuita e conta com um acervo de mais de 90 mil itens voltados à literatura infantil. É a mais antiga biblioteca infantil do país!

Ela foi inaugurada pelo escritor Mário de Andrade em 1936 e levou o nome do autor em seu nome de batismo até 1955, mas passou a se chamar Biblioteca Infantil Municipal Monteiro Lobato em homenagem ao pai da literatura infantil. ❤️

Em razão da pandemia do coronavírus, os espaços culturais seguem temporariamente fechados, mas não deixe de incluir essa visita incrível na sua programação pós-pandemia, hein?

No site e no blog oficial monteirolobato.com, você encontra materiais exclusivos, como linha do tempo, fotografias, ilustrações, artigos sobre personagens, e consulta de bibliografia. Não deixe de acompanhar semanalmente nossos conteúdos exclusivos.

‘Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso’. Por Maria Helena RR de Sousa

AUTOR: MARIA  HELENA RR DE SOUSA

DATA: NOVEMBRO DE 2020

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/34184-vossa-rinoceroncia-perdeu-um-tempo-precioso-por-maria-helena-rr-de-sousa/

Na ânsia de encontrar provas do racismo em Monteiro Lobato e varrer das prateleiras de nossas crianças esse escritor perigosíssimo que fez gerações e gerações aprenderem a gostar de ler e pensar, os que não têm mais nada a fazer no MEC se esqueceram do segundo capítulo de Caçadas de Pedrinho: “Um Rinoceronte Interna-se Nas Matas Brasileiras”.

É fácil de explicar. Muito mais contundente que o conjecturado racismo em Caçadas de Pedrinho, o que Monteiro Lobato ensina à meninada, em uma crítica  irônica, ferina, é o quanto a burocracia cega é prejudicial à eficiência dos governos em geral. E acharam melhor não chamar a atenção sobre esse detalhe…

Como disse a Emília ao funcionário do “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”: “Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira esteve completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso”.

A imposição obrigatória de um mesmo e único exame a todos os concluintes do Ensino Médio induz toda a Educação Básica do país a uma perspectiva cada vez mais padronizadora, inibindo inovações. A médio prazo, a tendência é uniformizante e empobrecedora para o sistema de ensino, pensa a Emília, rainha das implicantes.

Nós precisamos de mais escolas e mais professores, mas o inacreditável exemplo de amor à Pátria dos assessores de Vossa Rinocerência já nos indicou o caminho certo. Vamos abrir primeiro outro caminho, o Enem seriado que será chamado de Saab.

Nele, as provas dos alunos do ensino médio formarão uma nota a partir da pontuação adquirida em cada uma das três séries, que poderá ser utilizada para acesso ao ensino superior. Os estudantes que fizerem a prova da 1ª série em 2021 já estarão concorrendo a vagas nas universidades para quando concluírem o ensino médio, em 2023. Que tal?

Não é por nada que a Emília chama o MEC de Quindim. Lá Vossa Rinocerôncia se encontra com seus bravos assessores e dá ensejo à glória de nosso ensino e de nossos mestres. São poucas aulas, mas são muitas provas!

É muita dedicação, não é não?

Monteiro Lobato, um criador de respeito

FONTE E CRÉDITOS: https://www.construirnoticias.com.br/monteiro-lobato-um-criador-de-respeito/

Lendo e aprendendo

Monteiro Lobato é apontado como o autor que mais escreveu para crianças em todo o mundo, sendo a sua obra considerada a mais extensa de literatura infantil de que se tem notícia. Bateu recordes de vendagem, atingindo entre 1925 e 1950 um milhão e meio de exemplares vendidos de seus livros.

No dia 04 de julho de 2003, fará 54 anos que Monteiro Lobato morreu. Nascido em Taubaté, São Paulo, em 18 de abril de 1882. Aos 9 anos resolveu mudar seu nome para José Bento Monteiro Lobato, pois desejava usar a bengala do pai, gravada com as iniciais J. B. M. L.

Na infância, viveu num universo propício para desenvolvimento de suas histórias. Era chamado de Juca, por suas irmãs Judite e Esther, e gostava de fazer bichos de chuchu com palitos nas pernas. Era um hábito, naquele tempo, as crianças brincarem com sabugos de milho que se transformavam em bonecos. "Por isso, cada um de meus personagens – Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde – representa um pouco do que fui e um pouco do que não pude ser", escreveu.

Aos 14 anos, escreveu sua primeira crônica para o jornal O Guarani. "Sempre amei a leitura. Li Carlos Magno, Robinson Crusoé e todo o Júlio Verne", registrou.

Nas pequenas cidades do interior, escreveu para jornais e revista. Quando seu avô, Visconde de Tremembé, morreu, em 1911, herdou dele a fazenda Buquira, passando de promotor a fazendeiro. Foi na fazenda que escreveu o Jeca Tatu, símbolo nacional.

Para viabilizar a edição de seus livros para adultos, comprou a Revista do Brasil. Urupês iniciou o processo editorial de Lobato. Antes de criar a primeira editora nacional, Monteiro Lobato & Cia, os livros do Brasil eram impressos em Portugal.

Tentou novos métodos de comercialização do livro. Importou máquinas para imprimir no país obras de autores brasileiros. Foi obrigado a desfazer-se da editora e gráfica por ele fundada e que deu origem à Companhia Editora Nacional.

Participou de campanhas contra o que ele mesmo chamou de escândalo do ferro e do petróleo, que lhe custaram a prisão e o exílio. Seus dois filhos homens morreram jovens.

Empresário falhado e escritor bem sucedido, fundou, em 1946, a Editora Brasiliense, para editar suas obras completas.

Pouco antes de morrer, declarou em sua última entrevista, à Rádio Record de São Paulo, que gostaria de ter escrito mais para as crianças, em vez de perder tempo escrevendo para "gente grande".

"Quiseram me levar para a Academia Brasileira de Letras. Recusei. Não quis transigir com a praxe de lá – implorar votos.

Tive muitos convites para cargos oficiais de grande importância. Recusei a todos. Getúlio Vargas (presidente do Brasil na ocasião) convocou-me para ser o Ministro da Propaganda. Respondi que a melhor propaganda para o Brasil, no Exterior, era a liberdade do povo, a constitucionalização do país.

Minha fama de propagandista decorria da minha absoluta convicção pessoal. O caso do petróleo, por exemplo, e do ferro. Éramos ricos em energia hidráulica e minérios, e não somente café e açúcar. Durante 10 anos, gritei essas verdades. Fui sabotado e incompreendido.

Dediquei-me à Literatura Infantil já em 1921. E, retornei a ela, anos depois, desgostoso dos adultos. Com Narizinho Arrebitado, lancei o Sítio do Pica-pau Amarelo. O Sítio é um reino de liberdade e encantamento. Muitos já o classificaram de República.

Eu mesmo, por intermédio de um personagem, o Rei Carol, da Romênia, no livro A Reforma da Natureza, disse ser o Sítio uma República. Não; República não é, e sim um reino. Um reino cuja rainha é a D. Benta. Uma rainha democrática, que reina pouco. Uma rainha que permite liberdade absoluta aos seus súditos. Súditos que também governam. Um deles, Emília, é voluntariosa, teimosa, renitente e não renuncia aos seus desejos e projetos.

Mas eu precisava de instrumentos idôneos para que o trânsito do mundo real para o fantástico fosse possível, pois, como ir à Grécia? Como ir à lua? Como alcançar os anéis de Saturno? Bem, a lógica das coisas impunha a existência desse instrumento. Primeiro surgiu o "O Pó de Pirlimpimpim" que transportaria para todo e sempre, os personagens de um lugar para outro, vencendo o 'ESPAÇO'. O 'FAZ-DE-CONTA', pó número 2, venceria a barreira do 'TEMPO', suprindo as impossibilidades de acontecimentos. Finalmente pensei no 'SUPER-PÓ', inventado pelo Visconde de Sabugosa, em O Minotauro, que transportaria, num átimo, para qualquer lugar indeterminado, desde que desejado."

História reescrita

AUTOR: FELIPE MACHADO

DATA ORIGINAL: 24/03/2021

FONTE: REVISTA ISTOÉ

CRÉDITOS: REVISTA ISTOÉ

No Brasil e no exterior, clássicos da literatura e do cinema enfrentam um revisionismo cultural e são obrigados a se adaptarem ao contexto histórico atual, que não aceita comportamentos abusivos em temas como raça e gênero

Por mais atemporais que sejam as histórias contidas em suas páginas, livros são objetos imutáveis feitos de palavras impressas em papel. Como toda obra artística, nascem da criatividade de seres humanos e ganham vida a partir de contextos pessoais e sociais que não podem ser desprezados. Isso, porém, não exime a responsabilidade que um autor tem sobre a forma como se expressa: o mundo muda, mas as ideias permanecem. No início desse mês, um dos nomes mais renomados da literatura infantil nos EUA teve seis títulos retirados de circulação após uma junta de especialistas alegar que eles continham temática racista ou xenófoba. Theodor Seuss Geisel, mais conhecido como Dr. Seuss, escreveu mais de 60 obras e criou personagens populares como “Grinch” e “Lorax”. Sua família, detentora dos direitos autorais, apoiou a decisão e defendeu a tese de que elas “mostravam grupos minoritários de forma errada”. Apesar de polêmica, a medida foi bem vista pelo público: os outros livros do autor subiram para o topo nas listas dos mais vendidos.

O Brasil enfrenta dilema parecido desde 2010, quando um dos escritores mais populares do País passou a ter a obra questionada pelas mesmas razões. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, Monteiro Lobato encantou leitores com o universo do “Sítio do Picapau Amarelo”, turma que tinha entre seus personagens a ex-escrava e cozinheira Tia Nastácia. Além da forma humilhante como ela é retratada, Lobato é acusado de racismo por sua vida pessoal. Quem o acusa, porém, não leva em conta que as capas de seus livros foram feitas por Bendito Barros Barreto, o “Belmonte”. Escolher um artista negro para ilustrar suas edições era uma atitude avançada para os padrões da época.

A historiadora Cleo Monteiro Lobato, bisneta do escritor, publicou uma edição atualizada de “Reinações de Narizinho” sem os trechos racistas. Na nova versão, tia Nastácia é uma amiga de infância de Dona Benta. “A última revisão havia sido feita em 1947. A obra está parada no tempo, mas a sociedade evolui”, afirma Cleo, que mora nos EUA e participou das manifestações antirracistas. Para ela, não é possível apagar que houve escravidão no Brasil. “Meu pai era judeu, sua família morreu em campos de concentração. Nem por isso se pode apagar o holocausto”, compara. Cleo elogiou a decisão dos herdeiros do Dr. Seuss. “Deveríamos ter feito esse mesmo tipo de revisão juntos, teria mais peso. Mas minha família não é coesa.”

O escritor Jeferson Tenório, autor de “O Avesso da Pele”, não vê com bons olhos esse tipo de adaptação. Para ele, o correto seria manter o texto original com notas explicativas. “Quando ouço que Lobato era um ‘homem do seu tempo’, penso nos outros autores que estavam no mesmo contexto e não eram racistas, como Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira e Graciliano Ramos”, diz. “Seria mais correto admitir que há um racismo estrutural e epistêmico entranhado na cultura brasileira. Ser antirracista não é varrer o problema para debaixo do tapete, mas colocá-lo no meio da sala.”

O revisionismo cultural não está restrito aos livros. O grande clássico “E o Vento Levou”, filme de 1939 sobre a guerra civil americana – que teve a escravidão como estopim do conflito –, foi retirado do canal HBO em 2020 após o assassinato de George Floyd. O vídeo voltou ao ar, mas com uma mensagem introdutória que explica o contexto da época da produção.

GÊNERO

O debate não contempla só a questão racial, mas também a de gênero. Críticas à objetificação feminina começaram pelo público infantil. Na animação “Space Jam”, lançada pela Looney Tunes em 1996, a coelhinha Lola Bunny aparecia com roupas justas e um visual sexy. Na nova versão, ela ganhou uma aparência mais discreta, sem decotes e com uniformes confortáveis . Quem não teve a mesma sorte foi Pepe Le Pew, o gambá com jeitão de conquistador: ele foi cancelado porque seu costume de beijar à força outras personagens era muito abusivo. Nos desenhos animados, basta apagar o problema. Na vida real, as soluções exigem medidas bem mais complexas.
 

RACISMO DELIRANTE É TRATAMENTO GROTESCO: MONTEIRO LOBATO MERECE RESPEITO

AUTOR: ANA LÚCIA BRANDÃO

DATA ORIGINAL: FEVEREIRO DE 2021

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/37143-racismo-delirante-e-tratamento-grotesco-monteiro-lobato-merece-respeito-por-ana-lucia-brandao/?utm_source=mailpoet&utm_medium=email&utm_campaign=Coluna+Carlos+Brickmann

artigo de Marcelo Coelho na Folha de S. Paulo, classificando Monteiro Lobato como “tremendamente, monstruosamente… escandalosamente racista – um racista delirante” deixou a mim e a todos os estudiosos de sua obra literalmente escandalizados.

Para quem não me conhece, sou especialista em Literatura Infantil e Juvenil, ensaísta, resenhadora  crítica da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (SMC – PMSP) e do UOL Educação, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e membro do grupo de Estudos em Cultura e Literatura para Crianças e Jovens da USP. Trabalhei na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato por três décadas.

Tenho, pois, a minha vida dedicada a Lobato  e sei que a vida e a obra  deste grande escritor é um verdadeiro jogo de espelhos, que exige muito fôlego e capacidade de discernimento dos que desejem opinar sobre ela ou sobre o escritor. Sugiro aos que desejem se aventurar a conhecer esta vida tão intrigante a leitura da maior e mais completa  biografia já escrita sobre ele, realizada por Edgar Cavalheiro (dois volumes).

Quanto à primeira das duas questões apontadas de maneira extensa e pouco representativa, ao meu ver, no artigo de Marcelo Coelho, para justificar sua acusação de “racismo delirante” em Lobato, tenho a pontuar que a obra “O presidente negro” destoa em muito do restante da obra adulta de Lobato, no geral marcada por contos curtos, incisos e por vezes plenos de humor e ironia. Para completar o quadro trata-se de um romance de ficção científica incipiente, gênero que ele não dominava enquanto escritor.

Através do diálogo de três personagens, Lobato aborda neste livro a questão do racismo, da miscigenação e da eugenia que estavam fortemente em pauta nos Estados Unidos, na década de 20, a ponto de haver ou não pureza racial ser considerado por muitos como a razão para o progresso ou para o atraso de um país.

O livro fez um verdadeiro “Raio X” da questão racial nos Estados Unidos, tão grave a ponto de levar, nesta ficção, a um verdadeiro “choque de raças”, aliás o título original que Lobato deu ao livro.

Porém, ao contrário do que entendeu erroneamente Marcelo Coelho, Lobato não encampa para si, como autor, nenhuma fala racista de qualquer personagem do livro. Apenas expõe, com muita ironia, os argumentos racistas dos personagens. E revelando como a sua visão, como autor, era totalmente contrária ao racismo, no final do livro Lobato antecipa o que seria a grande “vingança” dos negros americanos: a eleição de um presidente negro para os Estados Unidos. Algo tão inimaginável quanto escandaloso para os brancos naquela época, a ponto de Lobato ter datado este sonho no ano de 2228. Lobato anteviu Obama em 2009, errando só na data, antecipada em 219 anos pela história real.

Mais do que um livro em prol da  pureza racial, este romance constrói uma metáfora sobre segregação e aculturação” escreveram Márcia Camargos e Wladimir Sachetta na abertura da reedição do livro, de 2008.

Quanto à carta de Lobato “elogiando” a Ku Klux Kan,  segundo argumento de Marcelo Coelho  para provar “o racismo delirante de Lobato”, ela é uma “única” que aborda esse tema  entre os dois volumes de cartas escolhidas, que vão de cartas escritas entre 1895 a 1948, destinadas a setenta e quatro correspondentes, dentre os quais encontramos parentes, amigos, escritores, médicos, políticos, profissionais técnicos no beneficiamento do Ferro e da prospecção de petróleo, etc.

E esta carta me parece inconsistente frente ao todo de sua saborosa  correspondência.  Importante ressaltar que são volumes com cartas de foro íntimo.  Quem não as tiver escrito, inclusive se auto-ironizando, que atire a primeira pedra. Fosse o tempo de hoje, elogiar a Ku Klux Klan numa rede social, para um intelectual com senso de humor, seria boa resposta, tipo KKK, a  um amigo dizendo que não irá tomar a vacina chinesa “para não virar jacaré”.

Levar ao pé da letra palavras ou frases de uma mensagem pessoal entre amigos, para classificar um deles como “racista” revela uma enorme incompreensão do que significa a crítica literária. Aliás, no prefácio do primeiro volume de cartas, Edgar Cavalheiro aponta que estes dois volumes estão longe de representar um décimo da sua produção no gênero.  Cavalheiro, então, cita Antônio Cândido  – que aponta o gênero  epistolar como raro na produção literária brasileira – e afirma que ”temos um pudor irremediável, um inexplicável  sentimento de inferioridade ante o público”. Cavalheiro termina seu prefácio dizendo: “os volumes que ora incorporamos às “Obras completas” constituem subsídio inestimável para a compreensão do homem e do escritor que ele foi. (..) Nada do grande homem é sonegado nestas cartas”.

Agora é momento de nos concentrarmos na questão do racismo, que vou abordar  sob o ponto de vista estético, literário e do humor, o humor caricatural, do qual o grupo Porta dos Fundos é um grande exemplo atual e do qual Lobato, se descesse numa mesa branca, iria querer assistir e dar suas gargalhadas.

A obra infantil de Monteiro Lobato, que apresenta dezessete volumes, foi ilustrada por vários  artistas. Um deles, a quem Lobato delegou a criação visual de seus personagens, foi Belmonte. Benedito Barros Barreto é o nome deste ilustre homem negro, conhecido como Belmonte, que Lobato convidou para ilustrar sua obra. Belmonte foi um grande chargista e como todo chargista sempre exagerou nos traços das personagens, realçando-lhes ao extremo as suas características físicas a ponto de tirar risadas de seu público com sua crítica mordaz e hilariante.

Gonzalo Junior na sua biografia sobre Belmonte conta como Lobato o incentivou a criar seus próprios personagens infantis, que apareceram na “Folha da Manhã” e se chamavam  Bastinho e Bastião, um branco e outro negro, amigos inseparáveis, que com a ajuda da magia de um saci, partem para as aventuras, na série chamada “As viagens fantásticas de dois garotos”.

Ora, um “racista delirante” nem ao menos dirigiria a sua atenção a um homem como Belmonte, não é mesmo?  Portanto, vale pontuar que entre 1929 e 1937, Belmonte ilustrou cinco livros da saga do Picapau Amarelo.  De Belmonte a Alcy Linnares, Tia Nastácia mantém seus traços. Um caso a se pensar – a força e acalanto da imagem da mulher negra no nosso imaginário.

Como sou literata de formação e atuação profissional, acho necessário apontar a linguagem humorística criada por Lobato para parte de sua obra adulta e para a infantil como um todo. A linguagem criada por ele é prenhe de rebeldia e criatividade inusitadas e utiliza-se largamente de um registro coloquial e tom de oralidade capazes de surpreender até hoje o leitor, por ser lúdica e original ao extremo.

Portanto, a obra infantil de Monteiro Lobato é modernista em essência e justamente por isso, por registrar a oralidade da época em que foi escrita, Lobato hoje é criticado ao extremo.  Ora, entra aí a presença do mediador de leitura, quem lê com a criança, que naturalmente revela o contexto de época do escritor e da obra.

O Sítio do Picapau Amarelo é uma criação que põe em diálogo o universo da cultura oral brasileira representada com maestria por Tia Nastácia, tio Barnabé (com quem Pedrinho e as demais crianças obtém  todo o conhecimento sobre a mata e seus animais e plantas) e claro, o ser mais mágico desse universo oral  que é o Saci. Tia Nastácia é a deusa que criou a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa, os dois encantos que vivem as aventuras do sítio e fora dele.

Dona Benta representa a cultura escrita e por vezes formal, sempre rechaçada pela boneca Emília e pela Cultura brasileira como um todo. A riqueza da voz do povo que se exprime por meio da oralidade é de um virtuosismo lingüístico, literário e simbólico muito grande. Já dizia a escritora Sylvia Orthof sobre Tia Nastácia, que a encantou desde criança: “Sempre imaginei Tia Nastácia como uma noite estrelada”.

Se há algo que Emília não suportava era a injustiça. E eu, como Emília, afirmo que Monteiro Lobato não foi um “racista delirante”. Foi um homem do seu tempo, um humanista que realmente realizou o projeto de formar um país de leitores, mas que como toda personalidade ousada e visionária, eternamente provocará impasses e novos questionamentos. Este é o papel de toda obra clássica de uma determinada cultura.

Mas Lobato foi também um homem que foi preso por querer que o governo explorasse suas riquezas e deste modo proporcionasse  educação e bem estar para o povo e que teve a coragem de denunciar a tortura no auge do Estado Novo. Por tudo que representa, Monteiro Lobato tornou-se memória e marca indelével na Cultura brasileira e não merece nem de longe um qualificativo tão injusto e deletério como este de “racista delirante”, colocando, como no “index” da Inquisição,  ele mesmo e toda sua obra, inclusive e especialmente a infantil.

“Vida longa para a obra de Monteiro Lobato!”

É MUITA NOSTALGIA! ESTRELA RELANÇA A BONECA EMÍLIA, DO SÍTIO DO PICAPAU AMARELO, NO CENTENÁRIO DA PERSONAGEM DE MONTEIRO LOBATO

DATA ORIGINAL: 20 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: SÃO PAULO PARA CRIANÇAS

CRÉDITOS:https://saopauloparacriancas.com.br/ai-meu-coracao-estrela-lanca-boneca-emilia-do-sitio-do-picapau-amarelo-no-centenario-da-personagem-de-monteiro-lobato/

Para quem já passou dos 30, taí uma notícia cheia de nostalgia que vai aquecer o coração e fazer você voltar para a infância: a boneca Emília, estrela do Sítio do Picapau Amarelo, está de volta! Em homenagem ao centenário de uma das mais marcantes personagens criadas por Monteiro Lobato, a Brinquedos Estrela lança em fevereiro, exclusivamente pelo seu e-commerce, a mais famosa boneca de pano do País!

Isso mesmo! Depois de relançar diversos clássicos que marcaram a infância de muita gente, como o Ferrorama, Moranguinho, Feijãozinho, Falcon, Genius, Tippy, Gui Gui e Autorama (tudo isso você pode comprar aqui!!), a Estrela traz de volta a amada Emília!

O modelo que chega ao site da Estrela em fevereiro é inspirado na primeira versão do brinquedo que a Estrela fez, em 1977, com vestido amarelo, sapatinhos azuis, bracinhos coloridos e cabelo de lã. Veja a comparação dos dois modelos:

 

Apesar de constar apenas no catálogo da Estrela de 1978, a boneca Emilia foi lançada para a semana das crianças de 1977 – a atriz Dirce Migliaccio já fazia muito sucesso na série “Sítio do Picapau Amarelo”, na Rede Globo, desde março de 1977.  Segundo a especialista em bonecas e brinquedos antigos, a colecionadora Ana Caldatto, a Boneca Emília da Estrela foi produzida de 1977 até 1986 – dez anos que fizeram dela uma das bonequinhas de pano mais vendidas da história.

Ela teve diversos modelos – tinha até a Emília Cirandinha, que girava e dançava, a Emilinha, que cabia na palma da mão, e a a Emília versão fofolete. Ano que vem, 2022, a boneca comemora 45 anos de lançamento.

Como surgiu a Emília?

A personagem Emília apareceu pela primeira vez no livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”, de 1920. Lobato conta que Emília foi feita por Tia Nastácia de presente para a neta de Dona Benta, Lúcia Encerrabodes de Oliveira, mais conhecida como Narizinho.

Emília é uma boneca de pano, recheada de flor de macela. Nasceu muda, e é graças às “pílulas falantes” do Dr. Caramujo, do Reino das Águas Claras, que ela começa a falar e não parou mais. Sabichona, é conhecida por volta e meia “abrir sua torneirinha de asneiras”, principalmente quando quer explicar algo de difícil explicação ou justificar uma ação ou vontade.

Além de falar muito, também costuma trocar os nomes de coisas ou pessoas por versões com sonoridade semelhante. Aqui em casa o trocadilho preferido é “Dr. Cara de Coruja”, como ela chama o médico que lhe concedeu o dom da fala. Outros engraçadinhos: “borboletograma”, “bissurdo” e  “crocotós”. Para ela um crocotó é algo que a gente não sabe bem o que é. Exemplo: os extraterrestres são crocotós.

Emília é muito engraçada, criativa e geniosa. Diz o que pensa e quando leva bronca, finge que não é com ela. Não teme nada, apronta todas e é cheia de vontades. Encanta crianças há gerações! Aqui em casa estou relendo com meus filhos os livros originais da minha infância e eles estão encantados.

“Eu adoro Emília e, ao escrever os livros nesta máquina, sou o primeiro que me rio das coisinhas que ela diz.” — Monteiro Lobato, em carta de 1934

Há quem acredite que o nome da personagem nada mais era que uma brincadeira entre Lobato e seu amigo, o pedagogo baiano Anísio Teixeira, cuja esposa se chamava Emília. Há outras teorias que consideram Emília como um alter ego do Autor. Com ela Lobato expressava, muitas vezes, suas próprias opiniões que, por contrariarem o senso comum da época foram colocadas na boca de uma criatura cuja índole era irresponsável e que, por ter enchimentos de macela, falava sem pensar.

O sucesso na TV

Além das páginas dos livros de Monteiro Lobato, Emília fez sucesso nas telonas e nas telinhas, onde ganhou vida e desde então emociona gerações de telespectadores. Confira abaixo o panorama que montamos com todas as atrizes que interpretaram Emília, qual sua favorita?

 

A primeira aparição da boneca falante foi no filme “O Saci”, de 1951, dirigido por Rodolfo Nanni. Emília foi interpretada pela a atriz Olga Maria.

1ª Emília - Olga Maria (1951)

1ª Emília – Olga Maria (1951)

O Sítio do Picapau-amarelo foi um dos maiores sucessos da televisão brasileira e teve muitas versões. Na primeira versão, da extinta TV Tupi (de 1951 a 1962), a personagem Emília foi interpretada pela atriz Lúcia Lambertini. Essa adaptação estreou em 03/06/1952, tinha Daniel Filho no papel de Visconde de Sabugosa e só um cenário: a varanda da casa de Dona Benta. Foram 360 episódios e ficou no ar até 1962.

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

 

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

Em paralelo à exibição ao vivo em São Paulo, a TV Tupi do Rio de Janeiro exibiu, por dois meses no ano de 1955, uma versão da série com direção de Maurício Sherman e produção de Lúcia Lambertini, a atriz que interpretava a Emília, juntamente com um elenco carioca.

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

Era um teleteatro, roteirizado pela escritora Tatiana Belinky, exibido na única emissora de TV que existia na época. Lambertini algumas vezes revezava o papel com a atriz Dulce Margarida.

Na segunda versão, da TV Cultura (1964), Lúcia Lambertini comandou a produção, além de viver Emília em 1964 e 1965, mas a série só foi produzida por seis meses. Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, responsáveis pela versão do Sítio na TV Tupi, em São Paulo, foram os responsáveis por retomar a série, desta vez na TV Bandeirantes, em 1967. Na nova fase, Emília foi vivida pela atriz Zodja Pereira, até 1969.

3ª Emília - Zodja Pereira (1967 a 1969)

3ª Emília – Zodja Pereira (1967 a 1969)

O Sítio voltou aos cinemas em 1973, e a quarta Emília das telas foi interpretada por Leda Zepellin, no filme O Picapau Amarelo.

4ª Emília - Leda Zepellin (1973)

4ª Emília – Leda Zepellin (1973)

Foi apenas em 1977 que o Sítio do Picapau Amarelo ganhou uma adaptação da Rede Globo, a mais longeva de todos. Dirce Migliaccio foi a primeira Emília (em 1977) e a atriz só ficou no elenco no ano de estreia.

5ª Emília - Dirce Migliaccio (1977)

5ª Emília – Dirce Migliaccio (1977)

Depois, foi a vez da atriz Reny de Oliveira assumir o papel, e talvez ela seja a Emília mais famosa, interpretando nossa amada boneca por cinco lindos anos, de 1978 (quando eu nasci!) a 1983. Dizem nos bastidores que ela foi forçada a abandonar o papel após aceitar um convite para posar nua.

6ª Emília - Reny de Oliveira (1978 a 1982)

6ª Emília – Reny de Oliveira (1978 a 1982)

Ela foi trocada pela atriz Suzana Abranches, que ficou no papel de 1983 a 1986. Depois,  a série foi encerrada, e só voltou às telinhas quinze anos depois.

7ª Emília - Suzana Abranches (1983 a 1986)

7ª Emília – Suzana Abranches (1983 a 1986)

Há exatos vinte anos, a atriz Isabelle Drummond estreava no papel icônico da bonequinha Emília, na Rede Globo. Foi a primeira vez que uma criança interpretou a boneca na TV.

8ª Emília - Isabelle Drummond (2001 a 2006)

8ª Emília – Isabelle Drummond (2001 a 2006)

Ela reinou como Emília de 2001 a 2006, e com sua saída, a atriz Tatyane Goulart assumiu o papel em 2007, último ano de produção da série.

9ª Emília - Tatyane Goulart (2007)

9ª Emília – Tatyane Goulart (2007)

A última Emília de todas, desta vez em versão animada, foi dublada pela atriz Isabella Guarnieri. Ela dublou a personagem de 2012 a 2016.

10ª Emília - Isabella Guarnieri (Voz)

10ª Emília – Isabella Guarnieri (Voz)

Todo mundo quer uma boneca Emília pra chamar de sua

Com a exposição na televisão, Emília tornou-se um grande sucesso comercial. Toda criança queria uma boneca Emília para chamar de sua. Segundo a especialista em bonecas e brinquedos antigos, a colecionadora Ana Caldatto, a primeira versão da boneca Emília foi lançada em 1954 e foi vendida pelas Lojas Mesbla. O lançamento foi um estouro, a boneca chegou de avião da companhia aérea VASP,  acompanhada de uma aeromoça, e em um dia de vendas os estoques esgotaram.

Crédito imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

“CHEGOU A BONEQUINHA EMÍLIA – 
Em avião de carreira da Vasp, chegou ontem em congonhas, diretamente do Sítio do Pica-pau Amarelo, 
a bonequinha Emília, a famosa Marquesa de Rabicó, de Monteiro Lobato, que tanto sucesso vem fazendo na TV. Emilinha está a disposição da criançada na Mesbla todos os dias das 16 às 17 horas”

A Mesbla comercializou duas versões da boneca Emília, a primeira, baseada na atriz Lúcia Lambertini, da TV Tupi, e depois uma com o figurino da atriz Zodja Pereira, da TV Bandeirantes em 1968.

Lúcia Lambertini, a primeira Emília da TV, com a primeira versão de brinquedo da boneca. Crédito Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Lúcia Lambertini, a primeira Emília da TV, com a primeira versão de brinquedo da boneca. Crédito Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Vitrine das lojas MESBLA de SP em 1954 Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A boneca de vestido branco com pernas listradas é baseada na Emília da atriz Zodja Pereira, na versão da Tv Bandeirantes nos anos 60 - Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A boneca de vestido branco com pernas listradas é baseada na Emília da atriz Zodja Pereira, na versão da Tv Bandeirantes nos anos 60 – Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A primeira boneca da Emília lançada pela Mesbla, de vestido vermelho, e a segunda edição, com a roupa amarelinha. Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A primeira boneca da Emília lançada pela Mesbla, de vestido vermelho, e a segunda edição, com a roupa amarelinha. Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Depois, a boneca teve outras versões, como a Emília de borracha distribuída nas Cestas de Natal Amaral “Fortuna Fartura”, nos anos 60, produzidas pela Brinquedos Estrela.

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Foi só em 1977 que a Estrela lançou sua primeira versão oficial da boneca. Como explicamos acima, apesar de constar apenas no catálogo da Estrela de 1978, a boneca Emilia foi lançada para a semana das crianças de 1977 baseada na atriz Dirce Migliaccio, que interpretava a marquesa de rabicó na série “Sítio do Picapau Amarelo”, na Rede Globo, desde marco de 1977.

Confira a seguir todas as bonecas lançadas, em ordem cronológica. Qual dessas você teve?

 

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ETAPA ENCERRADA

ACUSADO DE RACISMO, LOBATO TRANSFORMOU O SACI NO PRIMEIRO HERÓI NEGRO PARA CRIANÇAS NO BRASIL

AUTOR: CILZA BIGNOTTO

DATA ORIGINAL 17 DE FEVEREIRO DE 2021

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2021/02/acusado-de-racismo-lobato-transformou-o-saci-no-primeiro-heroi-negro-para-criancas-no-brasil.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

 

[resumo] Professora defende que debates sobre racismo nas obras de Monteiro Lobato sejam travados de maneira mais profunda e nuançada, levando em conta o contexto histórico em que ele produziu seus livros e seu diálogo com outros autores do mesmo período. Embora existam passagens racistas em seus textos, Lobato investiu em escritores negros em sua editora e deu a Saci e Tia Nastácia características positivas numa época em que personagens negras não apareciam em livros infantis.

“A discussão sobre como lidar com o racismo nas obras infantis de Monteiro Lobato parece infindável.” Assim, desanimado, começa o editorial da Folha do último 26 de dezembro. Não é para menos; há dez anos os debates sobre o tema, em esferas variadas da vida pública, parecem andar em círculos. Talvez, estejamos examinando somente a epiderme, quem sabe a derme, do problema, suas terminações nervosas. Precisamos aumentar e aprofundar o escopo, se desejamos avançar.

Para a Folha, o argumento de que Lobato não era racista não se sustenta: “Não deixam dúvidas a construção estereotipada de Nastácia e as menções à cor de sua pele como um defeito, por exemplo quando Narizinho diz que ela ‘é preta só por fora, e não de nascença’.” A citação do fragmento parece, a princípio, acabar com as dúvidas sobre o racismo de Lobato. Só a princípio.

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

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Julgar obras literárias por frases é arriscado. A sentença que parece certeira pode se revelar incerta, quando não injusta. Para esclarecer o problema embutido no editorial da Folha, e em outros textos que aparentam pôr fim à discussão sobre racismo em textos lobatianos, proponho examinar o fragmento escolhido pelo editorial conforme procedimentos utilizados em estudos literários.

Fragmentos de texto precisam ser analisados não apenas em relação a outros da mesma obra, que podem apresentar perspectivas diversas, mas também a outros textos de autores diversos da mesma época.

A tarefa é complicada quando tem por objeto livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948). Praticamente todos os outros livros para crianças que circularam na primeira metade do século 20 desapareceram. Como explica Peter Hunt, livros infantis “morrem” quando deixam de interagir com a “cultura imediata” das crianças. São descartados por pessoas e instituições; viram restos nos lixões e nas memórias coletivas.

Em parte significativa dos livros infantis do tempo de Lobato não há personagens negras. É como se a população negra brasileira não existisse em muitas das obras de Arnaldo de Oliveira Barreto, João Kopke, Coelho Neto e tantos outros autores consagrados do período.

'O Saci', de Monteiro Lobato

'O Saci', de Monteiro Lobato

Um exemplo: no “Primeiro Livro de Leitura” (1903), de Barreto e Puiggari, que inaugura série de sucesso, não se encontra uma personagem negra sequer. Uma cena, porém, indica o lugar reservado a negros na literatura infantil: Luíza, loira como “uma alemãzinha”, brinca com suas bonecas loiras. Duas bonecas “servem de criadas. Elas são pretinhas”. No “Segundo Livro de Leitura”, há um conto intitulado “A Ama de Lulu”. A mãe do bebê avalia 12 amas, “cada uma pior que a outra”, para amamentá-lo. Nenhuma tem nome, nenhuma tem voz. No fim, a mãe consegue a ama ideal, “branquinha, asseada e boa”. É uma cabra, que oferece as tetas gratuitamente ao menino. Qual a cor das amas menos boas e asseadas que a cabra?

Naquela época, negros tinham algum destaque nas chamadas “cenas da escravidão”, em que eram representados como escravizados brutos e brutalizados. Há cenas assim em “Contos Pátrios” (1904), de Olavo Bilac e Coelho Neto, e “Páginas Infantis (1908), de Presciliana de Almeida, livros de numerosas edições.

A pele negra, em obras infantis, era indício de servidão e/ ou maldição. É o caso da heroína de um dos “Contos para Crianças” (1906), de Chrysanthème, pseudônimo de Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos. Em “A Princesa Negrinha”, uma rainha é amaldiçoada: sua filha nasce negra. A princesa sofre provações terríveis para se tornar branca e conhecer “a real felicidade”.

A passagem de Lobato selecionada pelo editorial da Folha foi extraída de fala de Narizinho, na história “O Circo de Escavalinho” (1927). As personagens montam um circo e convidam protagonistas de narrativas infantis para assistir ao espetáculo. Pedrinho teme que Tia Nastácia não vá ao circo, porque na plateia há princesas de contos de fadas: “Está com vergonha, coitada, por ser preta”.

Livros de Monteiro Lobato

Livros de Monteiro Lobato

Narizinho afirma que Tia Nastácia não deve “ser boba” por ter vergonha da própria pele. Dirige-se, então, às personagens de outras obras:

“Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura”.

A fala de Narizinho parece aludir a outras obras e discursos nos quais o valor de mulheres brancas era determinado pela origem e posição social da família, especialmente de seus integrantes masculinos. A importância solene que a figura do cônego poderia projetar sobre Dona Benta, porém, é transformada em piada pelo nome ridículo dele, sua fama nula e o fato de nem estar vivo. Dona Benta, sabiam os leitores, valia por si mesma.

Os leitores também conheciam Tia Nastácia e seu valor. A explicação de Narizinho remete a narrativas como “A Princesa Negrinha”. Ficções do gênero revelam-se mentirosas por meio da fala irônica da menina. O sentimento de inferioridade da personagem, porém, é muito verdadeiro para pessoas negras nas quais tais ficções eram, e ainda são, incutidas por discursos racistas.

A cena é exemplar da complexidade com que as obras infantis de Lobato tematizam o racismo. A fala de Narizinho, se desvela o “faz de conta” de discursos racistas, ancorados em fantasias, simultaneamente revela o poder das fantasias na estruturação da realidade cultural. Trocando em miúdos, “uma coisa existe quando a gente acredita nela”, como explica o Saci a Pedrinho, em “O Saci” (1921). O racismo é sustentado por fantasias; nem por isso deixa de ser real.

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

Quem lê a fala de Narizinho, hoje, não percebe o diálogo crítico com diversos contos sobre princesas negras amaldiçoadas, há décadas (felizmente) esquecidos. “Reinações de Narizinho” (1931) sobreviveu, e muito, ao seu tempo. É compreensível que leitores atuais interpretem a história sobre o “defeito de cor” de Nastácia como criação de Lobato e prova de seu racismo.

Também é compreensível que Tia Nastácia seja lida hoje como estereótipo. Por que Lobato não a retratou de outra maneira? Essa questão levanta outras: por que Coelho Neto ou Manuel Bonfim, notórios defensores da população negra, não escreveram livros infantis protagonizados por negros? Por que Olavo Bilac e Coelho Neto, admiradores de Machado de Assis, não criaram obra sobre um menino mestiço e genial?

Provavelmente, os livros infantis da Primeira República (1889-1930) retratavam quase que unicamente pessoas brancas porque os sistemas de ensino do país eram racistas, como indicam pesquisas recentes. Livros infantis brasileiros dependiam (ainda dependem, em grande parte) da aprovação de secretarias de Educação.

O primeiro herói negro em livro infantil brasileiro é o Saci de Lobato. O Saci das lendas orais era maldoso, monstruoso, filho do demônio. O Saci bonito, defensor da natureza e amigo das crianças, celebrado atualmente, foi inventado por Lobato. Ele tirou os estigmas então (e ainda) associados à pele negra e atribuiu ao personagem qualidades como inteligência, bondade, erudição.

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

O Saci lobatiano tem muito de Machado de Assis. Vale a pena apreciar a finura machadiana com que o Saci explica suas teorias sobre a vida, a morte, o progresso. E vale pensar: por que o primeiro herói negro da literatura infantil brasileira é uma figura lendária, e não um menino?

Quem publicou livro com protagonista negro, como Mimosa Ferraz, autora de “Travessuras do Gasparino” (1925), amargou o fracasso, apesar dos elogios de alguns críticos. Os papéis que negros podiam desempenhar em livros infantis eram restritos —ainda carecemos de pesquisas mais amplas para explicar esse contexto.

Nos campos minados do racismo da literatura e da educação de seu tempo, Lobato usou estratégias dignas de atenção para modificar atributos e papéis reservados a personagens negras.

Tia Nastácia era (e é) aparentemente uma construção estereotipada: uma criada destinada a se confundir com o mobiliário ou a servir de mau exemplo. No entanto, as muitas referências a ela como “boa negra” parecem ressaltar que Nastácia não é invisível, como negras costumavam ser, e que é “boa”, qualidade que, em outras obras, era incompatível com a pele negra.

Avanços mais extraordinários ocorrem em livros posteriores, como “A Reforma da Natureza” (1941), em que Tia Nastácia e Dona Benta são convidadas por líderes europeus para ensinar-lhes “o segredo de bem governar”. Nastácia é a primeira mulher negra a ser chamada de “grande estadista” em livro infantil brasileiro e a ser tratada como tal em suas páginas. De estereótipo, ela tem só alguns contornos.

Casos de violência contra negros no Brasil e nos EUA

Casos de violência contra negros no Brasil e nos EUA

Existem passagens racistas nas histórias do “Sítio do Picapau Amarelo”, mas também existem as antirracistas. Os livros infantis lobatianos podem ser entendidos como um conjunto de discussões sobre os problemas humanos, que as personagens travam enquanto vivem aventuras.

Para entender como são arquitetadas as discussões sobre racismo nas obras, é preciso lê-las integralmente. Adianto que o racismo sempre perde, sobretudo nas narrativas escritas por Lobato pouco antes de morrer, como o conto antirracista “A Violeta Orgulhosa”, que integra o livro “Histórias Diversas” (1947).

Estranhamente, os últimos textos infantis escritos por Lobato não costumam ser lembrados nas discussões sobre o racismo em sua obra. Fato semelhante ocorre com sua biografia. Lobato tem sido julgado racista por alguns textos das primeiras décadas de sua vida. Outros numerosos textos com facetas muito diferentes do escritor são ignorados, por desconhecimento ou deliberação.

Alguns exemplos: Lobato teria sido o primeiro editor brasileiro a estabelecer cota para autores negros. Segundo vários contemporâneos, publicou o primeiro livro de Gabriel Marques, “Os Condenados” (1923), porque o escritor era negro, e o catálogo de sua editora não tinha negros. Da mesma forma, investiu em Lima Barreto e em outros escritores afrodescendentes.

Em setembro de 1933, o Diário de Notícias publicou “Os Novos Bandeirantes”, crônica em que Lobato enaltece as virtudes de um homem negro e critica vícios de brancos. Na mesma página, há um artigo sobre Hitler. Quando o timing era favorável para defender a corrente da eugenia que pregava a superioridade branca, Lobato enalteceu a superioridade negra. O tema foi retomado por ele em 1936, na crônica “Eu Quero Ajudar o Brasil”, publicada em vários jornais.

13 de maio: dia da abolição da escravatura

13 de maio: dia da abolição da escravatura

Em setembro de 1945, um jornal negro enaltecia Lobato. O Alvorada noticiava que “o maior escritor do Brasil contemporâneo” havia ofertado exemplar de seu romance “O Presidente Negro” (1926) à biblioteca da Associação dos Negros Brasileiros. O texto destaca “o fato de o ilustre intelectual (…) ter também se ocupado dos negros. E o fez com aquele estilo inconfundível e brilhante, aquele bom humor e aquela liberdade de opinião que caracterizam sua obra”.

Como entender o fato de Lobato oferecer seu romance distópico sobre o extermínio de negros para a biblioteca? Como entender os elogios do jornal ao romance?

Talvez, tanto Lobato como a Associação dos Negros Brasileiros entendessem a distopia como advertência dos perigos de discursos racistas, e não como panfletagem desses discursos. Afinal, as distopias costumam ser lidas como advertências; daí H. G. Wells e George Orwell não serem rotulados de apologistas do autoritarismo ou do genocídio.

Lobato parece usar elementos de ensaios de Wells sobre os EUA para imaginar como seria o futuro se brancos permanecessem racistas. Ele faz o jogo do “e se”, tão fundamental para a literatura: e se um negro, líder virtuoso e grande estadista, viesse a ser presidente dos Estados Unidos? Ele conseguiria acabar com o racismo? A resposta do romance é um aterrador “não”.

Marcha em Washington relembra momento histórico de Martin Luther King em 1963

Marcha em Washington relembra momento histórico de Martin Luther King em 1963

“Acima da América está o sangue”, afirma o branco derrotado ao presidente negro recém-eleito. Os brancos ignoram as leis e exterminam os negros. Não há debate, pois os retóricos que alimentavam discussões infindáveis tinham sido eliminados, junto com criminosos natos, gramáticos e outros “causadores de perturbações”.

O nonsense de passagens como a de gramáticos condenados como “tarados” mina as ideias eugenistas descritas no romance. O narrador é um simplório pouco confiável: não entende de ciência, não viu o futuro e não presta muita atenção na narrativa de miss Jane, suposta testemunha dos fatos vindouros, porque deseja a moça.

Em outras mãos ou circunstâncias, o livro poderia ter saído ótimo. É um romance distópico ruim, mas não é panfleto em defesa do extermínio de negros. A discussão infindável talvez não avance porque muitas certezas são proclamadas a partir de poucos dados.

Rotular Lobato como racista é tão problemático como pintá-lo de antirracista. Na tese “Raça e Eugenia na Obra Geral de Monteiro Lobato”, José Wellington de Souza delimitou “ao menos cinco fases distintas de uso e definição de tais termos pelo autor”. As posições e discursos de Lobato sobre raça, racismo e eugenia mudaram muito ao longo de sua vida e de sua obra.

É tempo de as discussões sobre racismo e Lobato adquirirem mais profundidade e mais nuances, de se descolarem de julgamentos apressados sobre a vida e a obra do homem e se deslocarem para campos de estudo mais amplos sobre o racismo.

Monteiro Lobato e o petróleo

Monteiro Lobato e o petróleo

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ETAPA ENCERRADA

COMPLEXO DE ‘PERSEGUIÇÃO’

AUTOR: MARCIA CAMARGOS

Depois que a obra de Monteiro Lobato caiu em domínio público, seus livros, alguns deles adaptados, passaram a sair em fornadas. Paralelamente, eclodiram debates acalorados e ataques persistentes, talvez até orquestrados, contra o suposto racismo do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Não poucos aproveitaram para surfar na onda e aparecer na mídia. Alguns colunistas também resolveram dar a sua martelada nos pregos de um caixão onde parecem querer, a todo custo, encerrar o escritor, como fez Marilene Filinto no recente artigo de Ilustríssima (7/01).
Ora, a talentosa autora de “As Mulheres de Tijucopapo” afirma que não leu Lobato na infância, enquanto enumera uma série de livros ligados à história da sua terra natal, como se fossem anos luz mais importantes do que as aventuras da turma de Narizinho. Meio como se afirmasse, “olhem como tinha acesso a material de altíssimo nível, não perdi nada em não conhecer Emília ou Tia Nastácia”. Em seguida relata sua experiência com o autor, anos mais tarde, por meio de Jeca Tatu. Pegou antipatia na hora, sem se informar sobre o único personagem que a teria interessado. Porque, se o fizesse, descobriria, sem grandes esforços, que o próprio Lobato chegara às mesmas conclusões do que ela. Ou seja, ele admitiu que o pobre caipira paulista estava longe do indivíduo indolente e preguiçoso que julgou à primeira vista. Ao contrário, era marginalizado, “um excluído, injustiçado, solitário”, pra usar as palavras da articulista. Pois Lobato, que não tinha medo de se corrigir, ao ler as teses dos médicos Belisário Pena e Artur Neiva, reviu suas opiniões sobre o mundo rural, constatando que a apatia do caboclo advinha do subdesenvolvimento, da fome e da falta de infraestrutura básica.
“Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie”, admite então. “É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não”.
Marilene Felinto pode não ter mencionado, mas ele foi além, engajando-se nas campanhas sanitaristas e escrevendo, em 1918, uma série de artigos, enfeixados depois em Problema Vital, denunciando a doença do homem da roça e o crime dos que parasitariamente gozavam, na cidade, o fruto da sua incansável labuta.
“A esta hora milhões de verdadeiros patriotas lá estão no eito, porejantes de suor, na faina da limpa e do plantio. Febrentos de maleita, exaustos pelo amarelão, espezinhados pelo ácaro político, lá estão cavando a terra como podem, desajudados de tudo, sem instrução, sem saúde, sem gozo da mais elementar justiça”.
O ápice do menosprezo pelo criador da nossa literatura infanto-juvenil e do mercado editorial brasileiro, porém, dá-se no momento em que a colunista confessa como a sua antipatia aumentou com a leitura do conto Negrinha. Diz que precisou esconder a vontade de chorar quando, na verdade, deveria ter compartilhado o genuíno sentimento de revolta que Lobato suscita em cada um de nós diante daqueles trechos de denúncia nua e crua. Por que não dividir o que sentia pela menina “de criação” com os colegas “branquelos”, filhos de imigrantes pobres, que aportaram em São Paulo em busca de melhores condições de vida? Compreensível que Negrinha represente a sua ancestralidade, mas o sofrimento dela desperta profunda indignação em qualquer ser humano minimamente consciente, qualquer que seja sua etnia, origem, raízes. Talvez ali Felinto não tenha entendido a louvável e necessária atitude de Lobato ao expor, em carne viva, o absurdo de crianças abusadas por uma elite escravocrata, aliada à hipocrisia da Igreja, que ele nunca cansou de criticar. Aquela desgraceira humilhante precisava, sim, ecoar nos corações e mentes dos alunos e professores, para que não se repetisse no futuro como farsa nem tragédia.
Convém lembrar que, no passado, o escritor foi perseguido por suas ideias libertárias, iconoclastas, ousadas. Amargurou meses de prisão no Estado Novo e teve textos de sua autoria queimados nos fornos da ditadura Vargas.
Agora, a julgar pelo ritmo da campanha difamatória em marcha, não tardará o dia em que assistiremos a uma nova fogueira da inquisição ardendo com livros infantis e adultos de Monteiro Lobato.

Escritora com pós-doutorado em História pela USP tem 32 livros publicados. Biógrafa de Monteiro Lobato, uma das curadoras das suas Obras Completas relançadas pela Ed. Globo em 2004, é co-autora de Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia, prêmios Jabuti e Livro do Ano pela CBL em 1998.

EXPOSIÇÃO TRAZ LIVROS ESCRITOS E TRADUZIDOS POR MONTEIRO LOBATO

DATA ORIGINAL: 08 DE MAIO DE 2018

FONTE: JORNAL DA USP

CRÉDITOS: https://jornal.usp.br/cultura/exposicao-traz-livros-escritos-e-traduzidos-por-monteiro-lobato/

Uma exposição sobre o escritor Monteiro Lobato faz parte da programação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Gratuita e aberta até 29 de junho, a mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras traz ao público quase 150 livros pertencentes ao Instituto de Estudos Monteiro Lobato (IEMB), localizado na cidade de Taubaté (SP), onde o escritor nasceu em 18 de abril de 1882.

São obras originalmente escritas por ele, traduzidas em outras línguas por tradutores estrangeiros, e livros de escritores estrangeiros traduzidos em português por Lobato. Aos visitantes, serão disponibilizados tablets para consultas de trechos das obras, com acesso a conteúdo digitalizado e interativo. Já os volumes impressos estão dispostos em vitrines, descritos em etiquetas legendadas com informações das edições — país e ano da publicação, nome da editora e do tradutor —, bem como trechos de comentários de Lobato sobre as traduções.

Cristina Antunes – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Um desses comentários é da sua tradução para Kim, do britânico Rudyard Kipling. A obra de 1901, que apresenta um retrato cultural e social da Índia, foi traduzida por Lobato em 1941, período em que este se encontrava preso pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. “Aproveito o tempo traduzindo o Kim, de Kipling — e essa estadia na Índia me fez esquecer completamente a prisão. Pena é que o excesso de visitas me tome tanto o tempo”, escreve Lobato, encarcerado no Presídio de Tiradentes, em São Paulo, mas imerso na Índia de Kipling.

“Essas obras traduzidas são muito raras e pouquíssimo conhecidas do público brasileiro”, conta Vladimir Sacchetta, um dos curadores da mostra, ao mostrar uma edição argentina de Urupês, considerada a mais importante criação literária de Lobato. O livro, publicado há exatos 100 anos no Brasil e que traz em um dos seus 14 contos o personagem Jeca Tatu, foi publicado na Argentina três anos depois, em 1921, a partir da tradução de Benjamin de Garay.

Outro exemplo do acervo mostrado na exposição é Dom Quixote das Crianças (1936), versão infantil de Dom Quixote de La Mancha, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes e lançada em 1605. Como conta Luciano Mizrahi Pereira, diretor do IEMB e também curador da mostra, a obra de Cervantes foi traduzida do espanhol para o português por Lobato, sendo adaptada para o público infantil e depois traduzida para o espanhol. “É um livro que se difundiu na Espanha, na América espanhola e em todos os outros países de língua espanhola. Acho que esse é o ápice de Lobato no exterior”, diz Pereira.

A curadora da BBM Cristina Antunes destaca a riqueza da exposição. “Você vai poder ver dezenas de obras traduzidas por Lobato nas mais diversas línguas: tailandês, chinês, japonês, obras publicadas no Afeganistão e na Holanda. Lobato ultrapassou todas as fronteiras e traduziu tudo o que lhe foi possível”, resume Cristina, em entrevista no programa Via Sampa, da Rádio USP (ouça no link acima).

Versão argentina de Urupês, de Monteiro Lobato, publicada em 1921, e traduções feitas por Lobato de obras do escritor norte-americano Ernest Hemingway e do físico ucraniano George Gamow – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Sacchetta explica que a seleção das obras e “a construção da narrativa” da mostra foram feitas a partir do acervo reunido pelo IEMB. “Uma narrativa que funciona através de cartas, de artigos em revistas e citações de Lobato e também da difusão geográfica dessas obras.”

“Depois de toda a vida dedicada à literatura, Lobato teve uma obra que se espalhou por si ao redor do mundo”, afirma Pereira, acrescentando que uma das motivações para a realização da exposição na BBM foi “resgatar a história de Lobato, além do que se costuma ver. A obra dele se espalhou no mundo muitos anos após ele ter nos deixado”.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica aberta de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, s/n, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.

Para mais informações, ligue (11) 2648-0320 ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

TRADUÇÃO DE MONTEIRO LOBATO NO CHILE DÁ ATUALIDADE AO TEXTO

AUTOR: DIRCE WALTRICK

DATA ORIGINAL: 13 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: ESTADÃO

CRÉDITOS: https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,traducao-de-monteiro-lobato-no-chile-da-atualidade-ao-texto,70003578932

Umberto Eco dizia que “a língua da Europa é a tradução”. Acredito que a língua do mundo deveria ser a tradução, pois é através desta que se conhece outras culturas e novas formas de pensar. No que tange à literatura, particularmente, é através dela que autores estrangeiros ganham repercussão, por vezes muito mais do que os autores nacionais, como acontece no Brasil. A propósito, a tradução da obra de escritores brasileiros ainda é pequena, em parte porque não temos uma política de divulgação de nossa produção literária em países não falantes do português. Sem um programa governamental, esse trabalho de divulgação e de tradução da produção literária nacional vem sendo feito, em grande parte, por professores e alunos das nossas universidades em conjunto com universidades estrangeiras.

Las Travesuras de Naricita (Reinações de Narizinho) , de Monteiro Lobato , que agora chega pela primeira vez ao Chile, é fruto desse esforço que nasce na academia. A edição alentada e coordenada por Letícia Goellner, doutora pelo programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina e professora de Tradução na Pontifícia Universidad Católica de Chile. O livro, cujo texto de Lobato foi traduzido por Goellner, Pablo Saavedra e Vicente Menares, conta com paratextos importantes, assinados pelos tradutores e por pesquisadoras brasileiras como Regina Zilberman, Fernanda Coutinho e Marie-Hélène Torres.

Reinações de Narizinho , que faz 90 anos em 2021, é o segundo livro de Lobato para o público infantil. O primeiro, A Menina do Narizinho Arrebitado , de 1920, fez um sucesso tão grande que, em 1931, Lobato decidiu relançar a história, darando, contudo, outras aventuras inéditas ao volume. Nasceu, assim, Reinações de Narizinho , livro que “abre para a porteira do Sítio do Picapau Amarelo”, como afirmam Márcia Camargo e Vladimir Sacchetta.

As aventuras do Sítio de Lobato marcaram gerações de brasileiros. Em Felicidade Clandestina , de Clarice Lispector, uma narradora de experiência a “tortura chinesa” a que se submeteu para conseguir Reinações de Narizinho. Parece que valeu a pena: “Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”.

Lobato inaugurou uma nova era na literatura infantojuvenil. Reinações é uma espécie de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Ambos são protagonizados por meninas sonhadoras; no entanto, no livro de Carroll, quando Alice desperta, a fantasia termina; já em Lobato, uma fantasia inunda a vida real. Em sonho, Emília, a boneca de Narizinho, começa a falar desenfreadamente depois de ingerir algumas pílulas. Findo o sonho, a boneca segue falando: realidade e fantasia passam a caminhar lado a lado.

Revista no século 21, a linguagem usada por Monteiro Lobato nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo se revelou racista. Cabe destacar que Lobato escreveu na primeira metade do século 20 e usava como expressões coloquiais da época. Todavia, não se pode desconsiderar que o escritor fez parte de uma sociedade eugenista, da qual participaram outros grandes nomes da época. Essa tomada de posição de Lobato é discutida, por exemplo, nos livros Raça Pura , de Pietra Diwan, e O Cosmopolitismo do Pobre , de Silviano Santiago.

Não é tão fácil quanto parece falar dessas questões na obra de Lobato, pois há nela algo de paradoxal no tocante à raça, à cultura, etc. Se por um lado tia Nastácia é “a negra beiçuda e ignorante”, como o escritor a aula , por outro lado, ela é uma das protagonistas da obra de Lobato e ganhou destaque num livro que confere o seu nome: Histórias de Tia Nastácia .

Na tradução para o espanhol chileno, essas marcas “racistas” e outras “politicamente incorretas” foram adaptadas com o intuito de dar atualidade ao texto. Segundo os tradutores, se uma linguagem e as palavras usadas por Lobato, “naquele momento, 1920, estavam naturalizadas”, hoje “não podem ser aceitas de maneira nenhuma”. Desse modo, tia Nastácia, completa em Reinações como “negra de estimação”, na tradução se tornada “una señora negra muy querida por la família” (uma senhora negra muito querida pela família). Já o “anãozinho” que se candidata a bobo da corte, no Reino das Águas Claras, se transforma em “duendecito” (duendezinho).

Mas os tradutores e a organizadora do volume são honestos com o leitor e esse tema polêmico é tratado tanto no ensaio que assinam, quanto em outro ensaio, de autoria de Alessandra Harden, que também compõe a edição chilena. A tradução pode dar nova vida ao texto ao atualizá-lo ou adaptá-lo à cultura de chegada. Em português, o texto de Lobato também pode ser adaptado, como já o foi, mas ninguém pode apagar o que Lobato de fato escreveu em língua portuguesa.

ESCRITORA, TRADUTORA, ENSAÍSTA E PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA TRADUÇÃO

CENSURAR A OBRA DE MONTEIRO LOBATO É UMA TOLICE

AUTOR: Rogério Tadeu Romano

DATA ORIGINAL: 30 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: ESTADÃO

CRÉDITOS: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/censurar-a-obra-de-monteiro-lobato-e-uma-tolice/

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido de liminar para suspender a distribuição, em escolas públicas, do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, obra publicada em 1933. O ministro rejeitou pedido do Instituto de Advocacia Racial (Iara), por entendre que não cabe ao Supremo julgar mandado de segurança contra ato do Ministério da Educação (MEC). O instituto alegou que a publicação apresenta conteúdo racista.

O caso começou a tramitar no Supremo em 2011. Uma audiência de conciliação chegou a ser feita pelo ministro, mas não houve consenso entre o MEC e o instituto.

Em 2010, o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou que uma obra Caçadas de Pedrinho não fosse mais distribuída às escolas públicas, por considerar que ela realmente apresentava o conteúdo racista. Em seguida, o MEC recomendou que o CNE reconsiderasse uma determinação. O conselho decidiu, então, anular o veto.

Em decisão recente, o ministro Toffoli determinou que os autos recebidos ao STJ para julgamento.

Fala-se hoje na reedição da obra “A Menina do Narizinho Arrebitado” pela bisneta do autor.

Não se nega a importância da obra de Monteiro Lobato, que perpassa várias gerações.

Uma revisão de Cleo Monteiro Lobato alterar ou suprimir “passagens problemáticas”, como a que se referia a Tia Nastácia como “negra de estimação”.

Bastou para que Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares que fez de sua marca a indicação ao movimento negro, fosse às redes sociais para denunciar aquilo como uma “mutilação politicamente correta”. Foi seguido por Mario Frias, secretário da Cultura, que achou a mudança uma vergonha.

Será importante fazer essa censura em trechos considerados racistas numa obra?

O exercício é fútil. A literatura tem, entre suas funções, a de documento histórico de uma época e do pensamento de seu autor. Change trechos, não importa por qual motivo bem-intencionado, causará inevitável distorção do conteúdo.

Não se pode destruir um legado intelectual.

Se assim fosse estaríamos, no Brasil, a destruir, de forma bárbara, músicas como “O seu cabelo não nega”, dentre outras, de Lamartine Babo. Então não vou ler uma obra de Heideger porque ele admirava ideias nazistas? Ora, isso é bestial.

Não se pode analisar o passado com olhar do presente.

Deve-se se examinar uma obra com o olhar dos tempos para a qual foi escrita, dentro de uma visão democrática.

Na democracia há a realidade permanente dialógica. Sem totalitarismo rompe-se o diálogo, aniquilam-se as liberdades. Desconhecem-se direitos.

Num Estado democrático de direito, cuja constituição libertária proíbe a censura, não se pode falar em proibição de divulgação de obra, voltando-se aos tempos de um Estado Autocrático.

Tal seria afrontar a liberdade de pensamento e exposição de uma obra artística.

A liberdade de manifestação de pensamento constitui um dos aspectos externos da liberdade de opinião. A Constituição Federal, no artigo 5º, IV, diz que é livre a manifestação de pensamento, vedado o anonimato, e o art. 220 define que a manifestação do pensamento, sob qualquer forma, processo ou veiculação, não sofrerá qualquer critério, observado o descrito nesta Constituição, vedada qualquer forma de censura de natureza política, ideológica e artística.

Cortar trechos de uma obra histórica a pretexto de defender a sociedade do racismo e exercer um ato que confronta a democracia.

No Brasil, Lobato é atacado desde a década de 1940, quando seus livros eram classificados como propaganda comunista. “Diziam que, com o sítio, ele queria criar o Estado Stalinista”, diz Ilan Brenman, pesquisador da obra de Monteiro Lobato. Segundo ele, Lobato foi acusado até deformar o caráter das crianças. Condenado a seis meses de prisão durante a ditadura de Getúlio Vargas, Lobato foi perseguido pelo então procurador da Província de São Paulo, Clóvis Cruel de Morais, que pediu ao Estado que apreendesse todos os exemplares da obra Peter Pan. “Alegou-se que um texto incutia um sentimento de inferioridade nas crianças brasileiras porque falava bem da Inglaterra”, diz Brenman. Emília era vista como uma ameaça à família brasileira, por subverter a hierarquia numa sociedade patriarcal, em que um menor jamais podia contestar os adultos. A desaforada Emília era a imagem da rebeldia. “Se não tomarmos cuidado, Emília corre o risco de se tornar uma Barbie bem-comportada, de aparência impecável, ou, simplesmente, de ser calada para sempre”, diz Brenman.

Exercer essa patrulha cultural em temos de uma constituição-cidadã, de 1988, é uma tolice, repita-se.

É mais do que isso: é um exercício de “analfabetismo histórico”.

É bom recordar a feliz manifestação da Academia Brasileira de Letras sobre o tema:

“Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Picapau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica ”.

É preciso ter cuidado com o politicamente correto que pode nos dar amarras que sejam intoleráveis. Aliás, essa onda pode nos levar ao abismo, pois nos leva à fuga do razoável.

* Rogério Tadeu Romano, procurador regional da República aposentado. Professor de Processo Penal e Direito Penal. Advogado

OBRAS DE MONTEIRO LOBATO PASSAM POR ATUALIZAÇÃO APÓS ACUSAÇÕES DE RACISMO

AUTOR: CLEO MONTEIRO LOBATO

DATA ORGINAL: 08 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: REVISTA VEJA

CRÉDITO: https://veja.abril.com.br/cultura/obras-de-monteiro-lobato-passam-por-atualizacao-apos-acusacoes-de-racismo/?fbclid=IwAR0A72bc6MwzyWlMYw9IMjCWeNuuJzTu-dZ_EPwzYR9vZOHGQOVXdOEC37M

Há 100 anos, Monteiro Lobato (1882-1948) lançava seu primeiro livro infantil, A Menina do Narizinho Arrebitado. Foi a porta inicial que se abriu para o mundo mágico e popular da turma do Sítio do Picapau Amarelo, onde Narizinho, Emília, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, entre outros personagens, viveram aventuras extasiantes que ultrapassaram, e muito, as fronteiras da área rural em que a trupe fictícia vivia. Este foi o melhor e maior legado que o autor, que é meu bisavô, deixou: o poder de abrir a mente das crianças para o desenvolvimento do seu imaginário, criando a noção de possibilidades, de que com esforço conjunto existem soluções e de que tudo é possível. Esse legado é indelével, mas também não podemos ignorar as mudanças sociais ocorridas desde 1920.

Só tomei consciência de quem era meu bisavô quando tinha por volta de 13 anos, pois meu pai se tornou o representante legal da família e logo depois vieram os contratos com a TV, nos anos 70. Nasci Cleo Campos Kornbluh, filha de Joyce Campos, neta de Lobato, e do judeu polonês Jerzy Kornbluh, sobrevivente do Holocausto. Não tive de conviver com o peso do sobrenome de Monteiro Lobato na infância. Quando isso aconteceu, percebi que não era um fardo. Porém, senti uma necessidade de autoconhecimento, que me levou a mergulhar em sua vida e obra.

Os valores chamados “lobatianos” de pensar, de agir e de se posicionar eram constantes na família — e creio que ecoaram também entre seus leitores. Trata-se do gosto pela leitura, da capacidade de pensamento crítico, do amor à arte, ao desenho e à pintura e de uma imaginação e criatividade poderosas, além do empreendedorismo e do gosto por aventura. Adiciono ainda um maior entendimento da natureza, da oposição ao fanatismo, e da importância da educação.

Foi recentemente, após o falecimento do meu pai, em 2015, quando me inteirei dos assuntos relacionados a Lobato, que soube das acusações de racismo. No início, fiquei chocada, pois quem leu sua obra na minha geração não consegue entender como isso é possível, mas reli os livros e comecei a entender o porquê dessas queixas. Sou historiadora e imigrante (moro nos Estados Unidos há mais de vinte anos), experiência que me permitiu um distanciamento pessoal para analisar as acusações. Assim, digo: é preciso, primeiro, separar Lobato pessoa e Lobato escritor.

Para começar, é necessário contextualizar o momento histórico da época e depois colocar Lobato dentro do momento social em que viveu. Não há como negar que o Brasil foi um país colonizado e que os colonizadores escravizaram índios brasileiros e trouxeram ainda escravos africanos. Essa confluência de raças formou nosso país, nossa consciência, nossas estruturas sociais. E creio que esse cenário é retratado na escrita de Lobato. Essas estruturas têm evoluído à medida que os diferentes grupos sociais percebem a opressão do colonizador original branco e se voltam contra ela.

Eu acreditava no mito de que no Brasil não existia preconceito racial, que somente existia preconceito econômico. Mas hoje entendo que o fim da escravidão e a parca incorporação do negro à sociedade resultaram em um cenário propício ao racismo estrutural, além da desigualdade econômica e educacional. E foi nesse contexto social de debate que, em 2019, as obras de Lobato caíram em domínio público, e diversas editoras e escritores resolveram editá-lo. A discussão de adaptar sua obra tomou vulto, e as acusações de racismo se multiplicaram.

“Frases inadequadas foram mudadas, assim como a representação de alguns personagens”

 

Entre 2000 e 2010 houve uma ação contra o livro Caçadas de Pedrinho, em que o acusavam de ser racista. Ação esta que resultou na decisão de colocar em catálogo que o livro deveria ser mediado por um adulto. Ao reler os livros, concordei com a decisão. As obras infantis de Lobato contêm expressões, frases e descrições que não podem passar, mas que servem para a abrir a discussão sobre o preconceito, entre outros temas. Não há mais espaço para piadas racistas, homofóbicas ou misoginistas. Para mim, não adiantava mais dizer apenas que eu não era racista, eu precisava me posicionar como antirracista. Por isso decidi manter o legado de Lobato vivo, e atualizá-lo para as próximas gerações.

Junto com a editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, optamos por relançar as obras de forma atualizada. O primeiro a passar por essa edição, que já está nas lojas e vai ganhar tradução em inglês em dezembro, é justamente Narizinho Arrebitado. O texto está lá, praticamente por inteiro, mas frases inadequadas foram mudadas, assim como a representação de alguns personagens. A popular Tia Nastácia foi modificada cirurgicamente. Retiramos todas as frases que consideramos de cunho preconceituoso, além de dar-lhe uma injeção de “orgulho” através de um novo visual criado pelo ilustrador Rafael Sam. Vale ressaltar que também sou a favor da leitura do texto original, com o uso de notas de rodapé, prefácio e posfácio explicativo — assim, em vez de censurar, abrimos sua obra para debate.

Faço isso, pois, no fundo, ao me aprofundar mais na vida pessoal de meu bisavô através das memórias de minha mãe, Joyce, que conviveu com ele, percebi que Lobato realmente não foi uma pessoa com atitudes racistas. Quando ficou preso por três meses em 1941, por criticar a ditadura do Estado Novo, e sem tratamento especial, ele ficou amigo de todos os presos e rapidamente começou a dar aulas de português, história e geografia, e ensinou a ler e a escrever. À medida que os presos eram soltos, ele escrevia um bilhete com recomendações para que amigos ajudassem o tal preso a arranjar emprego. Não é necessário dizer que os presos, em sua maioria, eram negros, já evidenciando que no Brasil existe e sempre existiu um preconceito estrutural profundo: quem é negro vai para a prisão mais facilmente do que quem é branco. Tem uma citação que diz “viver com igualdade é saber respeitar as diferenças. Respeito não tem cor, tem consciência”. Acredito que essa era a verdade interna do meu bisavô. E esse respeito do outro como ser humano foi passado através das gerações e faz parte da minha essência.

* Cleo Monteiro Lobato é historiadora e curadora do novo projeto de livros atualizados do bisavô

“O PETRÓLEO É NOSSO”, AS DERRADEIRAS PALAVRAS DE MONTEIRO LOBATO

AUTOR: CARLOS RUSSO JR

DATA ORIGINAL: 22 DE NOVEMBRO DE 2014

FONTE: JORNAL OPÇÃO

CRÉDITOS: https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/o-petroleo-e-nosso-derradeiras-palavras-de-monteiro-lobato-21532/

No dia 2 de julho de 1948, Monteiro Lo­ba­to concedeu à rádio Record aquela que se­ria a última entrevista de sua vida, a qual encerrou com as palavras: “O Pe­tróleo é Nosso”! Dois dias após, “O Repórter Esso”, na voz de He­ron Domingues, anunciou a morte de um grande brasileiro, desses que surgem poucos a cada geração: “E a­gora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande es­critor e patriota Monteiro Lobato!”

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882, falecia aos 66 anos de idade; o corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre, que seguiu a pé até o Cemitério da Consolação, havia mais de dez mil pessoas a quais cantavam o Hino Nacional. Compreendiam que Monteiro Lobato representou a seu modo o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas, aventuras pessoais ou coletivas, que formatariam o Brasil moderno.

Advogado sem vocação, seu primeiro emprego foi o de promotor público na cidade de Areias. Depois, teve sua experiência como fazendeiro, quando suas inovações agropecuárias demonstraram-se desastrosas; no entanto, “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Ca­va­lheiro, porque os melhores “frutos da fazenda” foram os livretos “Jeca Tatu” (1919) e “Urupês” (1918).

Esses coincidiram com a greve geral de 1917/18, e com a onda de rei­vindicações operárias que se alastrou por todo o país até os anos 1920, e expressavam literariamente os novos anseios populares. No pe­queno volume de “Jeca Tatu” havia uma joia rara se revelava no propósito do autor de que o conto infantil fosse “um instrumento claro de luta contra o atraso cultural de nosso país, contra a miséria e o conservantismo corrupto e corruptor”. “U­rupês”, por seu lado, “era um brado de revolta que não se ouvia desde ‘Os Sertões’, de Euclides da Cu­nha”, no entender de Astrojildo Pereira.

Seguidor de Figueiredo Pi­mentel, o brilhante autor de “Contos da Carochinha“, Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra infanto-juvenil, constituindo aproximadamente a metade da sua produção literária.

O êxito dos primeiros contos impulsionou o homem empreendedor a investir com todas as suas forças no mercado editorial. Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominavam o mercado livreiro brasileiro. O voo, entretanto, fora alto demais. Sem nenhum apoio governamental, as grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética que se abatia sobre o Brasil. Lobato enfrentou dignamente a falência de sua Editora em cujos alicerces ele plantaria os da Companhia Editora Nacional.

É depois da primeira experiência com uma editora que ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue a carreira de escritor.

Em 1927, Lobato realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferro: é preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo.

Nos anos 1930 havia interesse o­ficial em se dizer que no Brasil não ha­via petróleo. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Na contramão dos in­teresses dominantes, fundou a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que fo­ram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas elas a Companhia Mato-grossense de Pe­tróleo (em 1938), que visava realizar perfurações quase junto à fronteira com a Bolívia, cujo governo na­cionalista já encontrara seu ouro negro.

Em dois livros, “Ferro” (1931) e “O Escândalo do Petróleo” (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em me­nos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, o qual era a­cu­sado de “não perfurar e não deixar que se perfure” proibiu “O Es­cân­dalo do Petróleo” e mandou re­colher todos os exemplares disponíveis, naquilo que seria o primeiro lance da longa sequência de escândalos envolvendo o ouro negro brasileiro, que prosseguem até os dias de hoje.

A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe moveram os governantes, os burocratas e sabotadores dos interesses pátrios, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso e, até mesmo, levá-lo ao Presídio Tiradentes, onde como preso político foi confinado por seis meses, naquela mesma cela do Pavilhão n.1, pela qual passariam tantos presos da ditadura militar de 1964.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lo­ba­to conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, lutas que se aprofundariam após a sua morte e que redundaram na fundação da hoje A Petróleo Brasil S/A (Petrobras), empresa criada em 1953, na fase populista do então presidente Getúlio Vargas, impulsionada pela campanha popular iniciada em 1946, sob o slogan de “O petróleo é nosso”.

Mas voltemos a Monteiro Lobato escritor da maior parte das histórias infantis nacionais. Além de Narizinho Arrebitado, uma edição inicial de 50 mil exemplares no ano de 1921, outras tão importantes ou mais foram: “Reinações de Nari­zi­nho” (1931), “Caçadas de Pe­dri­nho” (1933) e “O Pica-pau A­ma­relo” (1939). Os “Trabalhos de Hércules” concluem uma saga de trinta e nove histórias e quase um milhão de exemplares em circulação.

Nesses trabalhos Lobato criou personagens inesquecíveis, que se incorporaram para sempre ao folclore brasileiro. Emília, a boneca de pano com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identifica quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã. O folclore do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação literária no autor de “Reinações de Narizinho”.

Lobato foi traduzido para diversas línguas como francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Bra­sileira de Letras, mas acabou derrotado. Era a segunda vez que isso acontecia. Na primeira vez, em 1921, iria concorrer à vaga de Pedro Lessa, mas desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para pedir seus votos. Desta vez, estava concorrendo à vaga do renomado jurista João Luís Alves. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois votos no quarto.

Digno de nota é que Lobato ainda sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil, na primeira fila do reacionarismo da guerra fria, denunciará o livro “História do Mundo Para as Crianças” como sendo o “comunismo para crianças”.

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou “Paranoia ou Mistificação”, a famosa crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a tachá-lo de reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos “ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de “colonialismos”, “europeizações”, da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone.

É bem verdade que a obra literária de Lobato da década de 1920 continha preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação fora um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Seu livro, “O Presidente Negro” (1926), descreve um conflito racial de um tempo futuro, após a eleição de um negro para a presidência dos EUA.

"Em dois livros, ‘Ferro’ (1931) e ‘O Escândalo do Petróleo’ (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a ‘carneirada’ e contra os ‘moinhos de vento’, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente”

“Em dois livros, ‘Ferro’ (1931) e ‘O Escândalo do Petróleo’ (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a ‘carneirada’ e contra os ‘moinhos de vento’, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente”

Posteriormente, com sua aproximação ao comunismo, essa faceta “eugênica” se desfaria. Monteiro Lobato sempre se declarou, co­rajosamente, sim­patizante da Re­volução So­vi­ética; diz o seu bi­ógrafo que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio ro­mântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político.” Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes, durante a ditadura de Vargas.

Empolgou-se com a luta antinazista da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e suas conquistas e vitórias nos campos das ciências, da educação. Jamais escondeu sua admiração e estima por Luís Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações. Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de calúnias direitistas e perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de “Zé Brasil”, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

Monteiro Lobato foi um dos homens mais íntegros e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, daqueles que passados quase um século a nossa pobreza ética e intelectual ainda se ressente.

Carlos Russo Jr. é escritor e crítico literário.

LOBATO PRECISA DE DEFESA?

AUTOR: RICARDO ANTÔNIO LUCAS CAMARGO

DATA ORIGINAL: 8 DE MARÇO DE 2011

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

CRÉDITOS: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/educacao-e-cidadania/caderno-da-cidadania/lobato-precisa-de-defesa/

Volta à pauta o tema da questão de a leitura de Monteiro Lobato (1882-1948) ser ou não ser uma ‘perigosa propaganda do racismo’ e, desta vez, com o reforço do texto do professor Muniz Sodré, ao falar do ‘racismo afetuoso’, criticando a postura do ministro Fernando Haddad (ver ‘Monteiro Lobato vai para o trono?‘). O curioso é que as expressões de que sempre se servem os acusadores para mostrar o caráter ofensivo aos ‘não-brancos’, em regra, estão no discurso direto, na boca de uma das personagens, a Emília, quando se dirige à Tia Nastácia. Não vou alinhar argumentos que foram deduzidos em outra oportunidade (ver ‘Datas redondas, Gandhi e Lobato‘), mas vou prender-me, sobretudo, ao texto do professor Muniz Sodré e aos comentários que aportaram, estes, efetivamente, mais virulentos.

Deixo bem claro que costumo ler os textos do professor Muniz Sodré e, em muitos pontos, manifesto concordância. Mas não é o caso deste, e é por conta disto mesmo que me sinto no dever de manifestar minha discordância num artigo, e não no espaço reduzido dos comentários. O texto do jornalista Júlio Ottoboni defende Lobato a partir do problema do perigo de se reduzir a sua obra a mera questão racial, contextualizando-a historicamente e recordando episódios como o veto à sua entrada na Academia Brasileira de Letras e o seu apresamento pelo Estado Novo (ver ‘Monteiro Lobato não precisa de buzinadas‘. Meu texto vai no sentido de aproximar mais diretamente os polemistas da obra em si mesma.

Como os personagens veem a Tia Nastácia?

Efetivamente, não é exatamente elogioso a quem quer que seja ser chamado ‘beiçudo’, ‘pretura’ e outros que tais. Mas também não é de ser esquecido que: (1) os adjetivos utilizados aparecem, sempre, num diálogo fictício; (2) os demais personagens, caso demos de barato esta circunstância, são respeitosos com a cozinheira – mesmo D. Benta somente vem a chamá-la de ‘analfabeta’ na Aritmética da Emília, sendo, em todos os outros volumes (e são dezoito, ao todo), extremamente cordial, apesar de patroa; (3) toda vez em que Lobato assume o discurso do narrador, é elogioso para com a negra. Tomemos, especificamente, a obra que rendeu ensejo a toda a polêmica em especial, Caçadas de Pedrinho, na edição da Brasiliense de 1960, em volume que trazia junto Hans Staden: ‘mais corajosa, a negra aproximou-se’ (p. 18), ‘a boa negra’ (p. 59), ‘a boa criatura'(p. 114). Quando não exprime carinho, exprime piedade, não sendo ela mais medrosa ou desajeitada do que sua patroa, D. Benta. Quanto a Emília, que, no conjunto, é uma personagem simpática apesar de politicamente incorreta, eis como ele se refere, quando assume a posição de narrador (no mesmo livro): ‘a terrível bonequinha’ (p. 8 e 27), ‘diabinha’ (p. 103).

E como é que os personagens, mesmo Emília, veem a Tia Nastácia? Em O Minotauro, continuação de O Pica-Pau Amarelo, vão todos à Grécia Antiga para resgatá-la das garras do filho de Pasífae com o touro de Minos. Claro que poderia vir o contra-argumento de que o motivo seria o utilitarismo de não perder a quituteira.

O resgate de tia Nastácia

Mas – recordando, sempre, que estamos diante da ficção, universo em que o autor pode moldar o mundo com uma liberdade, sem blasfêmia, semelhante à de Deus –, vejamos qual a percepção das personagens acerca do dever de resgatá-la (a referência é à edição de 1960):



‘A pobre tia Nastácia, que se distraíra nas cozinhas do palácio com o assamento de mil faisões, perdeu-se no tumulto. Fora atropelada, devorada ou aprisionada pelos monstros? Ninguém sabia.

‘Só depois do desastre é que Dona Benta e os meninos puderam ver o quanto a estimavam. Que choradeira!’ (p. 1).

‘Fique sossegada, vovó. Apesar daquilo lá ser um viveiro de hidras e heróis tebanos, eu aposto em mim mesmo. Hei de ir, ver e vencer – e trazer tia Nastácia, ainda que seja de rastos. A senhora não me conhece, vovó….’

‘Dona Benta, que voltara com Aspásia, fez a apresentação da preta:

‘Está aqui a minha boa amiga extraviada nos fundões da velha Hélade. Pedrinho jurou que a traria e trouxe-a. É um danado esse meu neto’ (p. 251).

‘Os europeus só roncam diante dos fracos’

Muito bem. O que dizia Monteiro Lobato a respeito da escravatura e do colonialismo? Afinal, toda esta movimentação para declarar a sua obra perniciosa – algo que não deixa de guardar uma forte analogia com a campanha que J. Edgar Hoover fez, através de políticos notoriamente reacionários, como Joseph McCarthy e Richard Nixon, contra Chaplin e sua obra cinematográfica – está a partir do pressuposto de que o autor paulista, nosso primeiro autor voltado à literatura infantil, teria estado a serviço de uma propaganda das ideologias racistas do início do século 20 e deveria, para não incidir em inconsequência, trazê-las e comentá-las, nem que fosse para dizer que elas, no seu ver, não diriam o que a literalidade delas dizem:



‘Nem queiram saber, meus filhos, o que foi o célebre `tráfico de escravos africanos´… Virou a maior tragédia da História. A crueldade dos brancos, a cupidez dos civilizados excedeu a tudo quanto se possa imaginar. Pegar negros na África para exportá-los para a América tornou-se o grande negócio dos tempos. […]

A tragédia foi longa mas passou. Os países da América foram libertando os escravos, primeiro este, depois aquele. A Argentina libertou-os em 1813 – foi um dos primeiros e, por isso, está agora gozando a recompensa. O México libertou-os em 1829. Os Estados Unidos, em 1863, e o Brasil em 1888…

`Por último, heim? Que vergonha para nós!´ – comentou o menino.

Sim. Fomos o último povo no mundo a libertar os escravos. Realmente, essa demora em nada nos honra…’ [Geografia de Dona Benta. São Paulo: Brasiliense, 1960, p. 213-5].

‘Os europeus só roncam diante dos fracos. Se o povo é forte, como os americanos ou os japoneses, eles desconversam’ [idem, p. 217].

‘Seu ódio aos negros não se deduz de seu texto ficcional’

A passagem da carta de Lobato a Godofredo Rangel que é referida pelo professor Sodré para comprovar as convicções racistas do escritor sob comentário não prova que sua obra infantil seja propaganda racista, assim como o fato de alguém ter uma opção homossexual não faz, necessariamente, prova de que ele tenha molestado sexualmente uma criança do mesmo sexo, ou o de alguém ser francamente homofóbico não faz, necessariamente, prova de que tivesse participado de um grupo que tenha espancado até a morte um homossexual, ou de alguém ser simpatizante de MST não faz com que tenha participado de ocupação da fazenda X ou Y, ou o de alguém antipatizar o MST não faz com que tenha participado de eventos como o de Eldorado dos Carajás. Prova da convicção não é prova do fato relacionado à convicção. Com efeito, o professor Muniz Sodré refere:



‘Monteiro Lobato era um racista confesso, seu ódio aos negros não é nada que se deduza por interpretação de seu texto ficcional. Mas quase todo o mundo leitor sabe disso. É lamentável fingir inocência ou alegar que o racismo brasileiro é diferente, é `afetuoso´. Aí estão publicadas as cartas ao amigo Godofredo Rangel, em que Lobato se perguntava como seria possível `ser gente no concerto das nações´ com aqueles `negros africanos criando problemas terríveis´. Que problemas? Simplesmente serem negros, serem o que ele chamava de `pretalhada inextinguível´. O escritor sonhou ficcionalmente com a esterilização dos negros (vide O Presidente Negro) e sugeriu, muito antes do apartheid sul-africano, o confinamento dos negros paulistas em campos cercados de arame farpado.’

Mas note-se: ‘seu ódio aos negros não é nada que se deduza por interpretação de seu texto ficcional’. A diferença está visível, aqui. Não é na obra ficcional infantil que se vai encontrar a manifestação do ‘racismo confesso’. E, por outro lado, quem tem uma obra tão prolífica – dezoito volumes para crianças, mais o mesmo número de obras para adultos, entre contos, ensaios – não pode ser julgado por trechos isolados de uma única obra – note-se bem, de ficção.

‘Apagar Lobato da fotografia’

O autor do texto ora comentado reconhece que não são perceptíveis, a uma primeira vista, os laivos racistas, e que o indivíduo tem que querer localizar tal mensagem:



‘Se me perguntassem qual a minha relação pessoal com a literatura infanto-juvenil de Lobato, eu teria de ser honesto e confessar que, ainda menino, no interior do Brasil, era fascinado por suas narrativas. Francamente, eu nunca havia percebido os laivos racistas, que não são tão numerosos assim em sua obra ficcional, mas estão lá para quem se dispuser a bem enxergar.’

Os trechos que transcrevi diretamente da obra de Lobato apontam visivelmente para o desmentido da tese de que sua obra infantil tenha estado a serviço de propaganda racista. Claro que, para os que estão empenhados em visualizar nele um agente deformador das mentes infantis, tais transcrições serão tidas como não feitas, ou então como distorções: mas não estou me dirigindo a estes, que se servem das razões do lobo, contra as quais toda a racionalidade é impotente, fato sobejamente narrado por Esopo, Fedro, La Fontaine e… Lobato. Estou me dirigindo àqueles que, como o professor Muniz Sodré, estão dispostos a alinhar argumentos e a enfrentar os dados de fato que se lhes apresentem com o espírito científico, e não com a fúria da militância. Para os que julgam que o autor do texto com que ora se polemiza se teria alinhado entre os que gostariam de ‘apagar Lobato da fotografia’, é bom transcrever o último parágrafo:



‘Lobato era, sim, um bom escritor, um editor importante, um visionário (sempre acreditou na existência de petróleo no solo nacional), mas também um racista confesso.’

A propósito, uma pergunta: quem foi o primeiro a editar as obras de Lima Barreto, estando este ainda vivo e sofrendo as discriminações por ser mulato?

O NEGRO NAS OBRAS DE MONTEIRO E LOBATO

AUTOR:  Maíra Althoff De Bettio

FONTE: INFO ESCOLA

CRÉDITOS: https://www.infoescola.com/literatura/o-negro-nas-obras-de-monteiro-lobato/

Monteiro Lobato apresentava em suas obras a realidade brasileira, que possuía (e ainda possui) características preconceituosas, ou seja, traços racistas em relação aos negros. Diante deste panorama, muitos consideravam o autor em questão preconceituoso. O que chama muito a atenção nas obras do autor é a ambiguidade, justamente o que gera esta discussão acerca do racismo ou não do escritor.

Particularmente, não vejo Monteiro Lobato como um escritor racista, apenas como alguém que representava a realidade brasileira em suas obras. Se ele assim o fosse, não intitularia uma de suas publicações com “Histórias de Tia Anastácia”, que conta com muitos causos populares e folclóricos, contados oralmente pela própria.

Tia Anastácia, como muita gente sabe, é uma das figuras criadas por Monteiro. Negra, trabalha na casa de uma família matriarcal branca e passa a maior parte do tempo na cozinha. Retomando a publicação que leva o nome da personagem, na qual constam desacatos da Emília (boneca de pano que tem vida) com a empregada, segue um exemplo:

“Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras – coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto!”

 

Mas a boneca tagarela não é mal-educada apenas com Tia Anastácia, ela passa dos limites com qualquer pessoa que vá de encontro ao seu gosto. Como continuação do exemplo anterior, na passagem em que Dona Benta (dona do sítio em que trabalha Tia Anastácia) censura Emília, esta retruca mostrando-lhe a língua. Aqui, a hierarquia também está presente, tendo em vista que Emília afronta de maneira diferenciada Dona Benta e Tia Anastácia.

Ao mesmo tempo em que Emília faz pouco caso das histórias que ouve de Tia Anastácia, Pedrinho (neto de Dona Benta) enaltece a cultura popular contada pelos negros:

“As negras velhas são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi uma escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias”

E o menino ainda conclui:

“Tia Nastácia é o povo. Tudo o que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer Tia Nastácia para tirar o leite de folclore que há nela”

Lobato utiliza características africanas na construção de outro de seus personagens negros, Tio Barbabé (que também é um sábio dos costumes populares e do folclore), e reconhece a importância desta influência africana na cultura brasileira. Além disso, o autor – no conto “Negrinha” – denuncia crueldades presentes no escravismo.

Fonte:
A Figura do Negro em Monteiro Lobato, por Marisa Lajolo. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/outros/lobatonegros.pdf

 

LOBATO NÃO ERA RACISTA

AUTOR: ANTONIO SILVIO LEFÉVRE

DATA ORIGINAL: 08 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-nao-era-racista.shtml

 

No começo de 1945, quando a ditadura Vargas já andava enfraquecida, Monteiro Lobato ao falou repórter Tulman Neto, do jornal "Diário de São Paulo". Uma entrevista foi por escrito, pois Lobato não confiava nos jornais. Afirmava que insistiam em publicar “asneiras” atribuídas a ele. Só dava revelou redigidas de próprio punho. Certa vez, adicionou a seguinte carta ao diretor da Folha da Manhã:

“Por acaso me chegou às mãos um recorte da Folha da Manhã, de 15 do corrente, com um tal telegrama do Rio no qual se transmite uma 'entrevista' minha. Li e corei. Desnaturações do pensamento, vulgaridades, chatices. E esta coisa me assombrou: 'Finalizando, disse Monteiro Lobato, vai melhorar o Brasil. Antigamente só elegiam esses sujeitos ossudos, soturnos, ou bojudos, têm horríveis, mal-encarados, convencidos etc. '”

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

E contínuo: “Por mais que eu lesse e relesse o recorte inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche a cabeça desse repórter. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha ea tal entrevista desnaturada é tão chata e vulgar que a ideia que me vem é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade dos repórteres de seus jornais. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que já estou completamente gagá ”.

Setenta e cinco anos depois, em 27 de dezembro de 2020, a Folha cometeu outra falha, muito mais grave, expressa num editorial sob o título “ O racismo de Lobato ” e o subtítulo “Mostras claras de preconceito nas obras infantis devem ser contextualizadas, não suprimidas ”.

Endossando a visão de alguns dos “politicamente corretos” de hoje, que acusam Lobato de racismo por causa de uma ou outra frase dos personagens do "Sítio do Picapau Amarelo" em que a Tia Nastácia é chamada de “negra”, o editorialista ignora que são diálogos de um livro infantil, repleto de provocações, em especial por parte da desbocada boneca Emília. Levar isso ao pé da letra, como se fosse manifestação de racismo por parte do autor do livro, revela uma profunda e total ignorância sobre a obra de Lobato.

Livros de Monteiro Lobato

Livros de Monteiro Lobato

Quem leu todos os livros do "Sítio" na infância, como eu, sabe muito bem que não tem neles nada de racismo. Pelo contrário, um personagem Nastácia é apresentada como uma pessoa sábia, de enorme simpatia. E, ao chamá-la de “negra de estimação”, Lobato deixa claro que se opunha cabalmente a qualquer preconceito.

Mas o pior de tudo no editorial da Folha foi uma frase final, que obrigou a uma obra infantil de Lobato, considerada como racista, deva deixar de ser lida pelas crianças. Assemelhando-se a uma sentença do Tribunal da Inquisição, o editorial termina dizendo :: “Ora, se uma obra reflete uma sensibilidade ultrapassada, é natural que seja logo esquecida”.

Eu sou um legítimo “filho de Lobato”, conforme José Roberto Whitaker Penteado tão bem estudantes em seu livro a influência marcante do escritor nas gerações seguintes. A essa influência geracional se soma o fato de meu pai ter sido amigo e médico de Lobato, e eu mesmo ter interpretado o Pedrinho na primeira série de TV do "Sítio do Picapau Amarelo" (TV Tupi SP, 1954).

E hoje sou próximo e amigo de Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, que está reeditando os livros do "Sítio", eliminando ou substituindo a palavra “negra” para evitar que os “corretinhos” de hoje julguem Lobato racista, quando o objetivo de Lobato era exatamente o oposto. Ele foi um ativo militante antirracista, e não um racista .

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

Algo me diz que se Lobato estava vivo ele escreveria novamente à Folha , dizendo algo semelhante ao que afirmou em 1945, cujo texto me permito adivinhar:

“Por mais que eu lesse e relesse o editorial inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche as cabeças do autor desse texto. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha, ea ideia que me vem à cabeça é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade de muitos de seus jornalistas. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que eu já estava completamente gagá nos anos 1930 e 1940, a ponto de virar racista e da Folha mandar meus livros para a fogueira da Inquisição. ”.

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Ah, a boneca Emília, que tudo percebe antes dos outros, me apontou o que ela descobriu como razão para o ataque da Folha a Lobato: “É que dois 'bolsominions' ignorantes, um tal de Sérgio Camargo e um tal de Mario Frias, ambos achando que Lobato era de direita, o estão defendendo e dizendo que ele não era racista. Então, como a Folha é contra o Bolsonaro (aliás, com toda razão), mas, por ignorância, não sabe que Lobato era de esquerda, achou que tinha que divergir dos 'bolsominions' e chamar Lobato de racista. Cada um mais bobo que o outro, não é, Pedrinho? ”

Eu, Pedrinho, espero que a Folha faça um mea-culpa para evitar que o próprio jornal, um dia, venha a ser colocado no índice por um governo de direita ou de esquerda, já que não sabe distinguir os dois lados e acusa um pensando ser o outro.

 

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO

AUTOR: JUCA DE OLIVEIRA

FONTE: ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

CRÉDITOS: http://www.academiapaulistadeletras.org.br/artigos.asp?materia=1868

Monteiro Lobato é um dos maiores escritores brasileiros. A ele devemos parte da nossa formação, instigados que fomos por suas reflexões sobre o homem e a sociedade. Através de suas histórias infantis, fábulas contadas por personagens inesquecíveis, ele conseguiu reunir numa família pouco convencional, suscetível à opinião das crianças e favorável ao avanço da sociedade, os elementos fundamentais para a assimilação da nossa evolução social. Em 1916 Lobato enviou uma carta a Godofredo Rangel manifestando a vontade de "vestir à nacional" as fábulas de Esopo e La Fontaine". Isso porque ele já sabia que as crianças guardavam na memória as suas fábulas para reconta-las aos amigos e delas deduzir a respectiva e inestimável lição moral. Portanto separar mecanicamente duas ou três malcriações de Emília comTia Nastácia e delas extrair uma justificativa para o nascimento do racismo entre os brasileiros é uma grande tolice. O radicalismo é fútil e insustentável. As alas radicais têm a tendência de tomar a parte pelo todo, incapazes de analisar o conjunto e generalizar.

Quando fiz o Otelo de Shakespeare em 1982, no Teatro de Cultura Artística, em determinada fase dos ensaios nos preocupou muito a possibilidade de não estarmos examinando corretamente a questão do racismo nessa tragédia. Othello é um general negro e se casa com Desdêmona, branca e filha de Brabâncio, rico senador veneziano. Deveríamos – quem sabe -enfatizar determinadas falas ou fazer alterações no texto a fim de realçar a pele negra do Otelo? Depois de muita discussão, resolvi consultar o grande Jorge Dória, um dos maiores atores brasileiros e grande conhecedor da estrutura dramática de uma peça. Dória me ouviu com atenção e me deu a solução definitiva, que a partir daí passei a usar em todas as minhas incertezas éticas: – "Olha, Juca, quando você tiver alguma dúvida sobre a comportamento da personagem ou o desenvolvimento correto da encenação, pergunte a você mesmo: – "O que é que o Maracanã acha? – ".

Claro, Dória, na sua sabedoria de gênio, estava certo! O público do Maracanã manifesta sempre uma ruidosa opinião sobre os fenômenos sociais. Otelo estava integrado a esse público. Não mexemos em nada, mantivemos o texto integral e o espetáculo se tornou um grande sucesso. É o que sugiro aos radicais do "politicamente correto" na questão Monteiro Lobato: "vocês devem fazer a seguinte pergunta ao Maracanã: – "Maracanã, me responda, devemos proibir Monteiro Lobato nas escolas por suas manifestações racistas? "

E eles irão ouvir do Maracanã lotado um uníssono e ensurdecedor NÃO!!!

SÓ QUEM NÃO LEU OU NÃO ENTENDEU LIVROS DE LOBATO PODE JULGÁ-LOS RACISTAS

AUTOR: JORGE COLI

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS:https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-coli/2019/02/so-quem-nao-leu-ou-nao-entendeu-livros-de-lobato-pode-julga-los-racistas.shtml

Não se deve ter medo de livros. De nenhum livro. Muito menos dos livros infantis de Monteiro Lobato .

As consciências puras de nosso tempo eam condenando seus escritos por racismo . Creio, em primeiro lugar, que deveríamos separar o autor e a obra. A complexidade na arte é sempre maior do que no artista. Mas esta é uma outra história, muito comprida, que não cabe aqui. Quero, agora, trazer sobre o racismo nos livros infantis de Lobato.

Encasquetaram com “Caçadas de Pedrinho”, em que aparece uma frase: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”.
Algumas defesas bem-intencionadas dizem que é preciso “contextualizar na época”. Não acredito nessa solução.

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

Lobato inoculou o pensamento crítico a toda uma geração, a dos que têm hoje entre 50 e 80 anos. Lembro-me de Benedito Nunes, cuja inteligência filosófica nos faz tanta falta, mostrando-me, comovido, sua coleção do “Picapau Amarelo” guardada em lugar de honra.

São livros que abalam todos os confortos intelectuais. Têm horror à autoridade e à obediência. No Sítio, ninguém manda nem obedece: “Emília, respeite os mais velhos! – ralhou dona Benta. – A senhora me perdoe, – disse a pestinha – mas, cá para mim, isso de respeito nada tem com a idade. Eu respeito uma abelha de um mês de idade que me diga coisinhas sensatas —mas se Matusalém vier para cima de mim com bobagens, pensa que não boto fogo na barba dele? Ora, se boto! ”.

This é uma passagem de “Histórias de Tia Nastácia”. Lobato era fascinado pelas culturas afro-brasileiras, ao contrário dos modernistas que prolongaram o culto do indianismo romântico no século 20. Traz para o público infantil como histórias contadas por Tia Nastácia, que ele buscou em Sílvio Romero.

Graças ao Tio Barnabé, negro que mora entre o sítio e a floresta, faz os meninos serem conduzidos pelo Saci, um ser sincrético, mas fortemente carregado de taxas africanas, no mundo tenebroso das lendas.

Foi Tia Nastácia quem fez, fabricou, crioula Emília. É Nastácia a grande vencedora do Minotauro. Nastácia que tem a última palavra no malfalado “Caçadas de Pedrinho”: “Negro também é gente, sinhá …”.

Nem todos lembram que o primeiro livro publicado por Lobato foi, em 1918, “O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”, a partir de uma pesquisa promovida por ele, fascinado que era pelo personagem.

'O Saci', de Monteiro Lobato

'O Saci', de Monteiro Lobato

Esquecem-se de “Negrinha”, conto tremendo, de crueldade dolorosa, sobre uma pequena órfã negra de sete anos, pouco tempo depois de 13 de maio, um testemunho do abandono no qual foram deixados os ex-escravos : “O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo ”.

Lobato era um iluminista e acreditava na racionalidade. Mas sabia que os homens são contraditórios. Por isso, no “Sítio”, os personagens são tão diferentes entre si.

Odiava o angelismo, que deixa insossos muitos livros infantis e que transformou as adaptações na televisão —exceto as velhíssimas, na TV Tupi, por Júlio Gouveia— em bobagem conformista.

Lobato não evitava uma crueldade. Um de seus livros mais assustadores é “A Chave do Tamanho”. Nele é uma frase de Lobato que mais me marcou: “A humanidade forma um corpo só”. Sem hierarquias. Quando uma parte sofre, é o corpo inteiro que sofre.

Seus livros levam as crianças a descobrir que o mundo nunca foi um mar de rosas. Emília é “sem coração”, como diz o Visconde, assinalando o caráter tirânico, ávido, cruel da boneca, capaz de surrupiar o que não é dela. Ela retruca: “Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho, sim, um lindo coração —só que não é de banana. Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça ”. Os dois, Visconde e Emília, estão certos, porque ninguém é sem contradições.

Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas. Não ensinam o moralismo sentimental. Antes, induzem à crítica, ao exame, à independência do pensamento individual e autônomo.

Dona Benta não tem autoridade por ser adulta —chega a virar uma tartaruga de óculos, em “Reinações de Narizinho”. Mas o que ela faz é instilar no leitor o conhecimento ativo, interrogador, inconformado, sedento. Nisto está o gênio insuperável de Lobato.

Suas obras caíram agora em domínio público . Boa nova. Que as crianças —sejam lá de que origem principal— se apaixonem por elas. Mais do que nunca, é de pensamento livre que precisamos.

GRIPE ESPANHOLA FEZ MONTEIRO LOBATO ASSUMIR A REDAÇÃO DO ‘ESTADÃO’ EM 1918

AUTOR: EDAÇÃO, O ESTADO DE SÃO PAULO

DATA ORIGINAL: 04 DE JANEIRO DE 2021

FONTE:  ESTADÃO

CRÉDITOS:https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,gripe-espanhola-fez-monteiro-lobato-assumir-a-redacao-do-estadao-em-1918,70003569786?utm_source=estadao%3Aapp&utm_medium=noticia%3Acompartilhamento&fbclid=IwAR0M39fpxyIBduK_kfH_xFEzWbmBuvCz4Cgg81cQ3qL-QRTdM6vknrjKwY0

Estadão comemora nesta segunda-feira, 4, 146 anos de fundação. Lançado em 4 de janeiro de 1875, uma segunda-feira, como esta, com nome de A Província de São Paulo, contava com uma tiragem de 2.025 exemplares, em quatro páginas, uma delas dedicada aos anunciantes. O título O Estado de S. Paulo foi anunciado na edição de 18 de novembro de 1889, conforme comunicado de capa daquele dia: “Em consequencia da mudança radical havida no Governo da Nação Brazileira”, assim grafado logo após a Proclamação da República.

Ao completar 120 anos, em 1995, o jornal passou a ter também uma edição online e, atualmente, vive intensa transformação digital iniciando a contagem regressiva rumo a seu sesquicentenário, 150 anos, sempre com foco na modernização de processos de produção e divulgação de jornalismo de qualidade, marca histórica do jornal.

“Nossas audiências poderão conferir ao longo deste ano uma série de inovações, certamente um dos processos de transformação mais profundos dos 146 anos de história do Estadão”, disse João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado. “A contagem regressiva para os 150 anos será marcada por essas mudanças que, aliadas aos valores do jornal, reforçam a nossa parceria com a sociedade brasileira em busca de um Brasil melhor para todos.”

A transformação digital começou em 2017. No ano passado, com apoio da consultoria McKinsey, o processo do Estadão 3.0 foi acelerado em razão da pandemia da covid-19, situação que já levou a uma ampla revisão interna do jornal, com jornalistas e outros funcionários passando a trabalhar em home office na produção e publicação de notícias.

Agora, o jornal entra em 2021 reforçado por um ambiente de divulgação multiplataforma de informação, com foco no site estadao.com.br e no aplicativo, ampliando e diversificando na internet a já consagrada carteira de publicações do jornal em papel.

De acordo com Leonardo Contrucci, diretor-executivo de Estratégias Digitais do Grupo Estado, “nesta fase do Estadão 3.0 teremos um novo processo de produção de conteúdo centrado no leitor, levando uma experiência diferenciada no consumo de notícias nas mais variadas plataformas do grupo. E sempre com nosso propósito de gerar impacto positivo na vida das pessoas e do País”.

A inovação é uma das marcas importantes dessa longa história. Um ano depois de sua fundação, o jornal lançava uma das muitas novidades que marcariam a sua trajetória. Em 23 de janeiro de 1876, com o distribuidor francês Bernard Gregoire vendendo a publicação montado em um cavalo, o jornal iniciava a pioneira venda avulsa de exemplares pela cidade. A inovação entraria também para a história da cidade de São Paulo, então com cerca de 30 mil habitantes. No Estadão, o cavaleiro se tornaria o símbolo.

Desde a fundação, o Estadão noticiou e teve atuação decisiva nos principais fatos da cidade, do País e do mundo. Passadas a abolição da escravidão e o início do regime republicano, causas que defendeu em suas páginas, o jornal, além de informar, protagonizaria momentos importantes da História.

A abolição da escravidão, 13 anos após a fundação do jornal, foi um dos grandes acontecimentos históricos noticiados naquele fim de século 19. “Já não há mais escravos no Brazil. A lei n.3353 de 13 de maio de 1888 assim o declara no meio de festas que se estendem por todo o paiz, para a honra e glória desta nação da América”, dizia o texto “A Pátria Livre”, publicado em 15 de maio de 1888.

Nesse mesmo ano, o nome de Julio Mesquita, que começara a trabalhar na Província três anos antes, aparece pela primeira vez como diretor do jornal do qual se tornaria o único proprietário. Ele passa a comandar e a transformar a publicação, modernizando processos, formatos e linguagem, alçando o jornal a uma das maiores referências do jornalismo nacional e internacional.

No ano seguinte, a proclamação da República renderia outra edição histórica. A capa grafada apenas com os dizeres “Viva a República” sobre fundo branco é considerada até hoje uma ousadia do design gráfico.

A República ainda dava seus primeiros passos no final do século 19 quando o jornal foi o responsável por enviar Euclides da Cunha como repórter especial para cobrir a Guerra de Canudos, no sertão baiano, em 1897. Essa experiência como repórter atuando no conflito serviu como base para o escritor conceber o clássico da literatura Os Sertões.

Já no século 20, um outro conflito, a 1.ª Guerra Mundial, colocou o jornal na vanguarda do jornalismo – uma edição noturna, apelidada de Estadinho por causa do tamanho em formato menor, atualizava as informações e trazia uma análise contextualizada e apurada. A cobertura analítica de Julio Mesquita em textos publicados durante a Primeira Guerra Mundial é considerada por estudiosos como referência para a compreensão do conflito. A inovação da edição extra – desta vez vespertina – se repetiria anos depois com o relançamento do Estadinho na 2.ª Guerra Mundial.

Nas suas páginas, a cada dia, os mais variados intelectuais e jornalistas escreveram textos que mudariam o curso da história. Monteiro Lobato, outro ícone da literatura nacional, teve os primeiros textos publicados no jornal. O poeta Guilherme de Almeida escreveu por vários anos a coluna Cinematographo, noticiando e analisando a exibição dos primeiros filmes mudos até a chegada das vozes, cores e sons que transformaram o cinema. Exemplos como esse se estendem por outras áreas como esporte, cultura, comércio, economia, política e educação.

Da Revolução Constitucionalista de 1932 à criação da Universidade de São Paulo, o jornal continuou com uma história marcada pela defesa de temas relevantes para a sociedade e o País.

Em períodos diferentes, o Estadão resistiu aos arbítrios de regimes ditatoriais, sendo tomado por cinco anos pela ditadura Vargas e sofrendo uma feroz censura nos anos de chumbo da ditadura militar, quando denunciou a violência contra a liberdade de expressão publicando poemas de Camões no lugar das notícias proibidas.

Retomada a liberdade democrática a partir dos anos 1980, o Estadão continuaria a publicar reportagens que mudariam o rumo do País, ao mesmo tempo que aprimorava a sua capacidade de explorar as novidades tecnológicas – foi pioneiro no noticiário em tempo real com o Broadcast, um dos primeiros veículos jornalísticos na internet e nas redes sociais – para ampliar o alcance de seus conteúdos de interesse público nos mais diferentes formatos, do papel ao digital.

MONTEIRO LOBATO NÃO ERA RACISTA! EU, PEDRINHO, GARANTO!

AUTOR: ANTONIO SILVIO LEFÈVRE

DATA ORIGINAL: JANEIRO DE 2021

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/36234-monteiro-lobato-nao-era-racista-eu-pedrinho-garanto-antonio-silvio-lefevre/

Lamentável editorial da Folha de S. Paulo deste domingo 27/12, sob o título “O racismo de Lobato” e o subtítulo “Mostras claras  de preconceito nas obras infantis devem ser contextualizadas, não suprimidas”.

A respeito da polêmica que, há alguns anos, vem sendo levantada por alguns “politicamente corretos” que veem racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato, por causa de uma ou outra frase dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, chamando a Tia Nastácia de “negra de estimação” ou termos assemelhados onde consta a palavra “negra’, o editorialista parece ignorar que se trata de diálogos de um livro infantil, repleto de provocações, em especial por parte da desbocada boneca  Emília. Levar isso ao pé da letra, com se fosse manifestação de racismo por parte do autor do livro revela uma profunda e total ignorância sobre a obra de Lobato.

Quem leu todos os seus livros na infância, como eu, sabe muito bem que não tem neles nada de racismo. Pelo contrário, a personagem Nastácia é apresentada como uma pessoa sábia, de enorme simpatia. E as menções ao fato de uma personagem tão positiva ser de cor negra são, ao contrário, uma demonstração de que Lobato se opunha cabalmente a qualquer preconceito vigente em sua época em certas mentes saudosas do tempo da escravatura.

Tivesse Lobato algo contra os negros teria escrito, em 1935, o seu livro O Presidente Negro, este para o público adulto, como que adivinhando ou mesmo desejando que os Estados Unidos um dia tivessem um Obama como presidente?

Fosse Lobato racista teria ele a enorme admiração pelos judeus, expressa em  vários textos seus, antes da Grande Guerra e do Holocausto, quando o anti-semitismo ainda era aceito em certos círculos de direita? (Veja meu artigo sobre Lobato e os judeus).

Cleo Monteiro Lobato, sua bisneta, me garante, por tudo que ouviu e vivenciou em sua família, através de sua mãe, Joyce Monteiro Lobato, que Lobato nunca teve o mais leve traço de racismo, nem contra os negros, nem contra qualquer outra raça ou origem.

Ao contrário, era extremamente anti-racista, de mente aberta. Meu pai também, Antonio Branco Lefèvre, que foi médico e amigo de Lobato, bem como todos os amigos comuns que ele teve com o autor, nunca levantaram a menor suspeita de racismo. E é sempre bom lembrar que Lobato foi muito próximo da intelectualidade  da época, que era em sua maioria de esquerda. E que ele editou toda sua obra pela Brasiliense, cujo dono, Caio Prado Junior, nunca escondeu sua ligação com o PCB, o famoso “partidão”. E se há  uma coisa da qual não se pode acusar os comunistas de então é de terem sido coniventes com o racismo… (Veja meu artigo Manda chamar o Brecheret)

Sim, é verdade que, de  uns tempos para cá, a moda do “politicamente correto” transformou qualquer menção à cor da pele em pecado mortal, prova de racismo. A tal ponto que houve uma tentativa (felizmente mal sucedida) de excluir o livro “As Caçadas de Pedrinho” da lista dos distribuídos às escolas por uma alusão considerada  racista à mesma Tia Nastácia…

Consciente de que esse radicalismo “bom mocista”  da atualidade estava criando constrangimentos à leitura de Lobato para alguns pais das crianças de hoje, sua bisneta Cleo, que desde 2018 trabalha para divulgar a obra e a memória do bisavô, tomou a iniciativa de lançar uma nova edição do clássico Narizinho através da Underline Publishing, junto com Nereide Santa Rosa. Nesta nova edição Nereide e Cleo decidiram conjuntamente fazer mínimas alterações, substituindo o qualificativo “negro” em algumas frases e mantendo o máximo do texto original.

Como explicita Cleo Monteiro Lobato, “basicamente cada vez que Lobato escreve “a negra”, colocamos o nome da personagem: Tia Nastácia.  A frase “negra de estimação”, na época usada para significar que a pessoa era muito amada ou estimada, foi substituída por “amiga de infância” pois esse sempre foi meu entendimento da relação de Dona Benta e Tia Nastacia”.

Pois não é que sua iniciativa, que tem como objetivo tornar os textos de Lobato isentos de qualquer conotação negativa, para voltarem a ser lidos e amados pelas crianças de hoje, despertou uma verdadeira revolta entre certos “puristas”, que passaram a criticar a Cleo e advogar para “manter a integridade dos textos, conceitos, ideias e sonhos de Lobato que estão sendo deturpados, censurados e malversados em nome de uma pretensa atualização de seus livros”? (objetivo declarado dos “conservadores” reunidos no grupo do Facebook Filhos de Lobato).

“Discordamos que seja uma reformulação da obra, pois tentamos ao máximo deixar Lobato intacto, no conteudo e no estilo”, escreveu Cleo. E eu, Pedrinho,  acrescento que o espírito lobatiano sempre foi o de estar o mais atualizado possível, a cada momento da sua vida. Tanto que nas várias edições de seus livros ele ia sempre modificando textos e ilustrações, em função da percepção de seus leitores e críticos. Com base neste critério “purista” de não alterar uma vírgula do que escreveu Lobato, para adequá-lo ao tempo presente, ele mesmo poderia ser acusado de “deturpação” das edições originais de seus próprios livros por alguns desses “críticos” atuais.

Os livros infantis de Lobato foram publicados também em quadrinhos e traduzidos para grande número de línguas estrangeiras, nas quais quem garante que foi “mantida a integridade dos seus textos”?. Sem falar nas adaptações para a TV, na primeira das quais eu interpretei o Pedrinho.  Se Lobato estivesse vivo não tenho dúvida de que ele faria, sim, muitas atualizações e adaptações em seus textos como fez nos livros infantis de autores estrangeiros que traduziu para o português.  Talvez muito mais até do que as poucas atualizações que foram feitas no brilhante trabalho da sua bisneta Cleo, para eliminar termos com uma conotação que hoje é vista por alguns como racista, embora nunca o tenha sido.

Lobato era um homem brilhante e aberto, sempre à frente do seu tempo. Por isso foi tão apoiado e festejado pela intelectualidade progressista brasileira que o defendeu com força contra a direita cristã e reacionária, que rejeitava seus conteúdos e punha seus livros no “index”, por considerá-los ateus e materialistas.  Eu vivi esse “preconceito cristão” contra Lobato na própria pele, desprezada que foi minha atuação como Pedrinho na TV tanto no colégio protestante onde estudei, o Mackenzie, quanto no acampamento católico onde passava as férias, o Paiol Grande.

Honrar a obra infantil de Lobato é olhar para a frente, para o progresso, para a liberdade de pensar, como ele fazia, sem medo da censura, tendo como alvo a compreensão e o amor das crianças de hoje. E não fazer de seus livros apenas objeto de estudos acadêmicos, recheados de notas de rodapé, “contextualizando” a linguagem da época. Transformando-os  assim em peças de um museu e fazendo do próprio Lobato uma múmia.  Como aliás sugere o editorial da Folha, quando escreve que “as crianças escolham outra coisa para ler” e completando com este “finale” trágico. “Ora, se uma obra reflete uma sensibilidade ultrapassada, é natural que seja logo esquecida.”

Curiosamente, entre os “puristas” que são contra qualquer alteração nos textos infantis de Lobato destacam-se dois membros do clã bolsonarista: Sergio Camargo, o Presidente negro da Fundação Palmares que afirma nunca ter havido preconceito contra os negros no Brasil e chegou a elogiar a escravidão… e Mário Frias, secretário da Cultura que substituiu o nazista Roberto Alvim e que por enquanto só fez deixar a Cinamateca às traças e tentar acabar  com a Lei Rouanet. Aposto que nenhum dos dois jamais leu Lobato na infância e ambos desconhecem totalmente que a direita cristã sempre foi contra o “ateu Lobato”. Pela lógica direitista eles deviam advogar, como a Folha, para que a obra integral de Lobato, “coisa de comunista”, seja logo enterrada.

Monteiro Lobato sobreviverá, sim, a todos os ratos e abutres que rondam a sua grandiosa obra, Pedrinho garante e a boneca Emilia deixa claro que irá puxar os cabelos e quiçá o rabo de todos eles se continuarem a falar bobagens e tentar atrapalhar o acessso de mais gerações de crianças ao Sítio do Picapau Amarelo.

 

LIVRO DE MONTEIRO LOBATO GANHA VERSÃO SEM EXPRESSÕES CONSIDERADAS RACISTAS

AUTOR: JULIO BOLL

DATA ORIGINAL: 07 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: GZH

CRÉDITOS: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2020/12/livro-de-monteiro-lobato-ganha-versao-sem-expressoes-consideradas-racistas-ckiezckri007u017waq6bi72d.html?fbclid=IwAR2iaCh7p4fSlqEZ0k-Qen9_u0ixsDzMWDTJLYGXDY0jwvCv-kHMJ96pv9A

Logo na primeira página de A Menina do Narizinho Arrebitado, em sua edição de 1920, Monteiro Lobato  (1882-1948) descreve Tia Nastácia como uma "negra de estimação". Um século depois, essa adjetivação ficou para trás. Na semana passada, o livro ganhou uma nova versão como Narizinho Arrebitado: Reinações de Narizinho – Livro 1 (Underline Publishing, 35 páginas, R$ 34,99), organizada por Cleo Monteiro Lobato, bisneta do escritor, que modificou termos considerados racistas por estudiosos. Agora, a personagem é descrita apenas como "a amiga de infância de Dona Benta".

— O amor e o respeito, valores tão presentes neste e em outros livros do meu bisavô, somem com aquelas descrições antigas. Arrepia. Pessoas disseram que não tem nem condições de ler para os netos. Foi aí que começamos a mexer na obra para que a gente possa fazer as contações das histórias — explica Cleo, em entrevista a GZH.

Além de outras adaptações, o livro ganhou ilustrações de Rafael Sam que, em trabalho conjunto com Cleo, trouxe novas cores e novos desenhos para os personagens. A boneca de pano Emília, por exemplo, ganhou trancinhas mais coloridas (chegando a ter tons de roxo), e Tia Nastácia agora tem um turbante — tudo com a intenção de promover uma maior diversidade nas figuras eternizadas por gerações.

Lançamentos

Esse processo de readaptação da narrativa ganhou força a partir de 2015, após a morte do pai de Cleo, o judeu polonês Jerzy Kornbluh, que era casado com Joyce Campos, neta de Lobato. Historiadora e morando nos Estados Unidos há mais de 20 anos, Cleo viu os textos do bisavô ganharem domínio público e, com isso, veio a preocupação de registrar esse legado. Primeiro, ela produziu um site temático em que narra toda a construção das obras, descreve personagens e traz outras curiosidades. Além disso, críticas e pedidos de pais nas redes sociais, que ficavam incomodados em ler Lobato nas cabeceiras das camas dos filhos, tomaram força.

— Através de relatos de familiares, posso afirmar e reafirmar que ele não era racista. Ele sempre respeitou todos, independentemente de sua cor. O "problema" é que ele sempre foi muito questionador e nos ensinava a pensar, o que nem sempre foi bem visto — reitera Cleo.

Sobre o atual contexto social, a bisneta acredita que o escritor empregava seus valores a favor da sociedade. É isso que a motiva a promover as mudanças nas obras do antepassado.

— Acredito que o meu bisavô ia continuar contra as queimadas, o aquecimento global e falando contra todo governo autoritário e populista. Ele estaria nessa linha de frente, porque tudo isso sempre esteve ali em seus textos — finaliza Cleo.

Além do relançamento brasileiro, Narizinho Arrebitado ganha uma versão em inglês. No ano que vem, segundo Cleo, será a vez de O Sítio do Picapau Amarelo e O Casamento de Narizinho serem repaginados, nos dois idiomas e também com desenhos de Rafael Sam.

 

BISNETA AFIRMA: “MONTEIRO LOBATO NÃO ERA RACISTA”

AUTOR: RAFAEL BRAZ

DATA ORIGINAL: 04 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: A GAZETA

CRÉDITOS: https://www.agazeta.com.br/colunas/rafael-braz/bisneta-afirma-monteiro-lobato-nao-era-racista-1220

Cleo Monteiro Lobato carrega o bisavô, motivo de muito orgulho, no sobrenome. Por isso, agora resolveu homenagear os 100 anos do lançamento do primeiro livro infantil dele, “A Menina do Narizinho Arrebitado”. Considerada uma das obras mais importantes da literatura brasileira, o livro foi lançado em dezembro de 1920.

Para comemorar a data, um evento on-line será realizado entre esta sexta-feira (4) e domingo (6). A programação tem conteúdos exclusivos, mesas de debate sobre a obra de Monteiro Lobato, podcasts, conteúdos de arte… Conteúdo para todos os gostos. As inscrições gratuitas podem ser realizadas em lobato.com.vc ou no site narizinho100anos.com .

De sua casa nos EUA, onde mora desde 1997, Cleo se sentou comigo para um papo sobre o evento, o legado do bisavô e como tão faladas questões raciais que têm sido foco de análise na obra de Monteiro Lobato nos últimos anos.

“Ele não era uma pessoa racista”, afirma Cleo, para completar em seguida: “mas vivia numa sociedade racista. Era uma pessoa boa, amorosa, que tratava todos bem ”. Com o relançamento do material lançado pelo bisavô no início do século passado, ela revela estar revendo expressões e termos utilizados na época, mas que hoje não têm espaço na sociedade. A mãe de Cleo, vale ressaltar, conviveu próxima ao avô até os 18 anos.

“Se você olhar aqui (mostra uma página do livro original), personagens como Narizinho, Emília e Dona Benta mudaram muito ao longo do tempo, a Tia Anastácia não. Por que isso? É um ponto do racismo estrutural da sociedade ”, pondera. “Quero construir a obra do Monteiro Lobato para lidar com essa questão do racismo estrutural no Brasil. Aqui nos EUA essa discussão já está muito mais avançada e organizada ”, conta.

Cleo conta que, via Instagram, mostra que existe uma demanda para a obra de Monteiro Lobato nos EUA. Muitos imigrantes brasileiros, hoje na casa dos 40 anos, querem introduzir a literatura “lobatiana” em seus filhos até como maneira de alfabetização em português, um idioma do qual as crianças acabam se esquecendo um pouco.

“A obra do Lobato atravessa os anos. É por isso que foi importante para as gerações e funciona até hoje como porta de entrada na literatura, como foi pra mim e pra você ”, defende Cleo.

Junto com o ilustrador e quadrinista Rafael Sam, Cleo reinventou o visual dos personagens, que ganharam cores vivas e um ar bem moderno. “Eu sempre senti falta das ilustrações. Era uma criança lendo e imaginando, mas queria mais revelação. Agora a gente tem ”, diz Cleo enquanto mostra a página para a câmera. O estilo mistura a magia cultura brasileira com o estilo mais Disney.

Página do livro

Página do livro "A Menina do Narizinho Arrebitado". Crédito: Rafael Sam / Monteiro Lobato Projetos Culturais

“A Menina do Narizinho Arrebitado”, obra em que Emília começa a falar, será apenas o primeiro lançamento realizado por Cleo e Nereide Santa Rosa, da Editora Underline. Juntas, elas planejam para 2021 mais três livros: “O Sítio do Picapau Amarelo”, “O Marquês de Rabicó” e “O Casamento de Narizinho”.

Toda a programação do evento “Narizinho 100 anos” por ser conferida no site narizinho100anos.com . O evento terá palestras e debates com nomes como Pedro Bandeira, Sonia Travassos e Renata Codagan. Além disso, no campo “Exposição”, há várias diferentes sobre os personagens, com áudios de seus autores explicando cada obra.

 

CENTENÁRIA, NARIZINHO É REPAGINADA POR BISNETA DE MONTEIRO LOBATO

AUTOR: Guilherme Simmer

DATA ORIGINAL: 06 DE DEZMEBRO DE 2020

FONTE: METRÓPOLES

CRÉDITO: https://www.metropoles.com/entretenimento/literatura/centenaria-narizinho-e-repaginada-por-bisneta-de-monteiro-lobato?fbclid=IwAR1SLnuv6qN2WAvZgsb33bNa8BIdnVpIAa0EYHVRPFJDd3UsMHJ4NAPOn_I

Pedrinho, Emília, Dona Benta, Visconde de Sabugosa e Narizinho são personagens que fizeram parte da infância de muitos brasileiros, seja pelos livros ou mesmo pelas adaptações para televisão de O Sítio do Picapau Amarelo. Marco da literatura infantil no país, as histórias de Monteiro Lobato tiveram seu pontapé inicial com A Menina do Narizinho Arrebitado, que completou 100 anos de sua publicação nessa sexta-feira (4/12).

Uma das mais famosas personagens brasileiras, Narizinho vai ganhar uma repaginação de suas histórias e ilustrações em comemoração de seu primeiro centenário. Através de parceria de Cleo Monteiro Lobato e a editora Nereide Santa Rosa, o livro A Menina do Narizinho Arrebitado, marco da literatura infantil do Brasil, vai ser relançado em português e em inglês.

Em entrevista ao Metrópoles, Cleo, que é bisneta de Monteiro Lobato, contou que a atualização do livro surgiu da ideia de tentar popularizar as história de Narizinho nos Estados Unidos e fazer com que as mensagens do Sítio voltassem a preferência das crianças brasileiras – que perdeu força nos últimos anos com a ascensão das produções norte-americanas no país.

“O Brasil tem uma fascinação pelo o que é americano, então aceitam e gostam com mais facilidade. Já aqui nos EUA, o povo não olha para o que está fora. Então se não tiver uma visual americano, meio ‘disneyano’, eles não aceitam. Eu acho que o texto com as ilustrações novas fazem essa ponte do brasileiro o transformando em universal”, contou Cleo.

Antes de dar início ao processo de atualização e tradução do texto, a curadora lançou um desafio em seu perfil no Instagram para incentivar ilustradores brasileiros a reimaginar os personagens do Sítio do Picapau Amarelo. O concurso foi vencido pelo recifense Rafael Sam, com uma releitura da foto dos Beatles, mas ao invés dos membros bandas, estão Visconde, Cuca, Emília e Saci.

Narizinho, Emilía e os demais personagens do sítio ganharam novas versões 

Cleo Monteiro Lobato é bisneta do autor Divulgação

De acordo com Cleo, a ideia foi manter de forma mais fiel possível a obra original de Monteiro Lobato, mas foi preciso fazer algumas alterações na linguagem utilizada na época, que tinha termos e frases de cunho racista, em referência a Tia Nastácia, por exemplo.

“Foi um processo interessante. Não dá para gente ficar isolado, sabe? A evolução social acontece e estamos vivendo ela. Na hora que eu fui publicar em português nós encontramos algumas coisas, que optamos por deixar para gerar debate, porque se não íamos desvirtuar a obra e Lobato sempre foi polêmico, até para criança”, explicou.

“O livro vai ser usado para quem quiser, os pais, professores para discutir. Mas o que não dá mais era a caracterização da Tia Nastácia. Na época alguns termos, como ‘Sinhá’, eram usados e elas não devem ser usadas hoje, nossa evolução social já passou desse ponto”, completou.

Popularização nos EUA

Além da versão em português, Cleo vai lançar, também, através da editora Underline Publishing, situada na Flórida, uma versão em inglês. O objetivo é atingir tanto a população de imigrantes brasileiros, quanto apresentar as histórias de Monteiro Lobato aos americanos.

“No processo de descobrir o público alvo nos EUA, descobri que era principalmente uma galera brasileira, imigrante, que tem por volta dos 40 anos e que tinha visto as histórias na televisão, mas não tinha lido. E que estavam querendo passar essa brasilidade, essa conexão com o Brasil aos filhos, além de ensinar português. Eu estava querendo traduzir, mas o público queria em português (risos)”, pontuou.

Além das mudanças sociais da versão em português, a atualização em inglês contou com algumas alterações para ambientar o público norte-americano, mas ao mesmo tempo apresentar a cultura e o folclore brasileiro. Para isto, ela contou com ajuda da historiadora Rose Lee Hayden.

 

“Eu queria muito manter Monteiro Lobato, manter essa brasilidade o máximo possível. Ela (Rose) me ajudou bastante a entender a cabeça do americano e, assim, mudamos algumas coisas como algumas expressões e onomatopeias”, explicou Cleo, que ainda ressaltou a opção por não traduzir os nomes das personagens para o inglês, mantendo da mesma forma que é no Brasil. “É o nariz mais bonito do mundo”, brincou.

DIVULGAÇÃO

 

Junto ao lançamentos dos livros – a versão brasileira já está sendo vendida e a em inglês estará disponível para compra a partir da semana que vem na Amazon – acontece até o próximo domingo (6/12), um evento on-line com debates, podcasts e leituras das obras de Lobato em comemoração aos 100 anos do lançamento de A Menina do Narizinho Arrebitado.

Cleo adiantou, que atualizações de outras obras estão em andamento: “Em 2021, lançaremos mais três livros: O Sítio do Picapau Amarelo, O Marquês de Rabicó e O Casamento de Narizinho. Comecei a traduzir a segunda história também para o inglês”.

 

Por fim, a bisneta de Lobato falou sobre a expectativa de manter a obra do bisavô viva. “Eu espero que Monteiro Lobato continue sendo lendo pelos próximos 80, 100 anos. Acho que essas pequenas adaptações vão facilitar muito para as histórias continuarem vivas”, disse.

“As edições originais vão continuar sendo vendidas, mas agora os professores e pais vão poder escolher. Além disso, algumas obras de Lobato estão sendo traduzidas para o alemão e o espanhol, então acho que está tendo um renascimento das histórias e gostaria que ele continuasse sendo lido por, pelo menos, os próximos 100 anos”, encerrou.

 

CEM ANOS DO LIVRO DE NARIZINHO, DE MONTEIRO LOBATO, É COMEMORADO COM EVENTO

AUTOR: Adriana Izel

DATA ORIGINAL: 04/12/2020

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

CRÉDITOS: https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2020/12/4892950-cem-anos-do-livro-de-narizinho-de-monteiro-lobato-e-comemorado-com-evento.html?fbclid=IwAR1oQTg3c8LLuL0J7rAAifsZxV8cCbMmWPld9hDJftakHsvWzkD3X75OtqU

Em dezembro de 2020, celebra-se o centenário do livro A menina do narizinho arrebitado, a primeira obra infantil de Monteiro Lobato. A publicação nasceu como um conto até que se transformou num livro completo, sendo o pontapé para Reinações de Narizinho, de 1931, que deu origem ao Sítio do Picapau Amarelo. Para comemorar a marca, a bisneta de Monteiro Lobato, Cleo Monteiro Lobato, promove um evento on-line e gratuito, intitulado 100 anos de Narizinho, que começa nesta sexta-feira (4/12) e segue até domingo (6) com programação sempre das 11h às 22h.

 

"Começou com uma simples ideia. O Instagram me conectou com muitas pessoas ligadas à obra de Monteiro Lobato", explica Cleo em entrevista ao Correio. Na web, ela conheceu os trabalhos de Carol Pimentel e Mônica Martins sobre os centenários de Emília e Narizinho, além de especialistas no cânone do bisavô, como designer Magno Silveira, a pesquisadora Sônia Travassos e a ilustradora Mari Salmonson.

Conectada com essas pessoas, veio a iniciativa de juntar todo mundo num evento virtual, em virtude de pandemia de covid-19 e também pelo fato de Cleo morar desde 1997 nos Estados Unidos. A iniciativa tem curadoria de Cleo Monteiro Lobato ao lado de Mari Salmonson, artista plástica e ilustradora; Mônica Martins, escritora e curadora; e Sônia Travassos, especialista em literatura infantil e em Monteiro Lobato.

Programação

A programação é composta por contação de histórias e mesas redondas que envolvem a temática da obra de Monteiro Lobato, desde os personagens, as traduções, a relação com a educação e até as mudanças que a narrativa teve ao longo dos anos. Na lista de convidados, tradutores, ilustradores e pesquisadores do material do autor, além de grandes nomes da cultura lobatiana, como Pedro Bandeira, Luciana Sandroni e José Roberto Whitaker Penteado.

 

Cleo Monteiro Lobato

A própria Cleo participará de alguns bate-papos. Na sexta, às 14h, ela estará ao lado de Carol Pimentel e Mari Salmonson para falar da coletânea em HQ de contos ilustrados por mulheres em comemoração aos 100 anos de Emília. Depois, às 16h30, ela relata a experiência na tradução da obra do bisavô na mesa "Traduzindo Reinações de Narizinho", com participação de Vanete Santana-Dezmann e Letícia Goellner.

No sábado, às 14h, ela conduz um bate-papo sobre a evolução dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo ao lado de Magno Silveira e Mari Salmonson. Às 19h, ela estará com Monica Martins, Mari Salmonson e ilustrações para falar sobre a recriação das cenas do livro original na mesa intitulada "100 anos de Reinações".

Já no domingo, às 14h, Cleo Monteiro Lobato faz o lançamento de Narizinho arrebitado: Reinações de Narizinho — Livro 1, que ganha edição em inglês e em português. A primeira traduzida por Cleo e a segunda adaptada por ela, com glossário para palavras em desuso e mudanças em relação ao tratamento da personagem Tia Nastácia, muitas vezes chamada na versão original apenas de "a negra". A obra é um lançamento da Underline Publishing. Participam da mesa Nereide Santa Rosa, que a ajudou na tradução, e Rafael Sam, ilustrador. No encerramento do evento, Cleo estará de volta com Magno em "Narizinho e Emília e seus ilustradores originais".

A publicação marca uma série de lançamentos comemorativos de Reinações de Narizinho, que ocorrerão entre 2021 e 2022, com Sítio do Picapau Amarelo sendo lançado na semana Monteiro Lobato em abril e Marquês de Rabicó e o casamento da Narizinho no Dia das Crianças em outubro. As demais obras ficarão para 2022. "Decidi fazer um livro pequeno, fácil da criança segurar e ler. Mas o livro (original) é enorme. Fizemos a primeira história e depois vamos lançar as outras", revela Cleo Monteiro Lobato.

Programação completa 100 anos de Narizinho

4 de dezembro
11h às 12h – Contação de história: A Costureira das Fadas e O Vestido Maravilhoso. Com Cristina Villaça e Eliza Morenno
14h às 16h – Mesa redonda: Emília 100, uma coletânea de contos ilustrados por mulheres reais. Com Carol Pimentel, Cleo Monteiro Lobato e Mari Salmonson
16h30 às 18h – Mesa redonda: Traduzindo Reinações de Narizinho. Com Vanete Santana-Dezmann, Letícia Goellner e Cleo Monteiro Lobato
19h às 21h – Mesa redonda: A importância sócio econômica, política e cultural de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’. Com Marisa Lajolo, Cilza Bignotto, Alex Gomes e Sônia Travassos

5 de dezembro
11h às 12h – Contação de história: No Palácio e Tom Mix. Com Augusto Pessoa. As Formigas Ruivas e outras histórias de Reinações de Narizinho. Com Daniela Fossaluza
14h às 16h – Mesa redonda: Dona Benta, Tia Nastácia e seus ilustradores. Com Magno Silveira, Cleo Monteiro Lobato e Mari Salmonson
16h30 às 18h – Mesa redonda: Reinações de Narizinho na Escola: como desenvolver projetos literários com este clássico?. Com Vanessa Camasmie, Renata Codagan, Ilan Brenman e Sônia Travassos
19h às 21h – Mesa redonda: 100 Anos de Reinações. Com Monica Martins, Cleo Monteiro Lobato, Mari Salmonson e ilustradores

6 de dezembro
11h às 12h – Contação de história: A Pílula Falante. Com Silvia Queiroz e Wagner Cavalleiro
14h às 16h – Mesa redonda: Lançamento de A Menina do Nariz Arrebitado por Cleo Monteiro Lobato. Com Cleo Monteiro Lobato, Nereide Santa Rosa e Rafael Sam
16h30 às 18h – Mesa redonda: Fantasia e Realidade Sem Fronteiras e um Novo Olhar Para a Infância. Com Pedro Bandeira, Eliana Yunes, Luciana Sandroni, Antonella Catinari, Sônia Travassos
19h às 21h – Mesa redonda: Narizinho e Emília e Seus Ilustradores Originais. Com Magno da Silveira, Cleo Monteiro Lobato

SERVIÇO
100 anos de Narizinho
De 4 a 6 de dezembro, das 11h às 21h. On-line e gratuito. Informações e inscrições em https://narizinho100anos.com/.

 

BISNETA DE MONTEIRO LOBATO QUER APAGAR O RACISMO DE SUA OBRA COM NOVAS EDIÇÕES

AUTOR: LEONARDO SANCHEZ

DATA ORIGINAL: 01 DE DEZEMBRO DE 2020

CRÉDITOS: FOLHA DE SÃO PAULO, SÃO PAULO

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/12/bisneta-de-monteiro-lobato-quer-apagar-o-racismo-de-sua-obra-com-novas-edicoes

Um dos cânones da literatura infantil brasileira completa, neste mês de dezembro, cem anos. Escrito por Monteiro Lobato, “A Menina do Narizinho Arrebitado” introduziu o universo do “Sítio do Picapau Amarelo” e agora suscita não só comemorações, mas também debates fervorosos em torno do autor, considerado racista por alguns leitores e estudiosos , e uma reedição de sua obra, adaptada por sua própria bisneta, Cleo Monteiro Lobato.

Adaptada porque esta não se trata de uma reimpressão do texto original, com adendos e novo prefácio, como já ocorreu em outras reedições, mas de uma reformulação da obra, com exclusões e mudanças de trechos e personagens sendo representados de maneiras diferentes, menos problemáticas.

Tudo para entrar em sintonia com as críticas de que o escritor paulista teria maculado a inocência das aventuras da boneca Emília ao incutir concepções preconceituosas e estereotipadas em seus livros.

Tia Nastácia, uma mulher negra que trabalha no sítio, “trepa que nem uma macaca de carvão” em específica passagem do original, por exemplo. Mas não mais nesta reedição, que vem na esteira de uma série de celebrações do centenário e é atrelada à publicação de uma tradução da obra para o inglês .

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

“Eu acho que há passagens problemáticas para quem lê os livros hoje em dia. A gente queria uma versão atualizada, cujo teor fosse compatível com os valores sociais contemporâneos, mas que mantivesse o estilo do Lobato ”, diz Cleo, a bisneta do autor. “Eu queria que essa versão provocasse essa discussão que provocou, que não é sobre o Lobato, mas sobre o racismo estrutural no Brasil. Essa é a intenção. ”

Cleo refuta o termo censura ao falar das mudanças feitas à obra e lembra que o bisavô foi responsável por traduzir diversos clássicos infantis para o português, como “Alice no País das Maravilhas”, mas não sem os adaptar, de forma incisiva, para o público brasileiro.

“A obra hoje está em domínio público. Nós não a desvirtuamos, porque a original continua lá, existindo e disponível ”, diz ela. “Se eu tenho a possibilidade de me posicionar de maneira positiva [por meio dos livros], eu escolho a mudança.”

A ideia de tomar essa liberdade criativa veio depois que Cleo notou diversos conhecidos ou fãs de Monteiro Lobato que teve dificuldade em ler a obra para crianças, já que, vez ou outra, era preciso interromper a narrativa para explicar termos e representações ofensivas —principalmente aquelas direcionadas a Tia Nastácia.

Mas, mesmo assumindo que alguns aspectos na obra não estão em concordância com os tempos atuais, Cleo é assertiva ao dizer que o bisavô não era racista e que os trechos problemáticos de sua obra também não são. É um posicionamento polêmico e complicado, ela assume, afirmando que é preciso ter um entendimento total da vida e da obra de Monteiro Lobato para opinar sobre o assunto.

“O que eu noto é que quem leu tudo, luta fervorosamente contra as acusações de racismo. Quem pega uma carta, um livro e analisa por um prisma estreito, enxerga o Lobato oposto ”, diz Cleo, sobre documentos escritos pelo autor em que ele faz menção positiva à Ku Klux Klan e às ideias eugenistas de seu tempo.

Monteiro Lobato ao lado da família, em foto de dados desconhecida

Monteiro Lobato ao lado da família, em foto de dados desconhecida – Arquivo Pessoal

Monteiro Lobato não é o primeiro —e nem será o último— artista com obras submetidas a intervenções cirúrgicas. Se no caso do pai de Emília o procedimento parece invasivo demais, em outros ele é mais comedido.

Sem audiovisual, avisos de que as ideias e representações observadas em alguns filmes são datadas , discriminatórias e que refletem o pensamento predominante de uma outra época se transformados, diante do ressurgimento de obras antigas em plataformas de streaming.

É esse tipo de mea-culpa que acompanhado, por exemplo, diversas animações disponíveis na plataforma Disney +, como “Peter Pan” e “A Dama e o Vagabundo”, e o clássico “ … E o Vento Levou”, agora no catálogo do HBO Max , hoje indisponível no Brasil.

“Eu entendo a decisão tomada pela família, mas a minha posição seria de que vale a pena fazer, no máximo, alterações ortográficas, em relação à língua, e manter a obra em si tal qual ela está”, diz Mário Augusto Medeiros da Silva , professor de ciências sociais da Unicamp e que se debruça sobre a área da literatura.

“Que o leitor seja beneficiado com uma nota prévia, um prefácio, um texto analítico para que faça suas próprias ponderações, embora eu entenda que a adaptação é uma saída que ela [Cleo Monteiro Lobato] encontrou para se adequar aos novos tempos.”

Segundo o escritor acadêmico, é importante compreender Monteiro Lobato inserido no contexto em que viveu, também enquanto cidadão e não só como. Segundo ele, limpar esse aspecto de sua vida e obra é uma opção da família, mas que ofusca a trajetória e como contradições do autor.

“Isso não apaga o editor, o homem preso pelo Estado Novo, o nacionalista que lutou pela Campanha do Petróleo, o criador de uma literatura infantil no Brasil. Mas também faz parte dele ser pensado como um autor que não foi tão além de seu tempo, um tempo racista. Nenhum artista deve ser tratado de maneira sagrada, todos estão envolvidos com as questões de seu tempo, e é saudável que os leitores saibam disso. ”

“Eu não defendo censurar e também não concordo com o apagamento de sua obra —e mesmo essa limpeza dessa nova versão pode ser lida como apagamento, o que precisa ser debatido. Mas uma atitude antirracista talvez mais seria inserir um estudo crítico a respeito da obra e, então, deixar para o leitor tomar suas posições ”, conclui.

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

 

“A MENINA DO NARIZINHO ARREBITADO” COMPLETA 100 ANOS E RECEBE EVENTO ONLINE EM COMEMORAÇÃO.

Em 2020 acontece o centenário do primeiro livro infantil de Monteiro Lobato, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, uma obra que mudou completamente a literatura infantil brasileira. Para celebrar esse marco, acontecera em dezembro deste ano o “100 anos de Narizinho”, um evento online dinâmico e interdisciplinar.

Contando com a curadoria de Cleo Monteiro Lobato, idealizadora do projeto e bisneta de Monteiro Lobato, Mari Salmonson, artista plástica e ilustradora amante da cultura e das lendas brasileiras, Mônica Martins, escritora e especialista em Monteiro Lobato e Sônia Travassos, especialista em literatura infantil e contadora de histórias, o evento terá ainda a participação de outros grandes nomes da cultura lobatiana, como Pedro Bandeira, Luciana Sandroni, José Roberto Whitaker Penteado, entre outros.

Assim como o livro celebrado, o evento traz luz aos personagens da obra e àqueles que a amam. O “100 anos de Narizinho” se adequará ao momento em que estamos vivendo, trazendo conteúdos exclusivos com mesas de debate, podcasts, lives, ilustrações, cultura, muita interação e conhecimento.

O evento acontecera nos dias 4, 5 e 6 dezembro de 2020 e espera-se que todos os fãs de “A Menina do Narizinho Arrebitado” participem e possam se reunir no evento que vem para exaltar o livro e inspirar leitores e escritores de todas as idades.

Você pode obter informações e spoilers sobre 100 anos de Narizinho nas redes sociais oficiais do evento: @lobatocomvc. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas pelo site lobato.com.vc.

O caso Monteiro Lobato: por uma outra literatura infanto-juvenil brasileira

AUTOR: PALOMA FRANCA AMORIM

DATA ORIGINAL: 25 de jan de 2021 às 18:50

FONTE E CRÉDITOS: https://operamundi.uol.com.br/cronica/68260/o-caso-monteiro-lobato-por-uma-outra-literatura-infanto-juvenil-brasileira

Em algumas rodas de escritores corre a anedota, dizem, de que existe um purgatório para as obras que caem em desuso e esquecimento editorial no país, e que Monteiro Lobato está sempre na boca do guichê quando alguém o salva com mais um novo projeto a partir da coleção de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, então ele volta ao rabo da fila e fica mais algumas décadas marinando, não sem desconforto, o aguardo do próprio ostracismo.

Na última década, Monteiro Lobato viu autores e autoras negras, que estavam no purgatório, ressurgirem na vida literária brasileira, Maria Firmina dos Reis, o próprio Lima Barreto que ele mesmo editou nas primeiras décadas do século XX, Carolina Maria de Jesus, Dalcídio Jurandir, Lélia Gonzalez, dentre outros, e se assustou: como pode ser possível que esses, ainda poucos, negros sejam encorajadamente divulgados no contexto literário brasileiro? O que estará acontecendo no Brasil contemporâneo?

A campainha toca, Lobato é salvo novamente, dessa vez com uma reedição d'O Sítio na qual são suprimidas as falas racistas, Emília por exemplo nunca mais dirá que Tia Nastácia é negra por dentro mas branca fora, nunca mais dirá que é uma preta beiçuda ou até mesmo que lhe falta inteligência por causa da cor da pele.

Foi-se a violência racial contra Nastácia, mas por tabela, foi-se também Emília, afinal, o comportamento mais elogiado da boneca-gente é o que os críticos chamaram e chamam até hoje de atrevimento. Ora, esse atrevimento pode ser detectado através de suas ações preenchidas de ousadia e de suas palavras duras para com aqueles que preconizem alguma ordem de advertência ou de interdição aos seus desejos.

Nastácia, junto a Dona Benta, sua patroa, a quem a empregada alegremente chama de "Sinhá", sugerem a organização cotidiana e os pilares da educação e do bem-estar das crianças no Sítio, são a gota de realidade em contraste à presença de sacis, da cuca e das mitologias clássicas, universo onde Emília reina absoluta. O que chama a atenção é o fato de que no questionamento da realidade Nastácia é alvo da conduta racista de Emília e não de sua atitude transgressora como gesto de modificação, aliás, talvez para Emília, Nastácia e os demais pretos do Sítio sejam os únicos elementos que devam permanecer na mesma posição, uma vez que são os sustentáculos materiais das aventuras possíveis dos netos da Sinhá que vêm da capital para curtir as férias maravilhosas propiciadas somente pelo cenário fantástico da zona rural.

 

Lobato: uma discussão infindável, porém necessária

AUTOR: CLEO MONTEIRO LOBATO

DATA ORIGINAL: JANEIRO DE 2021

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-uma-discussao-infindavel-porem-necessaria.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

O editorial "O racismo de Lobato", publicado nesta Folha em 27 de dezembro último, afirma que a discussão sobre a presença de racismo na obra de Monteiro Lobato é infindável —e concordo. Quem quiser ver racismo nos seus livros pode sempre os encontrar.

Mas discordo absolutamente da conclusão de que a obra deva ser esquecida. Monteiro Lobato é o pai da literatura brasileira infantil, além de ser uma das mais importantes figuras históricas nacionais.

Seus livros infantis estão no imaginário e no emocional deste país há mais de 60 anos. Os benefícios de se ler Lobato, hoje em dia, continuam enormes. A leitura de Lobato gera crianças com imaginação fértil, que passam a ser amantes da leitura, atuantes, contestadoras e com pensamento crítico. Lobato abre as portas de possibilidades infinitas em nossas vidas.

Não desejo simplesmente “ajustar a obra para nenhum ideal político”, como diz o editorial, mas sim absolutamente influenciar positivamente o pensamento das próximas gerações de leitores pelos próximos cem anos, assim como meu bisavô fez com as gerações passadas.

Também concordo quando o editorial afirma que não se deve simplesmente apagar os trechos problemáticos de uma obra e sim usá-los para iniciar discussões de temas atuais. Por isso, junto com a minha editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, decidimos colocar um prefácio explicativo dirigido aos pais e educadores convidando-os a fazer exatamente isso —além de, ao final do livro, um glossário sobre as alterações feitas e as definições dos termos em desuso.

Os livros do meu bisavô, com sua revisão final de 1947, continuarão à venda pela Globo, editora autorizada pela família, desde 2007, a publicá-los. Em 2019, a obra do escritor caiu em domínio público e qualquer editora pode, desde então, publicá-la, alterando-a com notas explicativas, como já foi feito diversas vezes.

E agora, com a minha nova adaptação em português e a tradução para o inglês, os pais têm também a opção de lerem para seus filhos livros onde Tia Nastácia é tratada como todos os outros personagens, com respeito e dignidade. Essa mudança é claramente presente nas ilustrações de Rafael Sam, ilustrador recifense, a quem eu pedi para criar a Tia Nastácia do jeitinho que ele gostaria de mostrá-la para seus filhos.

CRÉDITOS E FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-uma-discussao-infindavel-porem-necessaria.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

MONTEIRO LOBATO DA MINHA INFÂNCIA Cresci sentindo imensa compaixão por Tia Nastácia

Autor: ITAMAR VIEIRA JUNIOR

Data Original: janeiro 2021

Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/monteiro-lobato-da-minha-infancia/

A polêmica obra de Monteiro Lobato voltou ao debate público porque sua bisneta acaba de lançar uma adaptação de Narizinho Arrebitado, uma das onze histórias que integram o livro Reinações de Narizinho. A iniciativa atualiza as ilustrações originais, dando à trama uma identidade visual mais próxima ao nosso tempo. Tia Nastácia, por exemplo, deixa seu habitual figurino para ser representada de turbante, bata e colar de búzios pelos traços de Rafael Sam. O principal motivo da adaptação de Cleo Monteiro Lobato é fazer com que seu bisavô seja descoberto pelos mais jovens. Para tanto, ela suprimiu da versão anterior trechos que hoje soam racistas. Assim, a frase “a boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira” virou apenas “Nastácia deu uma risada gostosa”.

O racismo nas obras de Lobato tem sido alvo de intensa discussão nos últimos anos e atingiu seu ápice com o parecer técnico de 2010, do Conselho Nacional de Educação, sobre outro livro do escritor, Caçadas de Pedrinho. O documento recomendava a sua utilização em sala de aula apenas “quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”, de modo a acolher os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, em especial os negros.

 

BISNETA DE MONTEIRO LOBATO EXCLUI PASSAGENS RACISTAS EM ADAPTAÇÃO DE CLÁSSICO

AUTOR: Anna Gabriela Costa

DATA ORIGINAL: 2 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: CNN BRASIL

CRÉDITOS: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/2020/12/02/bisneta-de-monteiro-lobato-exclui-passagens-racistas-em-adaptacao-de-classico

Como viveriam Emília, Tia Nastácia, Dona Benta e outras personagens icônicas do escritor Monteiro Lobato se vivessem na atualidade? Para a bisneta do autor, Cleo Monteiro Lobato, o universo criado no Sítio do Picapau Amarelo seria mais inclusivo e consciente. A escritora está prestes a lançar uma adaptação do clássico centenário “A Menina do Narizinho Arrebitado”, onde trata com mais delicadeza a forma como a personagem Tia Nastácia fora retratada na obra, excluindo falas consideradas racistas. O livro “Narizinho Arrebitado” será lançado nesta sexta-feira (4). 

Formada em História pela USP, Cleo Monteiro Lobato diz que passou a sentir a necessidade de apresentar as obras de seu bisavô para o público dos Estados Unidos, numa tentativa de desmistificar alguns conceitos criados pelos americanos em relação ao Brasil e aos brasileiros. Entretanto, deparou-se com algumas barreiras ao traduzir a obra para o Inglês, e decidiu criar uma versão adaptada também para o público no Brasil.

“Hoje em dia, se você é uma pessoa negra e vai ler o livro para seu filho, você se engasga.  Ao traduzir para o inglês me vi defrontada aos problemas culturais do Brasil, aí entendi o que é preconceito e racismo estrutural, foi fundamental para a minha compreensão, sendo branca, do que é o racismo”, esclarece Cleo. 

Em um comparativo entre Brasil e Estados Unidos, país que vive há mais de 20 anos, Cleo alega que, apesar das diferenças intrínsecas, o momento que Brasil e os Estados Unidos estão vivendo é muito parecido. “Para mim não dava mais. As pessoas não podem simplesmente dizer que não são racistas, elas têm que se posicionar como antirracistas”.

A escritora explica que a essência da obra não foi modificada, e acredita que 98% do material original foi mantido. Segundo a autora, as conotações que se referiam à personagem Tia Nastácia foram alteradas, trazendo uma forma mais humana de retratar a personagem, que é a cozinheira do sítio na obra original de seu bisavô.

“Alterei algumas frases. Em vez de chamar a negra, a negra tem nome: Tia Nastácia. Em vez de dar risada com beiço, troquei. Se fosse um tratamento equivalente com a Dona Benta, eu deixava”, afirmou. “Acho que a minha versão é a versão que eu tinha dentro do meu coração. Com minha cabeça de criança a Tia Nastácia era amada, respeitada e acolhedora; eu mantive exatamente o que eu li, que acho que é o que Lobato escreveu”, complementou. 

“Não vejo passagens racistas no livro do meu avô”

A bisneta garante que Monteiro Lobato não era racista e destaca a evolução na sociedade como o principal fator para tais questionamentos. Segundo ela, porém, as obras do escritor retratavam pontos que eram comuns àquela época, com uma linguagem carinhosamente chamada pela autora como o “caipirês” do interior de São Paulo. 

“A sociedade evoluiu, não vejo passagens racistas no livro do meu avô, acho incrível que tenha ocorrido essa evolução da sociedade. O termo sinhá, o bolinho de fubá eram do universo do interior paulista, o ‘caipirês’. O Monteiro Lobato que sei como bisavô, como avô, como pai, não era racista. Os valores que ele passou para filhos, netos e bisnetos não eram racistas”, disse. 

A autora destacou também que o próprio Monteiro Lobato realizava adaptações de suas obras a cada nova edição. 

“Tem a obra original para ler. Quem quiser ler a de 1920 pode ler! Ele modificava a obra dele, a cada nova edição ele modifica palavras, evoluía sem parar.  As pessoas que estão tão ofendidas, para mim, isso quer dizer que elas amam meu bisavô e amam os livros, que a obra do Monteiro Lobato está dentro do coração delas. Mas, a minha intenção é que Lobato seja lido pelas próximas gerações, daqui a 80 ou 100 anos, sem ser associado ao racismo estrutural no Brasil”. 

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Adaptação com responsabilidade

Para a escritora Sonia Travasso, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em literatura infantil e juvenil, existe um grupo que não admite que a obra seja modificada em nada e outros grupos que consideram que é interessante mudar uma ou outra palavra, especialmente aquelas que trazem uma ideia de racismo, o que, para a educadora, não significa que Lobato era racista, pois utilizava termos que eram naturalizados naquela época. 

“Uma das editoras optou por colocar, quando há termos considerados estranhos ou termos de antigamente, como nota de rodapé, a Emília e a Narizinho conversando e comentando aquele termo, foi uma saída bem inteligente da Companhia das Letrinhas”, afirmou a educadora. 

Sonia Travasso explica que, desde que a obra de Lobato caiu em domínio público, diversos escritores e editoras vêm fazendo alterações. “Muitos acham que vale a pena tirar estas palavras, para deixar o texto mais de acordo com debates e questionamentos muito presentes na sociedade de hoje. Essas questões esbarram muito na questão educacional, na mediação desta leitura que se faz na escola”, diz. 

A educadora defende, entretanto, a importância em manter a essência da obra e dos personagens. “Eu acredito que é importante a gente escrever o texto como o autor escreve, na mediação da leitura na escola, e colocar em debate essas questões que por vezes aparecem na obra de Monteiro Lobato. Mas, não vejo problema em trocar alguns termos. Só acho que tem que tomar cuidado para não adulterar a obra”.

Sonia usa como exemplo a boneca falante Emília. “A Emília, por exemplo, ela é atrevida, fala coisas erradas e agressivas às vezes, mas, se você tira tudo isso da Emília, ela deixa de ser a Emília, tem que tomar cuidado nas adaptações com o que tira, de forma que não adultere a obra. Acho importante que tenha um texto de apresentação, explicando que ali é um texto de adaptação, mostrar o que foi adaptado e porque foi adaptado desta forma, e que existe a forma original que as pessoas podem ter acesso também”, concluiu. 

 

Clássico da literatura nacional ganhou uma nova adaptação Clássico da literatura nacional ganhou uma nova adaptação Foto: Ilustração/ Rafael Sam 

Narizinho 100 anos 

O evento “100 anos Narizinho” irá reunir diversos apaixonados pelo escritor Monteiro Lobato, com apresentação e adaptações de suas obras e traduções para exportar o legado mundo afora. O encontro acontece a partir dessa sexta-feira (4), onde ocorrerá o lançamento do livro “Narizinho Arrebitado”, de Cleo Monteiro Lobato.

 

 

RELEMBRE AS OFICINAS DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS DO EVENTO “100 ANOS DE NARIZINHO”

Assim como as crianças do “Sítio do Picapau Amarelo”, não tem quem não resista a ouvir uma boa contação de história. No evento “100 Anos de Narizinho”, que já completou um mês, o que não faltou foi história boa para contar.

Por meio de oficinas sob a curadoria da doutora em Educação Sônia Travassos, profissionais e especialistas na arte de contar histórias narraram trechos de “Reinações de Narizinho” e “A Menina do Narizinho Arrebitado”, obra inaugural do clássico de Monteiro Lobato.

No dia 4/12, a partir das 11h, a escritora, professora e narradora Cristina Villaça contou as histórias de “A Costureira das Fadas” e “O Vestido Maravi”hoso" e Sônia Travassos narrou trechos de “A Menina do Narizinho Arrebitado”. Para ajudar ainda mais a mergulhar no universo do faz-de-conta, Sônia Travassos trouxe à transmissão sua “bibliomala” recheada de personagens do “Sítio” e elementos presentes na obra, como o peixinho.

Ao final, a dupla de contadoras conversou sobre o encontro repercutiu comentários, respondendo, ainda, perguntas e curiosidades sobre a oficina. Assista: https://www.youtube.com/watch?v=IDLpB8TtqQk&t=2716s

No dia 5, no mesmo horário, o ator, cenógrafo, dramaturgo, escritor e figunirista Augusto Pessoa controu os trechos de “Reinações de Narizinho”: “No Palácio” e “Tom Mix”. Cristina Villaça e Sônia Travassos voltaran ao evento para contar “A Costureira das Fadas” e “O Vestido Maravilhoso” e “A Menina do Narizinho Arrebitado”, respectivamente.

Enquanto Augusto e Sônia narraram o texto por meio da leitura, utilizando de suas performances dramáticas, Villaça contou os trechos lobatianos de cor e salteado, gesticulando detalhes e performando vozes. Travassos também voltou a recorrer a sua “bibliomala” para incrementar a oficina com personagens e encartes.

Ao final, o trio bateu um papo sobre as histórias e a obra de Lobato e repercutiram e responderam perguntas dos internautas. Assista: https://www.youtube.com/watch?v=mlsKOKmCKSQ

Para encerrar a programação de contação de histórias, no dia 6, às 11h, a arteeducadora, especialista em brinquedoteca e atriz Silvia Queiroz e o ator, mímico, palhaço e diretor Wagner Cavaleiro fizeram uma contação teatral de “A Pílula Falante”, trecho de “Reinações de Narizinho”. Eles narraram esta parte vestidos de Emília e Visconde.

Além da contação de história, a dupla realizou uma performance que misturou dança, música e interação entre eles e o público como personagens, esbanjando imaginação e talento.Os artistas também trouxeram à oficina objetos como bolas, lupa, pérolas, pózinho mágico e sino para interpretar trechos da história.

Ao final, a curadora Sônia Travassos interagiu com os dois com miniaturas e analisou a encenação, comentando sobre o desempenho dos profissionais. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=MqC4mx5v8qc

Se você chegou aqui competou a 10 e última etapa, parabéns!
Tire o print e envie para o instagram da @cleomonteirolobato e compartilha no seu também marcando a gente.

ETAPA ENCERRADA

 

NARIZINHO E EMÍLIA E SEUS ILUSTRADORES ORIGINAIS

Na última mesa-redonda do terceiro dia do evento “100 Anos de Narizinho”, no dia 6/12, Cleo Monteiro Lobato recebeu a curadora Mari Salmonson e o ilustrador Magno Silveira para falar sobre a revolução estética de Narizinho e Emília, personagens lobatianas, nas ilustrações de 1920 a 1947.

O artista convidado é responsável por uma das exposições do evento, que reúne em uma linha do tempo ilustrações de capas dos livros de Lobato. No bate-papo, ele trouxe uma compilação de capas em linha do tempo, observando características em cada uma delas e comentando suas diferentes particularidades nas representações.

Na reprodução de uma cena de Narizinho em um sonho de um baile, por exemplo, em ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’, para o ilustrador, Voltolino, que deu um aspecto mais adulto à menina, quis realmente representá-la como ela se via no sonho.

Ele destacou também o aspecto de ‘bruxa’ dado à Emília pelo artista e ressaltou ‘aspectos técnicos no visual gráfico de uma arte de Voltolino em 1922, com Pedrinho, Visconde e Narizinho.

As cores, concepções e o aspecto dos traços também foram observados por Magno em desenhos criados por nomes como Kurt Wiese, Nino, Rodolpho, Rafael De Lamo, Jean Villin, Belmonte, Augustus, André Le Blanc e J.U. Campos, avô de Cleo.

O convidado afirmou que para ele Jean Villin, o primeiro ilustrador de “Reinações de Narizinho”, é “o grande ilustrador” de Lobato, exemplificando com a riqueza de detalhes e elementos da narrativa nos desenhos feitos em 1931.

Ao final do encontro, Magno mostrou para Cleo ilustrações de J.U. Campos que não integraram edições de obras do Lobato, revelando curiosidades que ele descobriu através de Joyce, sua filha.Para terminar, Mari reuniu comentários feitos por espectadores, que foram repercutidos pelo trio.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=5xsPVsQS6io&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=4

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FANTASIA E REALIDADE SEM FRONTEIRAS E UM NOVO OLHAR PARA A INFÂNCIA

Na segunda mesa do último dia do evento “100 Anos de Narizinho”, no dia 6/12, Cleo Monteiro Lobato e a doutora em Educação Sônia Travassos, curadora do encontro, receberam os escritores e especialistas em Lobato Pedro Bandeira, Eliana Yunes, Luciana Sandroni e Antonella Catinari para um bate-papo sobre a fantasia e a realidade sem fronteiras na obra Lobatiana e uma discussão sobre o novo olhar Para a infância trazido pelo autor a partir de “A Menina do Narizinho Arrrebitado” por meio de diversos elementos que vão de recursos literários a ilustrações.

Inicialmente, Sônia apresentou os convidados e falou sobre a trajetória de cada um. Eliana Yunes foi a primeira do quarteto a falar sobre o tema, destacando que a obra de Lobato, apesar de lúdica, é apresentada de forma ‘séria’. Através de um roteiro preparado para a mesa, a profissional analisou a fantasia lobatiana e sua função de ‘denúncia da realidade’, percorrendo também olhares de outros campos de estudo para a obra.

Em seguida, Antonella Catinari observou que a fantasia de Lobato seguiu diversas direções: futuro, presente e passado. Para ela, ao ‘abrir a porteira do Sítio do Picapau Amarelo’, fantasia e realidade transitam da forma mais natural do mundo, maneira esta que o autor escolheu para dialogar e atrair o gosto das crianças pela literatura. “Ele é o que criou realmente uma literatura brasileira, baseada na fantasia e na invenção de personagens, o que é um caráter de inovação”, afirmou a especialista, que chamou o escritor de pai da literatura infanto-juvenil brasileira.

A também professora ressaltou, ainda, a importância de trabalhart com a obra lobatiana na escola, principalmente para motivar a literatura por meio da fantasia dentro da fantasia.

Logo depois, Luciana Sandroni, que integrou o time de roteiristas da última adaptação para a TV da série sobre o “Sítio”, trouxe à mesa sua experiência enquanto leitora de Lobato na infância para falar como escritora sobre a fantasia na obra do autor e em sua própria obta, que foi construída com as referências lobatianas,como ‘imaginar o diferente’.

Na sequência, Pedro Bandeira, que se intitula ‘filho de Lobato’ pela ausência paterna na infância, avaliou que o autor introduziu em sua obra elementos que ele percebeu que faziam parte do universo de ‘sonhar’ das crianças, o que permite criar identificação e prazer pela literatura.

O escritor citou trechos, como o do ‘vidro azul’ para exemplificar a sensação que sente e que Lobato fez sentir por meio da obra, à qual ele se referiu como ‘espelho’ para quem lê.

Por fim, os integrantes da mesa fizeram sua conclusão sobre o bate-papo enquanto interagiam com comentários feitos pelos espectadores, que elogiaram, trouxeram pareceres e olhares sobre a conversa.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=WffPvvLpoMo&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=3

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LANÇAMENTO DE NARIZINHO ARREBITADO – LIVRO 1 POR CLEO MONTEIRO LOBATO

A primeira mesa-redonda do último dia do evento “100 Anos de Narizinho” (6/12) marcou o lançamento de ‘Narizinho Arrebitado – Livro 1’, atualização de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’, com adaptação em português e tradução em inglês, feita por Cleo Monteiro Lobato junto à editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, e com ilustrações de Rafael Sam.

A bisneta de Lobato lançou oficialmente sua obra em uma conversa com os dois parceiros. Cleo iniciou a live, que foi mediada pela curadora Mari Salmonson, já contando aos espectadores sobre o projeto de nos próximos anos atualizar toda a obra de ‘Reinações de Narizinho’ e em seguida iniciou o bate-papo com Nereide, que parabenizou a diretora da Monteiro Lobato Projetos Culturais pela oportunidade de reflexão trazida pelo livro.

As duas falaram sobre como se conheceram e Nereide, que já publicou um livro sobre Lobato no Brasil, destacou o fato de levar a literatura brasileira para nossa comunidade nos Estados Unidos, país sede da editora, necessidade que ela conta ter percebido nos últimos anos.

A dupla também revelou ao público os detalhes e primeiros passos que tiveram que definir na hora de organizar a publicação, como a separação em capítulo, quantidade de ilustrações, formato e todas as “adaptações ao novo pensamento, aos valores contemporâneos”, como descreveu Santa Rosa, que ressaltou a preocupação de atender ao mesmo tempo aos pais e aos professores.

Logo depois, Cleo trouxe à conversa a necessidade de discussão da questão racial, evidenciando os acontecimentos recentes no mundo e os movimentos em voga no país em que vive, o que acaba refletindo nas ideias de todo o planeta.

As estratégias que foram precisas durante o processo para saber como lidar com o público ‘tradicionalista’, como definiu a bisneta do autor, também foram tema do bate-papo.

Na sequência, Rafael Sam entrou para a mesa e Cleo contou como conheceu o artista. Ele conversou com ela sobre a experiência do trabalho e o processo de criação dos desenhos a partir do que é idealizado em nossas imaginações a partir dos trechos do livro.

Na ocasião, o público pôde conferir esboços do desenvolvimento das artes, como a composição de Narizinho, descrita por Lobato como ‘da cor de jambo’ e recriada usando o Converse All Star High Top vermelho, através do ‘toque de gênio’ do ilustrador, comparações entre ilustrações de trechos de edições do livro original e reproduzidas agora e detalhes das reproduções de cenas e ambientes.

Rafael também analisou sua criação de Emília, que surge mais colorida na atualização, explicando a associação de detalhes modificados à personalidade da boneca na história e passando ao público força, determinação e energia alem de uma felicidade de viver.

Ao mostrar como ficou a Dona Benta do artista, Cleo falou sobre a dificuldade que causou na hora de pensar na reprodução da personagem junto ao parceiro, uma vez que conceito de avó idosa, fazendo tricot, na cadeira de balanço mudou muito mas ao mesmo tempo a vovó mais carismática do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ não poderia deixar de lado elementos símbolos do conceito descrito à personagem.

Ao final, Nereide Santa Rosa voltou ao encontro, onde os três, juntos, traçaram um panorama final sobre como foi todo o processo de atualização, as responsabilidades, compromissos e impactos na obra nas atuações dos três profissionais, que com o livro contribuem com a propagação de nossa cultura e valorização da obra de Lobato.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=-0OS-jI-A5Q&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=2

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100 ANOS DE REINAÇÕES

A última mesa-redonda do dia 5/12 no evento “100 Anos de Narizinho” reuniu Cleo Monteiro Lobato e a curadora Mônica Martins para um bate-papo com oito ilustradores da exposição “A Menina do Narizinho Arrebitado”, mostra idealizada pela Editora MoMa com 20 artistas que recriaram cenas da obra original “A Menina do Narizinho Arrebitado” de Monteiro Lobato.

Mônica começou a conversa relembrando sua experiência com trabalhos que envolveram ilustrações de Lobato e contando como surgiu a atual exposição. A artista ressaltou que percebeu por meio das ilustrações como a obra fica instalada no imaginário das pessoas enquanto criança.

Veruscvhka Guerra foi a primeira ilustradora a entrar para o encontro, se apresentar e exibir sua arte, que reproduziu Narizinho no Reino das Águas Claras. Ela também contou sobre sua carreira e seu primeiro contato com Monteiro Lobato.

Em seguida, Soraya Pamplona se apresentou e descreveu sua trajetória. A artista, que é especializada em aquarela, fez sua ilustração nesta modalidade e falou sobre o processo de trabalho em cima da obra do autor.

Nice Lopes veio logo depois mostrando o trabalho que fez com um trecho de Emília lutando contra o escorpião negro – trecho esse posteriormente retirado da versão final de “Reinações de Narizinho” pelo próprio Lobato. A ilustradora falou sobre sua escolha e justificou a decisão, relembrando também sua experiência com a obra do autor e com a arte.

A próxima convidada a apresentar seu trabalho foi Sandra Ronca, que também recriou uma cena com o escorpião e Narizinho. A artista, que também é escritora, contou sobre sua história e parceria com Mônica Martins e explicou sobre a técnica diagonal utilizada em seu desenho, técnica de composição de grande efeito, usada para chamar o olhar da pessoa e criar um efeito dramático.

Na sequência, Agostinho Ornelas entrou em cena introduzindo o trabalho realizado e contando sobre seu primeiro contato com Lobato. O ilustrador mostrou o primeiro livro de fábulas do autor que sua mãe contava a ele quando criança e contou detalhes sobre os traços de sua criação para a exposição.

Agostinho recriou o perfil de Narizinho com o Príncipe Escamado na ponta do seu nariz em aquarela e tem no seu portfólio quase o livro inteiro ilustrado magistralmente no seu estilo onírico.

Ângela Carneiro foi a próxima artista que apresentou seu desenho e falou sobre sua carreira, analisando o processo e elementos que percorreu para seu trabalho.

Em seguida, Laurent Cardon, francês radicado no Brasil, trouxe à mesa as cenas que recriou: do príncipe e Narizinho na enfermaria e da barata ferida pelo sapo, trechos que também acabaram excluídos da versão final de 1931 por Lobato. Essas ilustrações renderam entre os integrantes uma discussão sobre a relação entre a igreja e Lobato, relação complicada historicamente.

Felipe Campos veio logo depois exibindo sua ilustração. Apaixonado por trabalhos voltados a histórias que “assustam crianças”, o artista falou sobre a experiência de deixar o trabalho que gosta para dar cores alegres ao trabalho realizado para a exposição.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=z0iW8KLCHtY&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=3

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REINAÇÕES DE NARIZINHO’ NA ESCOLA: COMO DESENVOLVER PROJETOS LITERÁRIOS COM ESTE CLÁSSICO?

Na segunda mesa-redonda do dia 5/12, no evento “100 Anos de Narizinho”, Cleo Monteiro Lobato e a doutora em Educação, Sônia Travassos, mediadora da mesa, receberam os doutores em Educação Vanessa Camasmie e Ilan Brenman e a professora e especialista em Lobato, Renata Codagan para falar sobre o processo percorrido pelos educadores para levarem a obra lobatiana ao universo escolar.

No encontro, Brenman, que também é escritor infanto-juvenil, trouxe o olhar da relação entre Literatura e escola. Ele iniciou falando sobre o centenário de Clarice Lispector, autora, que segundo ele, foi formada por Lobato, como é explícito em seu livro de contos ‘Felicidade Clandestina’.

O profissional também lamentou o cancelamento a Lobato nos últimos tempos, relatando uma série de acontecimentos e ataques ao autor, no passado, que vieram de diversos lados opostos de pensamento e mostram que ele era um “prisioneiro de seu tempo” e refletiu sobre a presença de racismo e outras passagens da época na obra lobatiana, como a caça, concluindo que os trechos não contribuem para tornar ou incentivar ninguém, mas para ilustrar épocas distintas. “A vida vai e volta, não é uma linha reta”, afirmou Brenman, que reconheceu a importância de ensinar às crianças sobre nosso passado.

Em seguida, Vanessa falou sobre a mediação entre obras infantis como ‘Reinações de Narizinho’ e as crianças, por meio de sua experiência em atividades no colégio Pedro II.

A doutora contou sobre como funcionaram as atividades de um projeto de leitura desenvolvido no ano passado, que precisou ser interrompido.  Ela afirmou que foi reconhecido, entre os profissionais, o racismo presente na obra e trouxe à discussão a análise de Antônio Candido sobre literatura e sociedade, concluindo que a leitura de uma obra com trechos racistas não significa o incentivo e a formação do racismo às crianças e nem a desqualificação da obra.

Camasmie revelou que chegou a ser pedido na escola para que o livro ‘Reinações’ fosse queimado, citando uma frase de Stalin sobre queimar livros e contou que a obra serviu para abrir discussão extremamente positiva entre as crianças negras e brancas sobre sofrer racismo e o entendimento do que é viver o racismo.

Logo depois, Renata iniciou sua fala afirmando ter ficado emocionada com o relato de Vanessa, principalmente pela ótima experiência que teve quando criança junto à obra de Lobato, lembrando detalhes e vivências. Como arte-educadora, ela contou sobre sua experiência com a obra de Lobato nos espaços culturais por onde atuou, lembrando sobre um episódio em que a evidenciação de termos racistas no livro serviu para provocar e enfatizar que hoje racismo é crime, iniciando uma discussão acerca do tema.

Ao final, os convidados puderam responder perguntas enviadas por espectadores, como Renata, que respondeu sobre um questionamento de como ela se sentia como negra em relação às passagens racistas na obra. A professora disse que foi muito treinada quando pequena pelos seus pais para lidar com o racismo, mas que nem todos têm essa vantagem e avaliou o evento como uma oportunidade para iluminar e trazer ‘futuros desejáveis’ para nossa sociedade.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=_WKmPyQDEfs&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=4

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DONA BENTA, TIA NASTÁCIA E SEUS ILUSTRADORES

O segundo dia do evento “100 Anos de Narizinho” teve como primeira mesa-redonda um encontro entre Cleo Monteiro Lobato, a curadora Mari Salmonson e o convidado Magno Silveira, artista responsável por uma das exposições do evento, que reúne em uma linha do tempo ilustrações de capas mostrando a evolução do livro “A Menina Do Narizinho Arrebitado” até se tornar “Reinações de Narizinho”, 11 anos depois.

No bate-papo, Magno trouxe detalhes sobre o recorte de sua pesquisa para a exposição, que além da linha do tempo evolutive, analisou a evolução das personagens Dona Benta e Tia Nastácia.

Ele apresentou imagens de diferentes artistas ao longo do tempo, elencando as características de cada arte e as principais diferenças entre eles, tanto no que diz respeito aos traços, como a concepção das reproduções. O ilustrador destacou que a criação de Jean Villin, em 1929, para ele foi a que mais trouxe elementos que se alinham ao ambiente interiorano do “Sítio do Picapau Amarelo”.

Entre os apontamentos, Magno também ressaltou uma ilustração de Belmonte, de 1929, da história ‘Circo de Escavalinhos’, em que Tia Nastácia surge com roupa de passeio. Já nas ilustraçōes  de J.U. Campos, em 1930, o profissional fala em uma abordagem mais comercial e influência do desenho norte-americano no processo de criação.

Três artes, entre outras, que acabaram chamando a atenção do trio foram uma feita por Belmonte, em 1934, em que surge junto às personagens um gato, elemento que não aparece em nenhum momento na história de Lobato; uma de Rodolpho, de 1939, em que Narizinho é caracterizada praticamente idêntica à Branca de Neve da Disney; e uma de Augustus, em 1947, em que Dona Benta vivida pela atriz Zilka Salaberry na série de TV global parece ter sido inspirada.

Entre os nomes que estão na linha do tempo de Magno está também o argentino Rafael De Lamo, com ilustrações que têm o tom escuro como característica marcante.

Ainda no encontro, Magno mostrou algumas coleções físicas que possui de ilustradores nacionais e internacionais e respondeu perguntas e comentários feitos pelos espectadores.  O artista reforçou que dois dos ilustradores que ilustraram Lobato  eram negros: Belmonte e André Le Blanc, um fato interessante e desconhecido pela maioria das pessoas, atestando como Lobato era realmente um homem à frente do seu tempo.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=tZVZcL85TLo&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=2

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Fique ligado que logo teremos mais dicas…

ETAPA ENCERRADA

A IMPORTÂNCIA SOCIOECONÔMICA, POLÍTICA E CULTURAL DE ‘A MENINA DO NARIZINHO ARREBITADO’ E ‘REINAÇÕES DE NARIZINHO’

Na mesa-redonda que encerrou o primeiro dia de evento, na sexta-feira (4), a doutora em Educação Sônia Travassos mediou um bate-papo entre Cleo Monteiro Lobato e os escritores e especialistas na na obra lobatiana Marisa Lajolo, Cilza Bignotto e Alexandre de Castro Gomes, que falaram sobre a importância socioeconômica, política e cultural de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’.

No encontro, Castro Gomes iniciou a discussão fazendo um panorama sobre a

literatura infanto-juvenil no Brasil, apontando a relevância e a inovação que Lobato trouxe à área ao trazer ilustrações e conquistar as crianças. “O Lobato não inventou a literatura infantil brasileira, mas ele fez as crianças gostarem”, afirmou o escritor.

Em seguida, Cilza Bignotto comentou sobre as publicações de Lobato antes de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ até chegar na obra, evidenciando detalhes do livro em sua primeira edição, bem como em publicações da época, o que fez com que a especialista analisasse a intenção do autor de apresentar sua obra para diferentes públicos.

A oscilação da personagem Narizinho e caracterização de outros personagens,

elementos e passagens do livro também foi ponto de análise da escritora, que exibiu e descreveu imagens do livro e de publicações da época, traçando as referências e revelando curiosidades.

Em sua fala, Marisa Lajolo estabeleceu paralelos entre ‘A Menina do Narizinho

Arrebitado’ e as obras sobre o ‘Sítio do Picapau Amarelo’ que se originaram a partir daí e pontuou características do autor, usando trechos e exemplos dos livros.

Ainda na mesa, os convidados responderam perguntas enviadas por espectadores,como qual conselho Lobato daria para os editores diante da atual crise no mercadoeditorial.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=nUJcGECPh2o&t=66s

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TRADUZINDO REINAÇÕES DE NARIZINHO

Na segunda mesa-redonda do primeiro dia de evento, na sexta-feira (4), Cleo Monteiro Lobato recebeu as professoras de tradução e tradutoras Vanete Santana-Dezmann e Letícia Goellner e o aluno do curso de tradução da Universidade Johannes Gutenberg (Alemanha) Silvano Loureiro Pinto para falar sobre as traduções e adaptações de "Reinações de Narizinho" para outras línguas.

Vanete Santana-Dezmann começou o encontro apresentando seu projeto de tradução dos três primeiros capítulos da obra de Lobato ('Narizinho Arrebitado', 'Sítio do Picapau Amarelo' e 'O Marquês de Rabicó') para o alemão na Universidade de Mainz.  Letícia Goellner, por sua vez, contou sobre como foi o concurso de que participou na PUC do Chile, vencido por seu projeto que levou Lobato traduzido (e contextualizado através de ensaios críticos) para o país, por meio dos capítulos 'Narizinho Arrebitado' e 'Sítio do Picapau Amarelo'.

Cleo, que também traduziu 'Narizinho Arrebitado', aproveitou para relatar sua experiência e expor as principais dificuldades, que foram além da questão da língua, envolvendo também o direcionamento do público e a estrutura da obra.

Natural de Portugal, Silvano revelou que seu primeiro contato com Lobato foi por meio do projeto. Vanete revelou que conheceu a obra lobatiana pela televisão. Já Letícia contou que Lobato sempre esteve presente em sua vida, uma vez que ela é nascida em Taubaté.

Em seguida, as convidadas discutiram sobre os processos de tradução da obra do autor e suas particularidades, como a adaptação da linguagem caipira, por exemplo, ao alemão e ao espanhol, além da adaptação de títulos e nomes de personagens. Em alguns países latinos-americanos, por exemplo, 'picapau' virou 'bem-te-vi'. Cleo aproveitou para comentar sobre a escolha da palavra 'ranch' para 'sítio' em seu título traduzido, já Leticia comentou sobre as diversas possibilidades para esta mesma palavra (rancho, quinta, finca, parcela etc), considerando as muitas variantes do espanhol e Silvano falou da experiência para o alemão. Vanete contou, ainda, como aconteceu a formação e reunião de estudantes para seu projeto, que também venceu um concurso promovido por sua universidade.

O encontro também teve participação dos espectadores, que quiseram saber, entre diversas coisas, sobre como foi lidar com palavras aglutinadas, expressões e nomes de frutas tropicais, como a jaboticaba. Silvano contou ter recorrido às espécies da botânica para encontrar a fruta mais próxima a ser associada, que foi, no caso do alemão, um tipo especial de cereja, Letícia optou pela estratégia de manutenção da palavra estrangeira "jabuticaba" para que o leitor chileno tivesse a experiência de viajar até o universo brasileiro.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=KZCbmfkjacs&t=128s

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EMÍLIA 100, UMA COLETÂNEA DE CONTOS ILUSTRADOS POR MULHERES REAIS

Na primeira mesa-redonda do evento, na tarde da sexta-feira (4), Cleo Monteiro Lobato recebeu, sob a mediação da curadora Mari Salmonson, a editora e roteirista de quadrinhos Carol Pimentel e a ilustradora Beatriz Farmi para um bate-papo sobre a recriação de Emília pelas artistas em um livro de 10 histórias em quadrinhos que está sendo lançado por Pimentel através da editora Skript.

No encontro, Carol contou que dividiu o projeto, idealizado apenas com a participação de mulheres, por décadas, mostrando, assim, o conceito e o figurino de cada época, mas mantendo a essência da personagem lobatiana reproduzida por meio de vozes femininas.

Ainda na mesa, a ilustradora convidada, Beatriz Farmi, falou sobre sua participação no livro, destacando a importância de Emília em sua infância. A artista criou sua versão da personagem projetando a boneca no contexto do meio em que sempre viveu: interior do Pará.

Em seguida, Carol apresentou ao público as criações de outras artistas que

participaram da obra, como a Emília feita com colagens e as personagens por décadas, descrevendo e detalhando as principais características de cada ilustração e história.

Ao final, Beatriz respondeu perguntas enviadas pelos espectadores, como por

exemplo, como foi transformer o texto narrativo em texto de quadrinhos, revelando ter sido um processo difícil, em que ela priorizou preserver a essência das personagens, mudando detalhes, que segundo Pimentel, causou ‘sensibilidade’ a quem lê.

A mesa-redonda “Emília 100, uma coletânea de contos ilustrados por mulheres reais” está disponível no canal do YouTube do Lobato com Você.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=4HQz52Ee-1Y

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CONHEÇA A CURADORA SÔNIA TRAVASSOS

Foi por meio de postagens no Instagram sobre o aniversário de Monteiro Lobato que Cleo Monteiro Lobato e Sônia Travassos estabeleceram conexão. Mestre e Doutora em Educação, especialista em Literatura infanto-juvenil, escritora e professora há mais de 30 anos, Sônia Travassos despertou a atenção da bisneta do autor, que a convidou para participar de um evento sobre como ensinar Lobato nas escolas organizado por professores de Boston, EUA.  Juntas, elas ainda fizeram uma live onde falaram sobre sua relação com a obra, criando desde então uma parceria que poderá ser vista no evento “100 Anos de Narizinho”.

Sônia contou que sua relação com Lobato já vem há mais de 20 anos. Para se ter ideia, sua dissertação de Mestrado foi sobre a recepção da obra do autor junto às crianças na escola.

“Meu trabalho é pesquisar como as características dessa obra ainda encantam as crianças de hoje”, explicou a curadora, que realiza palestras e mesas-redondas, abordando também como as personagens crianças aparecem na obra do escritor.

“Monteiro Lobato concebe as crianças como ativas e criativas, que interferem no mundo, não sendo apenas receptoras das vozes dos adultos, mas sim protagonistas de suas ações”, analisou a profissional, que destacou, ainda, a maneira como o autor aborda a questão da fantasia misturada à realidade.

“Toda a obra de Lobato é permeada nesta fantasia que não é alienante, mas que provoca os personagens e o leitor a entrar em novas tramas e ações”, afirmou Sônia, que procura observar também a mediação dos professores na hora de levar a obra para a sala de aula.

Com 14 livros publicados, tendo sido alguns já selecionados para programas de governo, ela também é contadora de histórias e como forma de promover suas obras e a obra de Lobato, criou um perfil no Instagram e um canal no YouTube chamado “Casa de Historias.st”, onde grava histórias para o público.

A convite de Cleo Monteiro Lobato, Sônia assumiu a curadoria do evento com foco na parte educacional, tendo organizado algumas mesas-redondas que abordarão Lobato em relação à infância, escola e também à importância cultural do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado” no cenário editorial de 1920.

Por ser contadora de histórias, ela está, ao lado do filho, Vitor Milone, à frente de um podcast que narra, semanalmente, a obra do centenário e é curadora dos contadores de histórias que vão se apresentar nos três dias do fórum. De acordo com Sônia, esta foi uma das maneiras encontradas para divulgar a 1ª obra de Lobato de maneira lúdica.

Responsável por ministrar cursos sobre a obra de Monteiro Lobato, no Rio de Janeiro, Sônia Travassos já trabalhou para a Editora Globo, onde foi consultora de vários projetos desenvolvidos com a obra do autor na época da última adaptação para a TV de “Sítio do Picapau Amarelo”, entre 2000 e 2008

A professora também atuou na emissora carioca como consultora pedagógica da edição de 2007 do seriado, sob a coordenação de Cláudio Lobato.

CONHEÇA A CURADORA MÔNICA MARTINS

  1. Este foi o ano em que a jornalista e escritora Mônica Martins, apaixonada por Monteiro Lobato, iniciou as adaptações de textos do autor para o teatro, na Cia das Mães, na cidade de Niterói.

O grupo, que levava as peças para escolas, serviços como o Sesc e outros eventos tinha como foco tratar da obra infantojuvenil com cunho educacional. A experiência levou a profissional a começar um trabalho mais amplo. Iniciando com uma homenagem ao autor, Mônica resolveu procurar a Rede Globo, procurando, na época, pela figura de Geraldo Casé.

“Falei pra ele da minha ideia de adaptar os textos pro teatro, falei que já tinha alguma coisa escrita sobre a obra e então ele me deu apoio fornecendo a trilha sonora pela Som Livre e fitas VHS para que eu pudesse fazer o figurino”, contou a escritora, que ganhou do criador da série de TV um manual utilizado pela própria equipe da obra na preparação do formato.

Foi Casé também quem colocou Mônica em contato com Jorge Kornbluh, pai de Cleo Monteiro Lobato, na época, responsável pela Monteiro Lobato Licenciamentos, quem a artista recorda como ‘cordial’ e ‘carinhoso’. “A partir dali, foi com ele que comecei a tratar, pedindo autorização pra fazer as exposições que faço desde então, mostrando a ele meus textos próprios”, lembrou a jornalista, que chegou a fazer um contrato com a Globo para poder utilizar as imagens, sons etc, submetendo-se também ao pai de Cleo até sua morte.

No ano passado, durante a ‘Semana de Monteiro Lobato’, em Taubaté, a escritora conheceu a bisneta do autor, por meio de Álvaro Gomes, administrador das obras de Lobato, com quem se une agora para o evento “100 anos de Narizinho”.

Obras e Carreira

Nascida no Rio de Janeiro, em abril, Mônica cresceu em uma casa com três estantes repletas de livro, o que para ela, foi fundamental para sua tendência às letras.

Formada em Jornalismo pela Universidade Gama Filho, ela é especialista em Literatura Infantil e juvenil pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

Contadora de histórias desde a chegada de seus filhos, ela também escreve as criações, feito que fez com que ela recebesse da União Brasileira de Escritores (UBE) dois prêmios: Menção Honrosa do Prêmio Adolfo Aizem, em 2002, com o texto “O pessoal do Sítio e o resgate da Infância”; e o Prêmio Alice da Silva Lima, que lhe rendeu o 1º lugar de Teatro Infantil com a adaptação de “Memórias da Emília”, em 2007.

Mônica também foi finalista da 59ª edição do Prêmio Jabuti, na categoria ‘Adaptação’, com o livro “O Príncipe desencantado – O dia que Chapeuzinho Vermelho desencalhou” – Scortecci Editora (2019).

Moradora de Niterói, ela fundou e dirige na cidade o “Espaço de Leitura Tatiana Belinky”, projeto agraciado pelo “I Prêmio Pontos de Leitura” do Ministério da Cultura (MINC). Seu texto “Emília e os 200 anos da Independência do Brasil” foi premiado no edital de Seleção Pública n°01, DLLLB/SEC/MINC de 04 de julho de 2018, e recebeu prêmio de Incentivo à Publicação Literária pelos 200 Anos de Independência, realizado pelo Ministério da Cultura/Secretaria de Economia da Cultura/Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas.

Em 2018, a escritora abriu sua própria editora, MoMa, por onde já publicou “Uma família para Emília” com ilustrações de Maurício Veneza (2018), “A canastrinha da Emília”, com ilustrações de Felipe Campos (2020), e a nova edição de “O príncipe desencantado".

CONHEÇA A CURADORA MARI SALMONSON

Foi por meio do Instagram que a ilustradora e muralista Mari Salmonson iniciou sua parceria com Cleo Monteiro Lobato ao trocar mensagens interagindo com a bisneta do escritor.

Desta conexão, nasceu um convite de Mari para Cléo participar do primeiro episódio da série “Protagonistas da Cultura Brasileira”, projeto no qual a ilustradora convida diversos profissionais, cada um da sua área, para falar sobre elementos brasileiros.

A participação de Cleo, que falou sobre a influência que Monteiro Lobato teve no folclore nacional através do seu livro “O Saci”, estreitou ainda mais os laços da dupla, que acabou unindo o desejo da herdeira do autor em comemorar o centenário de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e a experiência profissional de Mari com os eventos.

A ilustradora já foi convidada pela Prefeitura de São Paulo para organizar um evento do aniversário da cidade com a vertente de mulheres em tecnologia,  é líder da comunidade de um evento de tecnologia que acontece em Chicago, o Tikkun Olam Makers at Northwestern (TOM), mentora da Liga de Negócios da Moda da FGV e voluntária no Silicon Drinkabout, em São Paulo.

Ela foi parceria fundamental para trazer ao evento o conhecimento de como montar um evento do zero, trabalhando desde a concepção até o desenvolvimento da ideia e transformando o projeto num evento real.

Mari também foi peça importante para o engajamento de outros curadores e para a criação de eventos que servem como divulgação do evento principal e ajudam a traduzir uma identidade em produtos para a coleção, por exemplo.

Consumidora de Lobato desde a infância, ela contou que o primeiro livro que leu na vida foi ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’, ainda no colégio. Depois disso, sempre com o incentivo dos pais, leu diversas outras obras do autor e assistiu também à série da TV Globo, mas afirma que preferia a obra escrita.

“Diferente da maioria das pessoas, eu preferia o livro porque eu podia me imaginar naquele ambiente e no seriado os personagens não eram da maneira que eu imaginava”, disse Mari, que tendo passado parte da infância em uma fazenda no interior, confessa que a experiência da leitura fazia com que ela tivesse a certeza de que vivia como os personagens da obra.

Há alguns anos, a artista percebeu que sua paixão por cultura brasileira era alvo de investimento e decidiu, então, mostrar para o mundo seu interesse sobre o tema, posicionando-se como uma artista defensora da causa.

“Foi aí que eu comecei a desenhar esses personagens do Sitio do Picapau Amarelo, refazendo da maneira que vejo, um processo muito legal. Tenho tido uma resposta bem bacana”, contou a ilustradora, que citou como exemplo o desenho que fez da Cuca. (Clique para ver: https://www.instagram.com/p/B_A_x2lHh0t/?igshid=vtajvx037a3j)

Sua relação com o desenho também veio desde criança. Mari revelou que seus diários eram como gibis, uma vez que em vez de escrever, ela desenhava as principais cenas de seu dia a dia.

“Hoje, olhando pra trás, percebo o quanto meu modo de expressão é o desenho”, afirmou a artista, que cursou moda e fez pós-graduação na área, aprendendo várias técnicas do ofício de desenhar.

A habilidade de Mari acabou chamando também atenção de amigos, que começaram a pedir para que ela desenhasse coisas, inclusive em paredes, tendo sido convidada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para fazer o mural na Casa de Cultura do Butantã, como também Mari foi responsável por elaborar arte da fachada de empresas na capital paulista.

“De repente me vi negando trabalhos de arte por causa de minha vida executiva e isso não estava fazendo sentido”, comentou a ilustradora, que garante que a arte a deixa muito mais feliz e completa.

Com coragem, Mari, então, decidiu focar 100% do seu tempo na arte e em conteúdos sobre a cultura brasileira. Com o evento prestes a ser lançado, ela avalia que seu propósito é criar e aliar-se a projetos de educação que tenham a ver com a valorização da cultura brasileira, seja por meio de elementos para construção de identidade de marca e produtos ou por meio da memória dos costumes da população.

Live aborda influência de Monteiro Lobato em autores contemporâneos

Na terça-feira, 25, o Lobato Com Você transmitiu, pelo canal do YouTube, uma live com a participação dos escritores Luciana Sandroni, Pedro Bandeira e Luiz Antônio Aguiar.

No encontro, intitulado “A Influência de Lobato na Escrita de Autores Contemporâneos”, os autores falaram sobre a influência da obra de Lobato tanto em suas vidas enquanto leitores, quando crianças, como em sua carreira como escritores de Literatura Infantojuvenil.

A live foi iniciada por Cleo Monteiro Lobato que destacou que o encontro era uma continuação do bate-papo com José Roberto Whitaker Penteado, autor do livro “Os Filhos de Lobato”, onde eles conversaram sobre como Lobato havia influenciado na maneira de pensar , de agir e de escrever de toda uma geração de intelectuais.

Mediada pela doutora em Educação Sônia Travassos, que junto à diretora da Monteiro Lobato Projetos Culturais contou sobre a ideia de reunir os escritores para a conversa sobre a influência lobatiana em suas carreiras, a live revelou detalhes desta influencia na carreira dos escritores convidados.

Após apresentações de cada autor, o bate-papo começou com Travassos perguntando aos convidados o que eles guardam sobre o primeiro encontro com a obra de Lobato, como leitores.

Pedro Bandeira contou que o escritor foi sua figura masculina na infância, uma vez que seu pai havia falecido pouco antes de ele nascer, e revelou que Narizinho foi sua primeira “paixão” na vida.

“Pra mim ela é ‘a’ personagem de Lobato, todo mundo ama a Emília, mas quem cria ela, quem faz ela falar é a imaginação de Narizinho”,  disse o autor, que a partir da ideia da garota como criança solitária que se aventura em sua imaginação, criou o personagem de seu primeiro livro, porém num cenário urbano e não rural.

Em seguida, Luiz Antônio Aguiar confessou que “A Chave do Tamanho”, de Lobato, foi o livro mais importante que já leu em sua vida. Segundo ele, a obra o deixou “inteligente” por começar a ver o mundo “fora de si”. “Eu comecei a ver o mundo grande, comecei a desejar o mundo”, afirmou o escritor, que disse que “A Chave” foi o livro que “abriu a vontade de morar dentro do Sítio do Picapau Amarelo”.

“Monteiro Lobato foi o fundador da Literatura Infantojuvenil brasileira. Mesmo com oito anos de idade, eu sentia que ele estava do meu lado, era do meu partido”, comentou Aguiar.

Luciana Sandroni disse lembrar-se da sensação que tinha ao ler Lobato. Ela recordou que quando criança, ia para um sítio em uma ilha carioca nas férias, onde não havia energia elétrica. Sua mãe, então, especialista no autor, aproveitava o momento para contar toda a obra dele para ela e as crianças.

Entre os livros que teve contato na infância, ela destacou “Viagem ao Céu”, que na época permitia que ela acreditasse que poderia sim ir para a Lua por meio das histórias do livro. “Foi o primeiro livro que me fez acreditar que a fantasia poderia ser real”, disse.

Na onda dos autores, Cleo Monteiro Lobato também falou sobre a obra que mais a marcou: “Os Doze Trabalhos de Hércules”.Na sequência, Sônia Travassos quis saber porque os convidados se consideram “filhos de Lobato” em sua escrita.

Luiz Antônio Aguiar disse que não se considera um “filho” de Lobato, mas afirmou que o autor o formou como um cidadão brasileiro, chamando-o de visionário por criar o “Sítio do Picapau Amarelo”, local que ele definiu como um “acampamento de fantasias que uniu diversos elementos de imaginação sem fronteiras”, curiosamente demonstrando como de fato ele ser mesmo um “filho de Lobato”.

A autonomia dada a suas personagens crianças, por exemplo, é uma das características que ele conta ter aprendido com Lobato, que pode ser vista por exemplo em sua obra “Memórias Mal Assombradas de um fantasma canhoto”. Já Luciana Sandroni disse que acredita sim ser uma “filha” do escritor. A autora, que ganhou prêmios com seu livro “Minhas Memórias de Lobato”, ressaltou a influência de Lobato, por exemplo, em seu primeiro livro: Ludi vai à praia, (1989).

A obra conta a história de uma menina de 8 anos, muito inspirada na Emília, que limpa a baía de Guanabara, cartão postal da cidade, e que inclusive era retratada como leitora de Lobato, tendo até o apelido de “Marquesa” e atua no “Reino das Águas Sujas”. Pedro Bandeira apontou seu livro “Alice no País da Mentira” como uma de suas obras mais ‘lobatianas’.

De uma forma ou de outra, o encontro deixou provado como estes escritores, que marcaram gerações com o talento de suas obras, foram e ainda são inspirados pelos ideais e narrativa de Monteiro Lobato, marca que ficou provada na forma como eles próprios demonstram a paixão ao falar e se lembrar da experiência com o autor.

Live recebe Whitaker e debate sobre influência de Lobato na formação ideológica

Na quarta-feira (18), Cleo Monteiro Lobato realizou uma live no YouTube do @lobatocomvc com o jornalista, economista, pedagogo e professor José Roberto Whitaker Penteado.

O encontro foi intitulado "Os filhos de Lobato – o imaginário infantil na ideologia do adulto", nome do livro escrito por Whitaker, obra em que ele retrata o maior autor brasileiro de literatura infantil, Monteiro Lobato, visto por sua influência no mundo adulto, reunindo uma tradição de estudos psicológicos, literários e culturais, além da análise da vida e das ideias de Lobato e de sua obra e de entrevistas feitas com adultos nascidos no auge da enorme popularidade do escritor.

Whitaker iniciou o bate-papo contando que já apertou a mão de Monteiro Lobato, na Livraria Brasiliense, quando criança e isso o impressionou muito. Ele contou também sobre a gênese de seu livro, que nasceu a partir de um artigo homônimo feito para uma revista no centenário do nascimento de Lobato.

Na época, o intelectual, que estava se preparando para seu Mestrado em Ciência Política, constatou a influência do autor em sua formação ideológica, momento crucial para a ideia de sua obra.

Cleo, então, concordou com ele e ressaltou sua luta em movimentos políticos nos Estados Unidos, principalmente relacionados ao meio ambiente, atribuindo também esta influência à leitura da obra do bisavô.

Entre os pontos importantes da influência da literatura lobatiana, Whitaker destacou que, no seu tempo de escola, a escola e a leitura chegavam juntas para a criança em uma época em que não havia televisão ou outras atrações, concentrando toda a influência sob a leitura.

Juntos, Cleo e Whitaker apontaram diversos trechos de obras como “Reinações de Narizinho” para ressaltarem a genialidade do imaginário criado pelo autor para as crianças. Cleo também evidenciou a intenção de educar presente nos livros do bisavô.

Whitaker avaliou a posição do autor como ‘paterna’, justificando que por meio da literatura, ele transmitia aos ‘filhos’, com capacidade artística, suas ideias e sua intenção de ensinar.  Ainda na live, o convidado respondeu perguntas e curiosidades dos espectadores em relação à obra de Lobato e também à sua obra.

Live apresenta trabalho sobre onomatopeias na obra de Monteiro Lobato

Live apresenta trabalho sobre onomatopeias na obra de Monteiro Lobato.

Na última quinta-feira (4), Cleo Monteiro Lobato recebeu em uma live no perfil @lobatocomvoce, no Instagram, o dicionarista Wagner Azevedo Pereira, autor do “Dicionário de Onomatopeias e vocábulos expressivos de Monteiro Lobato”, que reúne as onomatopeias acidentais presentes na obra do autor.

Formado em Letras, com pós-graduação em Língua Portuguesa, ambos na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Pereira, que agora cursa Direito pela mesma faculdade, contou no encontro que começou a fazer dicionários “de repente”.

Com obras ainda inéditas, o dicionarista reúne um total de 24 dicionários, estando 20 desde já prontos e tendo seis sido publicados, dois destes inclusive em Lisboa, Portugal.

Wagner e Cleo se conheceram virtualmente pelo Instagram, durante a pandemia do coronavírus, período este que, segundo o escritor, foi o responsável por fazer acelerar a obra sobre os termos em Lobato que ele já vinha desenvolvendo.

No bate-papo, ele contou sobre sua relação com dicionários, revelando que o primeiro exemplar ele fez antes de começar a faculdade de Letras, em meados de 2004. Estudante de piano clássico, na época, o dicionarista criou um dicionário de música por instinto, obra esta que acabou se perdendo numa enchente onde ele morava, em 2007.

Em seguida, ele começou a “colecionar” palavras, chegando assim ao primeiro dicionário que ele concluiu, sobre catacrese, edição que foi a terceira a ser publicada, em Lisboa.

Pereira contou também sobre todas suas outras obras que foram publicadas: ”Dicionário de Onomatopeias e Vocábulos Expressivos”, “Dicionário de Vozes de Animais” e a pentalogia “Dicionário de Animais com outros significados”, “Dicionário de Plantas com outros significados” e “Dicionário de Números com outros significados”.

Pesquisador nato, ele confessou já ter pesquisado obras inteiras da Literatura e da Música, como Monteiro Lobato, Cateano Veloso, Gilberto Gil etc.

Logo depois, durante a live, Cleo lembrou, por meio de um comentário recebido, que Monteiro Lobato também gostava muito de dicionários, recordando que sua mãe contava que havia um exemplar enorme na entrada de sua casa de Lobato que ficava num pedestal, sempre aberto par atodos poder consultar sempre que necessário.

Wagner, então, trouxe à conversa o exemplo de “Emília no País da Gramática”, em que o autor fala sobre dicionaristas e filólogos, chamando o Lobato de “cultíssimo”.

Ainda na live, o convidado deu alguns exemplos criativos da onomatopeia presente na obra do bisavô de Cleo, que ele retrata em seu dicionário, como as reproduções de sons presentes em “Reinações de Narizinho”, em que a personagem come jaboticaba (Pluft) e cospe seu caroço (Ploct), sendo este aproveitado por Rabicó, que ao encontrá-los come gulosamente (Nhoc).

Aproveitando o assunto, Cleo comentou sobre a questão de saber adaptar as onomatopeias na hora de traduzir as representações de sons do português para o inglês com os barulhos respectivos em cada idioma, E QUE ONOMATOPEIAS NAO SE TRADUZEM, CADA IDIOMA TEM SUAS PRÓPRIAS.

Na sequência, Wagner contou que em sua pesquisa descobriu que algumas criações que até hoje são usadas pela sociedade foram criadas por Lobato nos livros, como o “pspsPS” para chamar gatos e o termo “olhômetro”, referente a “ver e medir com os olhos”.

Antes de encerrar, Wagner lembrou sobre seu primeiro contato com a obra do autor, que foi por meio do “Sítio do Picapau Amarelo”, em sua segunda versão, na TV Globo, nos anos 70/80, ocasião em que ele afirma que ficava encantado com a expressão de Emília e com o espetáculo da figura de Cuca, que fazia com que ele viajasse dentro de seu imaginário infantil.

EM LIVE, CAROL PIMENTEL CONTA SOBRE O PROJETO 100 ANOS DE EMÍLIA

Na última quinta-feira, 29, a quadrinista Carol Pimentel participou de uma live com Cleo Monteiro Lobato. O encontro, transmitido pelo Instagram do @lobatocomvc, integra a programação de divulgação do Centenário da Narizinho

Formada em Física e em outras três faculdades, Carol atua como editora-chefe do Estúdio Patinhas, que atende várias editoras e com a produção de quadrinhos. Apaixonada por quadrinhos, a artista já foi editora-chefe da Marvel e segundo Cleo, aos internautas, é “praticamente a gênese de todo o evento”, tendo sido a “semente de todo o projeto”.

A dupla começou a conversa contando ao público sobre como se conheceram, no início da pandemia, este ano. Cleo lembrou que estava navegando pela internet quando se deparou com o projeto do livro de história em quadrinhos de Carol, o “Emília 100 anos”.

A partir daí, nasceu a parceria entre elas, o que segundo a bisneta de Monteiro Lobato “chegou na hora certa”. Durante o bate-papo, Carol falou sobre o surgimento do projeto que se deu com a junção de mulheres ilustradoras e quadrinistas.

A profissional relatou também sua experiência com a personagem do autor e seu primeiro contato com a obra de Lobato. Dona de poucas bonecas, ela relembrou que tinha uma boneca Emília quando criança, que foi sua companheira e confidente por muito tempo, tendo sido um presente da avó, com quem ela assistia, na TV Cultura, a episódios da antiga versão do Sítio do Picapau Amarelo.

A quadrinista revelou que foi por meio da obra de Lobato que teve contato com a Astrofísica, quando lia, por exemplo, sobre constelação. Em seguida, ela  mostrou o projeto finalizado, que contempla a criação de 26 mulheres da área em um compilado de 100 páginas que reúne diferentes histórias.

Carol explicou que as versões da Emília são apresentadas por década, começando Carol por 1920, com ilustrações que variam nos estilos e caracterizações, através das histórias, tendo inclusive Emília de outra cor, com outra roupa e até mesmo uma Emília especial, com bengala e uma do futuro.

“Nossa proposta é pensar ‘e se mulheres fossem falar sobre a Emilia? Qual seria esse outro olhar?’”, disse a quadrinista, que também discorreu sobre os tipos de quadrinhos e o mercado da área em geral, principalmente sobre o avanço das mulheres no ramo.

Ao final, Carol confessou que além da Emília é apaixonada pelo Visconde de Sabugosa e que tem um carinho pela Narizinho e Tia Nastácia, à qual se referiu como “avó postiça”.

EM LIVE, MAGNO SILVEIRA REVELA CURIOSIDADES SOBRE A EXPOSIÇÃO “ILUSTRADORES ORIGINAIS DE ‘A MENINA DO NARIZINHO ARREBITADO’”

Na última quarta-feira, 21, a muralista e ilustradora Mari Salmonson participou de uma live com o designer Magno Silveira. O encontro, transmitido pelo Instagram do @lobatocomvc, antecedeu o lançamento da exposição “Ilustradores originais de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’”, que integra a programação de divulgação do Centenário da Narizinho.

Antes de iniciar o bate-papo, Mari recebeu Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor e diretora da Monteiro Lobato Projetos Culturais. Ela falou sobre a exposição do artista convidado e seu trabalho, que reuniu as ilustrações da personagem de Monteiro Lobato em todas as épocas. Cléo revelou que descobriu Magno pelas redes sociais e afirmou ter se identificado com ele, definindo o encontro entre eles como “emoção especial”.

Na sequência, Magno Silveira se apresentou aos internautas e falou sobre sua formação, carreira e experiências, relatando desde seu primeiro contato com a literatura de Monteiro Lobato até a fase de colecionador das ilustrações de sua obra, que resultou na exposição e na linha do tempo das diferentes representações das personagens.

Ele destacou as principais diferenças entre a obra inicial “A Menina do Narizinho Arrebitado” e “Reinações de Narizinho”, detalhando curiosidades sobre edições e o processo de formação de sua coleção.

Respondendo a uma pergunta enviada por um internauta, Silveira mostrou suas ilustrações favoritas da obra de Lobato, que são de Voltorilo para “O Sacy” (1921) e Augustus para a capa e contracapa de “Reinações de Narizinho” (1947).

Em seguida, ele falou sobre a ilustração de “Histórias de Tia Nastácia” (1937), feita pelo argentino Raphael de Lamo, observando que sua arte é a que menos apresenta a personagem como “caricatura”. “Foi o que fez a Tia Nastácia mais natural”, explicou Magno, que ressaltou também a diferença na caracterização de Emília pelas mãos do ilustrador.

Em relação à boneca de pano, Silveira atribuiu à criação de J U Campos a Emília mais icônica, lembrando que em sua primeira aparição, por Voltolino, ela era representada como uma “bruxa”.

Ao citar Dona Benta, ele chamou a ilustração feita por Andre Le Blanc para “Obras Completas” (1947) de “a mais interessante”. “É uma Dona Benta super amorosa, super afável, é aquela avó que todos nós queremos ser, aquela avó ideal”, opinou o artista.

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“100 Anos de Narizinho” tem origem na conexão e na união das curadoras

Saiba como surgiu o evento e conheça mais sobre a parceria de Cléo Monteiro com as curadoras.

Instagram, pandemia, sinergia. Estas podem ser consideradas as palavras-chaves da origem do evento “100 Anos de Narizinho”, evento que marca o centenário de personagens inesquecíveis de Monteiro Lobato e a parceria entre a idealizadora Cleo Monteiro Lobato e as curadoras Mari Salmonson, Sônia Travassos e Mônica Martins.

Tudo começou em meados de fevereiro, segundo Cleo, que tendo há pouco começado a usar o Instagram, descobriu pela plataforma o livro “Emília 100”, da Carol Pimentel, iniciando, assim, uma conexão virtual com a editora da obra comemorativa.

Conexão essa que a bisneta de Monteiro Lobato afirma ter acelerado entre as pessoas com o período da pandemia do coronavírus. “É muito interessante pra mim isso, porque antes eu me sentia longe de todo este universo por morar nos Estados Unidos, mas agora parece ter dado uma turbinada e me sinto tão perto, tão presente no mundo de Lobato que eu mesma nem acredito”, contou Cleo.

Sem estar em contato com as parceiras ao vivo e as cores, a herdeira do autor garante que a ausência do contato físico não faz diferença. Resistente a conexões neste universo online, Cleo se diz, agora, fascinada com a dimensão na qual está inserida com o andamento do projeto.

“Isso é muito importante porque eu só consigo trabalhar com quem estou íntima e energeticamente conectada”, disse a curadora, que confessou que liga para cada participante das lives, antes do encontro, para estabelecer uma sintonia “de mente, de coração e de espírito” com a pessoa.

“Assim foi com as meninas, este alinhamento que passa como uma flecha através do coração”, avaliou Cleo, que apoiou financeiramente a obra de Carol Pimentel.

Metamorfose despertou interesse em projeto

No dia 25 de dezembro, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, primeiro livro infantil de Monteiro Lobato, comemora 100 anos. A obra, que abre a série de histórias do “Sítio do Picapau Amarelo”, passou por uma série de evoluções até chegar em “Reinações de Narizinho”, em 1931. Foi exatamente este processo de metamorfose, de um livro fino de capa dura a uma obra composta por 11 histórias que influenciam milhares de crianças há 100 anos, que motivou Cléo Monteiro Lobato a apostar no projeto. – Vale lembrar que estas transformações estarão disponíveis, com informações do ilustrador Magno Silveira, que falou sobre o assunto em uma live com Cleo, no evento.

ASSISTA A LIVE https://www.instagram.com/p/CGn-MUqpRBW/

Além de Narizinho, que dá nome ao livro, a data marca também o surgimento de outros personagens memoráveis como Emília, Tia Nastácia, Dona Benta e o próprio Sítio do Picapau Amarelo, oportunidade ideal, de acordo com Cleo, para aproveitar o estilo das ilustrações de Mari Salmonson, a especialidade de Sônia Travassos e os projetos de Magno Silveira e Mônica Martins, que idealizaram exposições referentes à data, para o centenário

“Foi uma questão de sinergia. Todos já tinham suas ideias e eu gosto de juntar pessoas. Juntos somos mais fortes!”, contou a bisneta de Lobato, que convidou também para o evento um grande amigo de Taubaté, Pedro Rubinho. No entanto, o rapaz, que está envolvido com o trabalho “Ocupa Saci” não pôde se juntar às parceiras, embora tenha colaborado com o projeto ao sugerir a necessidade de estabelecer um ponto fixo para a ideia.

“Isso fez cair minha ficha de que se estamos celebrando 100 anos do livro foi a coisa mais importante para pegar o fio da meada”, disse Cleo, que tem se reunido semanalmente com as demais curadoras há meses, contando também com o apoio técnico de Priscila Silva.

“Foram milhares de horas conversando sobre como fazer, criar, idealizar, monetizar etc, decisões que têm sido sempre tomadas democraticamente”, contou Cleo, que aposta na visibilidade de toda esta parceria e no reconhecimento de cada trabalho realizado.

3 DICAS DE LIVROS DE MONTEIRO LOBATO, O PAI DA LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA.

  1. Não tem jeito de falar de livros infantis e não lembrar do grande escritor Monteiro Lobato. São tantos personagens marcantes, cujas histórias embalaram a nossa infância e juventude e na vida adulta nos convidam a voltar no tempo e ser criança de novo.

    No dia Nacional do Livro Infantil, selecionamos algumas obras que vocês podem encontrar facilmente para aproveitar uma leitura de qualidade e viajar junto da turminha do nosso amado Sítio do Picapau Amarelo.

    Então, vamos lá?

    1. A Pescaria

    O tempo das jabuticabas já tinha passado, mas Narizinho foi até o pé ver se ainda conseguia apanhar algumas. Como as jabuticabas tinham acabado de vez, resolveu ocupar o tempo com outra coisa: ensinar Emília a pescar. Sem muito esforço, convenceu Tia Nastácia a parar o serviço de casa e ajudá-la a transformar um alfinete em anzol. Também puxaram um pedaço de linha da barra da saia da menina e improvisaram uma varinha com um pedaço de galho.

     

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    1. As aventuras de Hans Staden

    Completa o volume a narrativa feita por dona Benta das celebres Aventuras de Hans Staden. Este aventureiro alemão veio ao Brasil em 1559 e esteve nove meses prisioneiro dos tupinambás, a assistir cenas de antropofagia e à espera de ser devorado de um momento para outro. Mas salva-se. Volta para a Alemanha e lá publica o seu livro: o primeiro que aparece com cenário brasileiro e um dos mais pungentes e vivos de todas as literaturas. – Volume com 144 páginas.

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    1. Fábulas

     Neste livro Monteiro Lobato reescreve as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, mas de modo comentado. A novidade do livro está justamente nestes comentários, em que as fábulas são criticadas com a maior independência – e Emília chega a ponto de "querer linchar" uma delas, cuja lição de moral pareceu-lhe muito cruel. Um livro encantador, em que o gênio dos velhos fabulistas é singularmente realçado pelos diálogos entre os meninos, que a inventiva de Monteiro Lobato vai criando com a maior agudeza e frescura (1922).

    COMPRE O LIVRO: http://globolivros.globo.com/livros/fabulas-nova-edicao

    E aí, qual desses você gostaria de ler no Dia Nacional do Livro Infantil? Esperamos que vocês aproveitem esse dia lendo sem moderação! Até a próxima.

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ETAPA ENCERRADA

DE VOLTA AO SÍTIO – VI – JUCA

De volta ao Sítio

Por Décio Diniz 

 

VI – Juca

– Pois bem, senhor Escritor de cartas, temos que arrumar algumas coisinhas no que diz respeito a sua pessoa.

– O que você vai aprontar, Emília?

– Vou consertar meu visitante para que ele fique no ponto para entrar para nossa turma. Não é isso que ele quer?

– Consertar, Emília? Que estória é essa? E desde quando ele é seu visitante?

– Meu visitante porque eu vou deixá-lo no ponto para que esta visita dê certo. E vou consertar, sim. Com uma mexidinha aqui, outra acertadinha ali, este sítio vai ser visitadíssimo por ele.

– E o que você quer consertar em mim, Emília?

– Precisamos começar pelo seu nome.

– O que tem de errado nele?

– De errado nada. Mas precisamos de um apelido para você. Ninguém chama o Pedrinho de Pedro ou a Narizinho de Lúcia.

Emília fez cara de quem procurava um apelido em sua cabecinha. Olhou para "seu" visitante, franziu a testa, bateu o pé.

– Acho que dona Emília não está muito inspirada hoje – comentou o Visconde, com ares de deboche.

– Juca!

– Juca?

– Juca. Ju-ca. Juu-Caa. Ele tem cara de Juca.

– Por que Juca, Emília?

– Olhe bem, Pedrinho. Ele não te lembra alguém?

– Essas sobrancelhas…

– Isso mesmo! Ele é a cara do Monteiro Lobato. E o apelido dele quando criança era Juca.

Ficou assim resolvido. O "visitante da Emília" de agora em diante era Juca.

– Agora só falta uma coisa. Fechem os olhos todos.

Quando todos obedeceram, Emília cochichou ao ouvido de Juca: "Faz-de-conta que você ainda é criança!"

– Prontíssimo! Podem abrir os olhos.

Todos ficaram surpresos com a ideia da Emília. Juca era agora um garoto, assim, da idade do Pedrinho.

– Viva! Viva o Juca criança!

Juca olhava para si mesmo, numa mistura de susto com alegria.

– O que dona Benta vai dizer disso? – perguntou o Visconde.

– Vai dizer o que sempre diz: "Meu Deus, e eu que pensei que já tinha visto de tudo neste sítio!" E depois vai se derreter de amor ao perceber que ganhou um novo neto. Mas isso fica pra depois. Agora vamos continuar mostrando o sítio para o Juca.

Emília agarrou a mão de Juca e saiu correndo para o pomar.

– Vamos, Juca! Vou te mostrar o ribeirão.

Narizinho e Pedrinho correram atrás.

– Essa Emília não muda nunca. Se apoderou do anjinho, do Quindim, e agora do nosso novo amigo.

– Pode deixar, Narizinho. Vou ensinar o Juca a como lidar com essa bonequinha que se acha a dona do mundo.

E o Visconde correndo atrás deles:

– Ei! Esperem por mim…

Visite as redes sociais do Décio Diniz para prestigiá-lo por essa linda homenagem: Facebook – Instagram.

DE VOLTA AO SÍTIO – V – A CHEGADA

De Volta ao Sítio

Por Décio Diniz

V – A Chegada

Tia Nastácia sempre era a primeira a se levantar. O ar fresco da manhã, antes do sol começar a aquecer o dia, lhe era muito reconfortante. Saía para o quintal e sentia o frescor das folhas molhadas pelo orvalho. Depois, na cozinha, começava a encher a casa com aquele aroma delicioso de café.

– Bom dia, tia Nastácia!

– Bom dia, Emília! De pé, já tão cedo? O que a bonequinha vai aprontá hoje?

– Ora! Hoje vamos receber o visitante misterioso de dona Benta.

– Hoje? Mas a sinhá nem respondeu a carta ainda.

– Eu respondi. Detesto esta estória de ter que esperar. Faz-de-conta que o ilustríssimo senhor Visitante recebeu minha resposta e já está de malas prontas. Daqui a pouco, depois do café, estaremos todos na porteira para recebê-lo.

Tia Nastácia às vezes ainda parecia se surpreender com as ideias da Emília. "Ninguém pode mesmo com essa bonequinha", pensou, enquanto tirava os pãezinhos do forno.

Como dizia Narizinho, naquela manhã Emília estava "com a corda toda". Tirou todos da cama, um por um, apressou tia Nastácia para servir o café e logo estavam todos na porteira, liderados pela bonequinha.

– Você tem certeza de que ele chega hoje, Emília?

– Claro, Pedrinho! Confie em mim.

– Por que esse seu interesse tão grande nessa visita, Emília? Depois que eu li a carta, você tomou conta da situação, como se fosse uma de suas reinações.

– Pois não foi ele mesmo quem pediu minha ajuda?

Dona Benta balançou a cabeça, concordando.

Emília olhava para a estrada, apertando seus olhinhos de retrós.

– Vejam! Ele está chegando. Não tem cara de vovô não. Deve ter uns quarenta anos.

O "convidado" de dona Benta trazia uma mochila nas costas, e ao avistá-los na porteira acenou, com um sorriso no rosto.

– Ele está com aquela cara de quem acabou de encontrar algo que procurava há muito tempo – cochichou Emília no ouvido de Pedrinho.

– Tenha modos, Emília!

Dona Benta adiantou-se, cumprimentando o homem que chegava na porteira:

– Bom dia! Seja bem-vindo. Creio que o senhor é quem me escreveu de São Paulo.

– Bom dia, dona Benta! Sou eu mesmo. Mas, por favor, não me chame de senhor. Sempre quis ser seu neto.

– Acho que o senhor não tem idade para ser neto da dona Benta, não.

– Emília!

– Não se preocupe, dona Benta, Emília tem razão. Às vezes penso que ainda tenho a idade do Pedrinho! Sempre quis participar das aventuras com vocês, mas acho que cheguei tarde.

– Também não é assim – lembrou Pedrinho. Tia Nastácia já foi com a gente para a lua, a vovó para a Grécia.

– Isso mesmo, senhor Adulto. Tudo depende de você passar pelo nosso teste.

– Teste? Como assim, Emília?

– O teste da imaginação. E acontece que você já passou. A resposta que lhe mandei foi pelo faz-de-conta, e você fez tudo direitinho como lhe falei.

– Quanto à imaginação, sou igual ao Pedrinho e Peter Pan. Parei de crescer.

– Ótimo! E tenho uma ideia que vai deixá-lo ainda melhor.

Emília pegou a mão do visitante e saiu correndo para o quintal, seguida por Narizinho, Pedrinho e Visconde.

O saci e Monteiro Lobato – Blog Randomicidades

Coisas que escuto demais: “Lobato infantilizou o saci”, “Saci NO ORIGINAL é muito mais sombrio do que em Lobato”, etc. Isso quando não vem alguém que realmente se perdeu dizer que o autor do Sítio “inventou o mito do saci”. Continue lendo este artigo para escapar dessa besteira.

De começo: é comum confundir o trabalho de ficção folclórica com de registro folclórico. Folclore é literatura oral, por isso sua forma é imprecisa, plural. Quando se faz literatura é preciso escolher uma versão, então sim, a ficção sempre será limitante. Mas Lobato fez os dois!

Lobato estoura em 1914 fazendo crítica dura ao caboclo com o tipo Jeca Tatu (anos depois ele revê e se desculpa). Com espaço na mídia, começa suas provocações. Em 1916, escreve frustrado com estátuas de gnomos encapotados no calor de SP. Melhor um papagaio, tico-tico… um saci. A crítica vai ganhando corpo até que em 1917 seu amigo, o biólogo Manequinho Lopes, pai do Parque Ibirapuera, faz esta escultura com o saci que ouvia na infância: com três dedos, espora feito galo para trepar nos cavalos, mão furada, orelha de morcego, carapuça vermelha de cuia.

LEIA O MATERIAL COMPLETO EM: randomicidades.

 

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DE VOLTA AO SÍTIO – IV – ESTRELAS

De Volta ao Sítio

Décio Diniz

IV – Estrelas

Aquela noite Narizinho foi para a cama com os olhos pesados de sono. Deitou-se e logo dormiu. E sonhou. Sonhou com o céu pontilhado de estrelas. Mas era o céu mais bonito que já tinha visto. As estrelas voavam de um lado para o outro e algumas pareciam descer quase que até a ponta de seu nariz. "Que maravilha! Parece até que estou viajando pelo céu novamente."

– Não é lindo, Narizinho?

– Emília! Você também está aqui?

– Que estória é essa, Narizinho? Sempre dormi aqui com você. Parece que está sonhando.

Narizinho percebeu que não era sonho. Estava em seu quarto, junto com Emília. E as estrelas eram…

– Não são lindos meus vaga-lumes?

– Parecem estrelas passeando pelo céu!

– O Visconde me convenceu que não seria correto prender os vaga-lumes dentro da garrafa só para fazer um abajur. Então combinei com eles que iluminassem nosso quarto esta noite e amanhã estão dispensados.

– Ficou lindo, Emília! Acho que vou dormir e sonhar que estamos passeando pelo universo outra vez. Boa noite.

– Boa noite, Narizinho.

Emília, na verdade, não dormia. Fingia dormir. Passava as noites raciocinando com sua cabecinha de macela, filosofando sobre a vida, planejando novas aventuras. Naquela noite, como não poderia deixar de ser, ela pensava na carta que dona Benta havia recebido.

"Que estória será essa de um menino que passou sua infância aqui no sítio? Quantos anos será que ele tem hoje? Será um simpático vovô como a dona Benta? E se Pedrinho estiver certo? Se for alguém querendo fazer um filme sobre o sítio? E se for um diretor famoso de Hollywood, desesperado para me contratar? Já estou vendo o cartaz do filme: A marquesa de Rabicó, estrelando… Emília! Mas 'Rabicó' é um nome nada artístico. Ficaria melhor A marquesa do Picapau Amarelo. Melhor ainda, A princesa do Picapau Amarelo. Mas não dá. A princesa daqui é a Narizinho. Foi ela quem se casou com um príncipe. Sempre falei que eu deveria ter me casado com um príncipe, ou um rei!"

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DE VOLTA AO SÍTIO – III – FAZ-DE-CONTA

De Volta ao Sítio

Por Décio Diniz

III – Faz-de-conta

Depois do jantar todos estavam a postos na sala, esperando por dona Benta. Tia Nastácia já havia sentado no sofá e fechava os olhos de sono.

– Não disse que ela já sabe da novidade? Já dorme tranquila o sono dos despreocupados, enquanto a gente fica aqui morrendo de curiosidade.

– Quieta, Emília! Deixa a tia Nastácia em paz. Vovó já está chegando.

Dona Benta entrou com um envelope na mão, e sentou-se em sua cadeira de balanço.

– Hoje recebi esta carta de São Paulo.

– São Paulo? De quem, vovó? – perguntou Narizinho.

– Algum restaurante famoso querendo contratar tia Nastácia? – brincou Pedrinho, rindo-se da pobre Nastácia que abria os olhos, assustada: "Que foi?"

– Que restaurante nada. Para mim é do Dom Pedro!

– Que Dom Pedro, Emília?

– Aquele que deu o "brado retumbante" às margens do rio Ipiranga, ora! Isso não foi em São Paulo?

– Acorda, Emília. Isso foi a quase duzentos anos!

Dona Benta ria-se daquilo tudo.

– Deixem a imaginação para depois, criançada. A carta não é de nenhum restaurante, muito menos de Dom Pedro I. Escutem que eu vou ler para vocês: "Querida dona Benta, há muito queria lhe escrever…"

Quando dona Benta terminou, Emília estava pensativa, com os dedos no queixo, olhar para cima.

– Então, pessoal, o que vocês me dizem disso? – perguntou dona Benta.

– O que será que ele quer aqui no sítio, vovó?

– Quem sabe ele quer fazer um filme, Narizinho! Ou uma entrevista, ou um documentário para a televisão?

– Será, Pedrinho? Ele disse que sente saudade daqui sem nunca ter vindo ao sítio.

– Mas disse também que em seus sonhos passou a infância aqui conosco – lembrou o Visconde.

– Esta parte me interessa – gritou Emília. Se ele não é mais criança, mas esteve aqui quando criança, e foi em sonho, então tem a ver com o faz-de-conta, e de faz-de-conta eu entendo.

– E ele apelou para você, Emília. Não sabe como chegar até aqui, mas acredita que você tem uma solução para isso.

– É claro que tenho. É como eu sempre digo, adulto se aperta por tão pouca coisa!

– E qual é a solução, Emília?

– Responda a carta, dona Benta. Diga que venha sim, que queremos conhecê-lo e descobrir o que ele quer realmente. Diga que venha logo porque já estamos esperando.

– Ela fala como se fosse a dona do sítio!

– Sei muito bem que a dona é a sua avó, Narizinho! Mas sei também que dona Benta nunca faria essa desfeita a alguém que quer conhecer o sítio.

– E não farei mesmo, Emília. Mas, afinal, ele quer saber como vir. O que eu respondo, bonequinha?

– Muito fácil. Diga para ele arrumar as malas, ficar prontinho e fechar os olhos com bastante força. Quando abrir novamente estaremos na porteira para recebê-lo.

 

DE VOLTA AO SÍTIO – II – VAGA-LUMES

De Volta ao Sítio

Por Décio Diniz

 

II – Vaga-lumes

Narizinho, Pedrinho, Emília e Visconde entraram na cozinha, alvoroçados como sempre.

– Onde vocês estiveram, meus netos?

– No capoeirão, vovó – respondeu Pedrinho, esticando seu bodoque.

– Capoeirão, Pedrinho! Não me digam que estão atrás de onça novamente!

– Não, vovó.

– Nem da Cuca!

– Não, tia Nastácia. Não disse que íamos buscar meus vaga-lumes?

– Vaga-lumes? E precisava ir até o capoeirão?

– É que meus besouros-espiões me informaram que hoje haveria uma assembleia de vaga-lumes na mata, dona Benta. Fui lá contratar alguns.

– Contratar? Que estória é essa Emília?

– Contratá-los para trabalharem em meu abajur.

Emília mostrou a garrafa cheia de vaga-lumes.

– Ué, você não disse que ia guardá num sei o que aí dentro?

– Não ia guardar não-sei-o-que nenhum, tia Nastácia. Eu disse que ia colocar meus coleópteros aqui. Os vaga-lumes pertencem à ordem dos coleópteros, não sabia?

– Emília! Você sempre com essa mania de falar difícil para a tia Nastácia – reclamou Narizinho.

– Mas que estória de abajur é essa, Emília?

– Faz tempo que estou com esta ideia, dona Benta. Vou deixar esta garrafa em cima do criado-mudo da Narizinho. Aquele, que além de mudo é surdo como uma porta. À noite, os vaga-lumes vão acender suas luzinhas e iluminar o quarto. Não vai ser lindo?

– Emília, Emília…

– Eu já expliquei a ela, dona Benta – lamentou o Visconde.

– Que a emissão de luz dos vaga-lumes tem a finalidade de aproximá-los para o acasalamento, etc, etc. Mas eu já disse que meu abajur de vaga-lumes não tem nada a ver com isso. Tudo isso aí é por conta da biologia, zoologia, insetologia, sei lá. Meu abajur funciona conforme a emiliologia.

– Emiliologia! Ora essa! – resmungou o Visconde.

– Calma, calma, vamos esfriar os ânimos. Nastácia logo vai servir o jantar. Todos para o banho. E depois tenho uma novidade para contar a vocês.

– Novidade? Pode me contar agora, dona Benta. Sou de pano, não preciso tomar banho nem jantar.

– Nada disso, Emília. A novidade é para todos e eu contarei depois do jantar.

Emília fez cara de desapontamento e puxou o Visconde para a biblioteca:

– Vamos, Sabugosa. Conte mais sobre a ciência dos coleópteros.

Pedrinho e Narizinho saíram confabulando sobre qual seria a novidade.

 

Se você chegou até aqui concliu a  estapa 2/10. Parabens!!!! Corre publicar no seu perfil e marcar a @cleomonteirolobato e enviar no nosso direct, mas não esqueçe da #caçadasdesaci #caçadordosaci

DE VOLTA AO SÍTIO – I SAUDADE

De volta ao Sítio

Por Décio Diniz 

 

Em lembrança de Monteiro Lobato, que disse certa vez: "Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar".

"Esqueceste muito… e, no entanto, enquanto lês estas linhas, lembrar-te-ás vagamente das visões de outros tempos e lugares que divisavam teus olhos infantis" (Jack London).

I – Saudade

Naquele dia dona Benta havia recebido muita correspondência. Carta da filha Tonica, querendo saber de Pedrinho; um cartão-postal de Londres, mandado por uma das meninas que havia visitado o sítio para conhecer o anjinho que Emília trouxe da Via Láctea; além dos livros encomendados e revistas científicas para o Visconde, que agora lia em inglês e alemão. Em meio a tudo aquilo, uma carta de uma pessoa desconhecida. "Quem será?", pensou a boa senhora, "carta de São Paulo!"

Dona Benta abriu o envelope e começou a ler: "Querida dona Benta, há muito queria lhe escrever. A todos vocês! Não me conhecem, mas sinto muita saudade de todos. Em meus sonhos, passei minha infância com vocês, nesse lugar maravilhoso onde moram. Sabe o que é sentir saudade dum lugar onde nunca se esteve? Pois bem, não sou mais criança. Mas a saudade tem apertado e, de repente, o desejo de estar 'novamente' aí. Gostaria muito de sua permissão para fazer-lhes uma visita. Pedrinho, Narizinho e Emília não vão se entusiasmar com a visita de um adulto, mas, chegando aí dá-se um jeito. Mas, ainda há um probleminha. Não sei como chegar! A senhora sabe, adultos se perdem um pouco nestas coisas da imaginação. Será que a Emília pode me ajudar? Aguardo resposta. Com carinho, …"

– Então teremos visita. Preciso avisar essa turminha.

Dona Benta levantou-se e foi até a varanda procurar pelas crianças.

– Narizinho! Pedrinho! Emília! Por onde será que anda esse pessoalzinho?

Nada das crianças aparecerem. Nem Emília, nem Visconde. Deviam estar no ribeirão, ou então de conversa com tio Barnabé.

– Nastácia, você sabe onde foram as crianças?

Tia Nastácia estava na cozinha, preparando o jantar. Já havia dado uma corrida no Rabicó que aparecera por ali procurando um lanchinho.

– Sei não, sinhá. Emília esteve por aqui me pedindo uma garrafa, mas não disse pra onde ia.

– Garrafa? Estão caçando saci outra vez?

– Não, sinhá. Ela disse que era pra guardá um tar de… de… sei lá, esqueci!

Dona Benta balançou a cabeça, rindo.

– Recebi uma carta, Nastácia. Duma pessoa de São Paulo, querendo nos visitar.

– Que pessoa, sinhá? Argum conhecido do Visconde?

– Não. Um garoto que não conhecemos, mas que diz ter passado sua infância aqui, com meus netos.

– Que istória é essa, sinhá? Como a gente num conhece se ele já veio aqui? Será que é o tar de Peter Pan?

– Não, Nastácia – riu dona Benta – na verdade é um garoto que já cresceu. Diz aqui na carta que já é adulto e sente muita saudade daqui. Mas não sabe como vir para cá. Pediu ajuda da Emília.

Tia Nastácia fez cara de quem não entendeu nada e mostrou à dona Benta o peixe que tirava do forno.

– Óia, sinhá. Uma delícia esse peixão que o tio Barnabé trouxe!

– É de dar água na boca, Nastácia. Daqui a pouco as crianças chegam morrendo de fome.

Mal dona Benta terminou de falar, escutou o barulho das crianças entrando pela sala.

– Vovó, vovó! Veja o que a Emília inventou!

Continua… 

VOCÊ SABIA QUE JOYCE CAMPOS, NETA DE LOBATO, NASCEU EM NOVA YORK?

Joyce Campos, mãe de Cleo Monteiro Lobato nasceu em Nova York. Mesmo sem saber uma palavra de inglês, aos 8 anos, ela ingressou na Escola Americana (American Graded School of Sao Paulo) graças à certidão de nascimento Americana! Imaginem a dificuldade que passou quando a professora percebeu que não sabia falar uma palavra de Inglês! 

Por isso, a relação de Cléo com os Estados Unidos, onde vive atualmente, se deu desde a infância. Ela ingressou no universo bilíngue com apenas 6 anos, quando, assim como a mãe, entrou para a escola Americana. Curiosamente, Cleo demorou 31 anos para ir pela primeira vez aos EUA.

Sua família sempre valorizou a aprendizagem fluente do idioma devido à estadia de Monteiro Lobato nos Estados Unidos e aos laços comerciais deixados pelo avô de Cléo, J.U. Campos (artista) que morou e trabalhou diversos anos pela terra do Tio Sam.

OS 10 HOMENS MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DO BRASIL

A AH pediu a especialistas que indicassem os personagens mais importantes do país. O resultado revelou algumas surpresas como: Joaquim Nabuco e José Bonifácio.

Como qualquer lista, esta tem dolorosas omissões. Figuras importantíssimas, como Rui Barbosa, dom João VI e Sérgio Buarque de Holanda ficaram de fora por um voto. Nem o primeiro herói brasileiro, Tiradentes, figurou entre os mais votados. 

Leia a matéria completa AQUI.

O legado de Monteiro Lobato e uma entrevista com Ricardo Monteiro Lobato, seu bisneto

LOBATO, SEU BISNETO

 

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Ricardo Monteiro Lobato: Sou do comércio e tenho uma loja de automóveis. Faz 30 anos que estou nessa área, não sou escritor. Muitas pessoas fazem essa pergunta. Tenho vontade de começar a escrever, na realidade já tenho alguns textos escritos e penso em mais pra frente colocar isso em prática.

Conexão Literatura: Como bisneto de Monteiro Lobato, quando e como foi o seu primeiro contato com o Sítio do Picapau Amarelo?

Ricardo Monteiro Lobato: Meu primeiro contato com o Sítio do Picapau Amarelo foi pela Rede Globo, na década de 70. Sou de 71 e assisti o sítio pela tevê. Tive contato antes através dos livros com a minha mãe me contando as histórias do Lobato, mas o contato que tenho mais de memória afetiva foi realmente do Sítio do Picapau Amarelo da Globo, entre os anos 77 e 84, se não me engano.

Conexão Literatura: Poderia comentar sobre a importância das obras de Monteiro Lobato?

Ricardo Monteiro Lobato: Lobato é fundamental para a literatura brasileira como um todo, ele escreveu tanto para criança como para adulto, mas a obra infantil dele é um marco na história literária do Brasil. Ele foi o precursor para escrever para as crianças. Foi o primeiro a escrever diretamente para as crianças se preocupando com elas e simplificando a escrita. Lobato foi um visionário nesse sentido, ele fez muito pelo Brasil de um modo geral e a importância dele é fundamental para a formação de diversas gerações, pensamento crítico, desenvolvimento das crianças, desenvolvimento intelectual e emocional. A leitura de Lobato é fundamental, suas obras também misturam ficção com realidade e é uma obra única que todos deveriam ler.

Conexão Literatura: Lobato também foi editor?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim. Lobato foi o primeiro editor brasileiro a editar livros no Brasil, pois antigamente os livros eram importados da Europa. Lobato foi a primeira pessoa a montar uma editora aqui, isso em 1920. Ele criou a Monteiro Lobato & CIA. Em 1918 ele comprou a Revista do Brasil e depois ela se tornou a Monteiro Lobato & CIA. Ele importou todo o maquinário e começou a produzir livros e com isso reduziu o custo dos livros, deixando mais acessíveis para a população, pois eles eram caros justamente por serem importados. Além disso ele modernizou as capas, ele era também visionário na área de marketing. Antes as capas eram sem graça, em tons pastéis e sem ilustrações, então ele modificou isso para as pessoas se interessarem ainda mais pelos livros também pela capa, colocando ilustrações e cores chamativas nelas. Ele foi muito importante nessa área. 

Conexão Literatura: Você possui alguns objetos importantes de Monteiro Lobato em sua coleção. Qual deles mais desperta a sua atenção e por quê?

Ricardo Monteiro Lobato: Tenho vários objetos importantes dele. Tenho uma máquina filmadora a corda. Ela é linda. Ele era uma pessoa à frente do seu tempo, pois naquela época ele já fazia filmes. Tenho também um jogo de xadrez lindo que era dele, datado do ano de 1900, todo feito a mão. Tenho também aquarelas, quadros pintados por ele e vários livros antigos que era da sua coleção. Mas a peça que mais desperta minha atenção é a máquina de escrever que foi dele. Ela está comigo. É uma Hamilton portátil e foi com ela que ele escreveu boa parte da sua obra, ele adorava essa máquina. Lobato ganhava muitas máquinas de escrever dos fabricantes. Ele teve muitas em sua vida, mas essa Hamilton era a sua predileta e eu a levo sempre que posso em alguns eventos em que participo.

Conexão Literatura: E sobre o concurso literário Pequenos Escritores – Lobato Para Crianças?

Ricardo Monteiro Lobato: Fizemos um piloto em parceria com a Anglo de Sorocaba e a gente abriu para as escolas também de Sorocaba. A ideia do concurso foi a de justamente incentivar à leitura e a criatividade para as crianças. Foi um sucesso, tivemos quase 400 trabalhos inscritos num prazo de 1 mês. Fizemos a entrega dos prêmios para cada vencedor agora no começo de outubro, demos uma coleção de 8 livros do Imaginário do Lobato. Planejamos fazer um concurso semelhante no ano que vem, pois o que fizemos esse ano foi incrível, tivemos respostas muito legais das crianças. O tema era como seria o Sítio do Picapau Amarelo na atualidade. A Emília virou youtuber. A tia Nastácia virou Master Chef e assim por diante, desenhos mostrando o Sítio com árvores com wi-fi. Foi engraçado e muito legal essa experiência.

Conexão Literatura: Em Mairiporã, interior de São Paulo, existe um espaço temático do Sítio do Picapau Amarelo. Poderia comentar?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim, é um espaço temático licenciado da Globo que a gente tem contrato. É uma réplica do Sítio que passou na televisão. É um local que a gente vai de manhã, chega às 10hs e passa o dia até às 16hs. Lá tem o laboratório do Visconde, tem a casa da dona Benta onde o visitante poderá comer bolinho de chuva com a tia Nastácia na cozinha, a dona Benta conta uma história na varanda, tem a gruta da Cuca e o Reino das Águas Claras. É um lugar lindo na beira da represa de Mairiporã e eles abrem aos finais de semana para grupos de famílias visitarem e durante a semana para visitação das escolas. Vale a pena conhecer. Fiz o aniversário do meu filho lá recentemente, em julho, e foi um grande sucesso. Convidamos 100 pessoas e todas amaram. É um programa que recomendo. 

Conexão Literatura: Como o leitor interessado poderá saber mais sobre você e Monteiro Lobato?

Ricardo Monteiro Lobato: Os interessados poderão saber mais no meu instagram, que é @rmonteirolobato. Tenho feito um trabalho por todo o Brasil e fora dele. Tenho parceria com o Japão, Alemanha e Inglaterra de perpetuação do legado do meu bisavô com as novas gerações e de resgate com as mais antigas. O Lobato desperta uma memória afetiva incrível nas pessoas e nos lugares em que vou elas me abraçam emocionadas agradecendo por esse trabalho, por ter levado até elas essa recordação desse momento importante na vida delas, pois normalmente em algum momento da infância a criança leu Lobato. No meu instagram tem muitas informações e imagens, além do site que tem toda a cronologia da história do Lobato e outras informações: www.monteirolobato.com. Tem também o meu projeto “Viva Lobato", que lancei agora em outubro de perpetuação de Lobato que estou levando nas escolas, uma palestra de contação de histórias com música e uma palestra feita por mim. É um projeto interessante que também estou divulgando em meu instagram: @rmonteirolobato

 

Conexão Literatura: Tanto em livros como na tevê, existem novos projetos em pauta?

Ricardo Monteiro Lobato: Sim, como acabei de dizer, tem o meu projeto Viva Lobato, que tem algumas frentes, sendo que uma delas é a parte lúdica para as crianças onde envolve uma palestra com fotos mostrando a vida do Lobato, uma contação de histórias baseada no Sítio, com música e com os personagens. Fazemos algo bem divertido. E tem também um curso para formação de professores de contação de histórias. Minha parceira nesse projeto é uma pedagoga, que é a Monisa Maciel que é de Sorocaba, ela é especialista em contação de histórias. Ela faz o curso de contação e eu faço uma palestra de mais ou menos uma hora e meia e bem recheada falando bastante sobre vários temas da vida do Lobato. Esse curso é baseado na obra do Lobato para os professores aprenderem contação de histórias baseadas no Sítio. Tenho também outros projetos para o ano que vem que ainda estão no forno, mas que por enquanto não posso comentar.

Perguntas rápidas:

Um livro: A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato.

Um (a) autor (a): Monteiro Lobato, sou fã nº 1 dele.
Um ator: Robert de Niro.
Um filme: O poderoso chefão.
Um dia especial: O dia em que fui no Sítio do Picapau Amarelo e fizemos o aniversário do meu filho. Foi um dia muito especial e que guardarei em minha memória com muito carinho.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Ricardo Monteiro Lobato: Agradeço pela oportunidade de levar um pouquinho de Monteiro Lobato para os seus leitores.

LOBATO RACISTA?

Está em voga nesse momento um debate sobre a obra de um dos maiores escritores brasileiros, Monteiro Lobato (1882-1948), que tem suas obras em domínio público, 70 anos após sua morte. O debate diz respeito ao conteúdo, principalmente referente ‘as obras infantis do Sítio do Pica Pau Amarelo, que supostamente, segundo alguns, seria racista. Leia na íntegra AQUI.

Sorocaba inicia no próximo sábado ‘Viva, Lobato’

Uma das histórias mais atuais da obra de Monteiro Lobato, “A reforma da natureza”, será narrada pela contadora de história Monisa Maciel no próximo sábado (28), às 19h, na Sala Fundec. A narrativa será entrecortada pela biografia do consagrado escritor infantil, que será contada pelo próprio bisneto, Ricardo Monteiro Lobato. O espetáculo marca a estreia do projeto “Viva, Lobato”, idealizado por Ricardo e Monisa, e terá a participação especial da Orquestra Experimental da Fundec, sob a regência do professor Paulo Afonso Estanislau. Os ingressos custam R$ 10 (preço único) e começam a ser vendidos amanhã.

Leia o restante da matéria no site Cruzeiro do Sul. 

 

“VIVA LOBATO”, PROJETO IDEALIZADO POR BISNETO DE MONTEIRO LOBATO SERÁ LANÇADO AINDA EM SETEMBRO

Convidamos todos os amantes da trajetória e das obras de um dos maiores escritores do Brasil, Monteiro Lobato, a participarem do lançamento do projeto “Viva Lobato”. O evento será sediado na Fundec Sorocaba, no dia 28 de setembro às 19h.

Ricardo Monteiro Lobato, bisneto de Monteiro Lobato, e Monisa Maciel, contadora de histórias e professora no Colégio Anglo Sorocaba irão trazer muitas novidades neste projeto que resgata e perpetua as obras de Lobato!

Marque na sua agenda, a venda de ingressos, no valor de R$ 10,00, será feita do dia 23 ao dia 27 de setembro, das 8h30 às 18h. No local do evento serão vendidos os ingressos remanescentes, a partir das 18h.

Contamos com a sua presença!

Histórias para Rabicó Dormir

Este é um livro muito especial que convida você a brincar enquanto aprende novas palavrinhas. Os moradores do Sítio do Picapau Amarelo são apresentados pela espevitada Marquesa de Rabicó, criada pelo genial Monteiro Lobato, de uma maneira divertida e lúdica que só mesmo a Emília, atrevida como ela só, é capaz de fazer.

Estas narrativas, tão gostosas de ler, tem aventura, humor e pode se transformar em um cativante e interativo livro de cabeceira. É só reunir os amigos, a família ou a turma da escola, pegar o lápis e a borracha e começar a aprender. Mas leia logo as Histórias para Rabicó Dormir, antes que o "porquinho marquês" deixe de lado as cascas de abóbora e resolva devorar as páginas do livro.  Boa leitura e boa diversão! 

Loja Virtual AQUI.

 

Ataque ao patrimônio cultural: “corrigir” textos de Monteiro Lobato

Toda a obra do escritor Monteiro Lobato, que faleceu no ano de 1948, encontra-se, desde o início de 2019, sob domínio público. Agora que já se passaram 70 anos da morte do escritor, ninguém precisa pedir qualquer tipo de autorização à sua família para reproduzir os textos de Lobato. No entanto, alguns editores, como Pedro Bandeira, se mostraram dispostos a alterar partes da obra de Monteiro Lobato, retirando e substituindo expressões consideradas “inadequadas”.

Confira o restante da matéria no site Diário Causa Operária. 

 

COMUNICADO URGENTE AOS PAIS E PROFESSORES

Olá, queridos pais e mães! Vocês sabiam que está acontecendo o Concurso Literário Pequenos Autores no colégio Anglo? Todos os estudantes do 1º ano do fundamental ao 3º do ensino médio podem e devem participar, sendo assim, seus filhos estão apenas esperando pela sua autorização e incentivo!


O Concurso conta com quatro categorias justas (envolvendo desenho e redação) para que todos tenham as mesmas chances de vencer e ganhar uma coleção com 8 livros do escritor infantil mais famoso do Brasil, Monteiro Lobato, entregues por nós, os seus herdeiros.

A parceria da escola, com a família Monteiro Lobato, com o concurso pequenos escritores do Fundamental 1 ao Ensino Médio, é uma ação que vem de encontro com muitos projetos de incentivo à leitura existente na escola.


Tanto nós, quanto o colégio Anglo, temos valores semelhantes, assim como o próprio Monteiro Lobato, um deles é de que a presença dos pais na vida acadêmica nas vivências educacionais é de grande importância para o desenvolvimento dos alunos.


Sendo assim, gostaríamos de convidar todos os pais e mães a incentivarem os seus filhos e filhas a se inscreverem no Concurso Literário Pequenos Autores, da família Lobato em conjunto com o colégio Anglo Sorocaba. Seja na parte de desenho ou redações, essa é uma oportunidade maravilhosa para estimular suas crianças e adolescentes à leitura e conhecimento da obra de Monteiro Lobato!


Vocês sabiam que Monteiro Lobato queria ser artista e não escritor? Ele até acabou estudando direito por vontade do seu avô, mas sua maior paixão era a arte. Isso mostra o quanto é importante que durante a vida os pequeninos passem por experiências como a que o nosso concurso está dando a oportunidade, assim eles podem descobrir sua paixão pela arte e escrita também!


Saiba mais sobre o concurso: bit.ly/ConcursoPequenosAutores
Contamos com a sua colaboração e a participação de seu filho ou filha! Com todo o carinho, Família Monteiro Lobato.

Prefeitura (de Taubaté) abre inscrição para “Projeto Lobatinhos do Futuro” em Taubaté

Nesta terça-feira (3) serão abertas as inscrições para 10ª edição do projeto “Lobatinhos do Futuro” em Taubaté. O Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato, que fica no Sítio do Picapau Amarelo, disponibilizou 30 vagas gratuitas destinadas a crianças entre 7 e 14 anos.

Confira essa matéria na íntegra no site Guia Taubaté, clique AQUI.

MONTEIRO LOBATO – BIOGRAFIA, OBRAS E 10 CURIOSIDADES SOBRE O AUTOR

Saiu uma matéria mais do que incrível sobre Monteiro Lobato no R7!

Formação, Publicações Polêmicas, Negócios de Monteiro Lobato, Literatura Infantil, Principais Obras, Jeca Tatu e muito mais.

Clique aqui para conferir esse conteúdo incrível na íntegra!

Se você chegou aqui competou a 3 etapa, parabéns!
Tire o print e envie para o instagram da @cleomonteirolobato.

Fique ligado que logo teremos mais dicas…

ETAPA ENCERRADA

 

VENCEDORES DO CONCURSO CULTURAL “NO MÊS DE LOBATO, O ESCRITOR É VOCÊ” BATEM UM PAPO COM A GENTE!

O concurso cultural “No mês de Monteiro Lobato, o escritor é você”, realizado no mês de maio de 2019 nas redes sociais de Monteiro Lobato, foi um sucesso, e vamos te mostrar como tudo isso foi realizado.

Dessa iniciativa, três vencedores foram contemplados com tirinhas lindas e profissionais, além de terem colocado a criatividade para fora, acreditando em todo o seu potencial. Foram diversos textos enviados por meio do Facebook e Instagram.

COMO FORAM AS VOTAÇÕES PARA O CONCURSO?

O time de herdeiros de Monteiro Lobato, composto por Cleo Hill, Ricardo Lobato, Paula Lobato, além de Álvaro Gomes, assessor da marca Monteiro Lobato, leu minunciosamente cada um dos textos enviados.

Após uma reunião para decidir quais eram os escolhidos do concurso, foram anunciados os ganhadores:

  • Memorias do Pica-Pau, o instafã criado por Luís Herrera, em primeiro lugar
  • Monisa Maciel em segundo Lugar
  • Carlos Pessoa em terceiro lugar

OS TEXTOS VENCEDORES

O concurso serviu para os fãs de Monteiro Lobato deixarem a criatividade e a inspiração pelo escritor os guiarem e rendeu muita interação e diversão a todos. As tirinhas ficaram por conta de Roberto Fukue, renomado ilustrador brasileiro, que soube sentir e transmitir cada texto. Veja a seguir, que bacana:

1º vencedor, Memórias do Pica-pau Amarelo (Luís Herrera)

"Emília andava incomodada com as injúrias do mundo, e Narizinho aflita em ver sua boneca assim, quis tirar a limpo o que estava acontecendo. 


Emília respondeu desbocada que por si só:
– O problema Narizinho, é a ignorância e a violência que reina, mas não compreendo, já que é a paz é o caminho. Espero que um dia possamos enxergar isso!" 

2º vencedora, Monisa Maciel

"Emília ao filosofar com o Visconde, relata que a vida é um grande pisca-pisca, até que não piscamos mais, que possamos viver intensamente com quem amamos, brincar, ler regado a chá e bolinho de chuva."

3º vencedor, Carlos Pessoa

"Antes da rua ficar vazia e sem vida. Antes dos livros virarem coisa de velho. Antes que o cinza substituísse o verde. Antes que a sabedoria do idoso fosse trocada pela internet. Houve um sítio. Houve uma boneca falante. Houve um sabugo de milho sabido. Uma tia cheia de histórias e uma dona cheia de sorrisos e ensino. Houve um tempo que ler era a única magia que fazia sentido."

Um bate papo com os vencedores do concurso

Foram mais de 20 dias de espera para saber qual o resultado do concurso cultural, o tema era livre, desde que tivesse ligação com Monteiro Lobato. O Sítio do Pica-pau amarelo foi a inspiração para grande parte dos participantes, inclusive os três vencedores.

Batemos um papo com eles para saber qual a importância de Monteiro Lobato e suas obras na vida de cada um.

Monisa Maciel

Do tempo da infância de Monisa, o que restou foi uma boneca em específico, a Emília que guardara com tanto apreço. Hoje, já adulta, a educadora lembra do início de seu trabalho como contadora de histórias, onde o primeiro projeto foi o Nascimento de Emília.

Uma coincidência, que também fez a contadora de histórias sentir ainda mais conexão com o autor foi o fato de sua filha ter nascido no dia do aniversário dele. Sobre manter as futuras gerações em contato com Monteiro, ela diz “Sempre ressalto a importância de apresentar Lobato às crianças. ”

Dica de livros: Reforma da Natureza, O nascimento da Emília e Memórias da Emília.

Carlos Pessoa

O primeiro contato de Carlos foi com os personagens do sitio do Picapau amarelo, na primeira adaptação da obra para a TV.  A partir daí, conhecendo o nome do autor, visitou a biblioteca de sua escola, e ainda menino iniciou as leituras sobre sua obra.

Ao longo dos anos, continuou acompanhando trabalhos de Monteiro Lobato, inclusive suas críticas e outros trabalho, Lobato havia se tornado uma grande inspiração. Para Carlos, nosso mundo enfrenta problemas hoje em dia, foi o que quis passar com seu poético texto enviado a nós.

“No texto que fiz, tentei captar a maneira como os jovens se afastam de leituras e de ter contato com a sabedoria para ficarem presas à tecnologia além do necessário”.

Dica de livros: Emília no País da Gramática, Dom Quixote das Crianças e Cidades Mortas.

Luís Herrera

Luís já conhecia e amava o Sítio do Pica-pau Amarelo, pois assistia na TV, e sabia que seu criador era Monteiro Lobato quando. Ao aprender a ler, uma de suas primeiras leituras foi Minhas Memórias de Lobato, livro de Luciana Sandroni. Foi a partir dessa leitura que o amor pelo Sítio se tornou uma enorme admiração também pelo autor.

Monteiro Lobato foi um incentivo à leitura, e o habito foi se tornando cada vez maior, e a conexão com o escritor também. Mas ao enviar seu texto para participar do concurso, jamais imaginaria que se tornaria o vencedor:

“A emoção que senti foi como se o próprio Lobato tivesse me escolhido. A sensação de saber que os representantes de Lobato me escolheram foi a melhor do dia.”

Dica de livros: Reinações de Narizinho, O Saci e Negrinha.

Revitalização da marca Monteiro Lobato

Monteiro Lobato foi um dos mais importantes escritores do Brasil. Suas obras para o público adulto acertaram em cheio e se tornaram memoráveis, imortalizando sua obra.

Urupês, Negrinha, Cidades Mortas e muitos outros, marcam a era literária conhecida pelo Pré-Modernismo, com características regionalistas e uma análise ácida à realidade brasileira. As duras críticas de Lobato ao governo o levaram à cadeia, já sua escrita o levou à eternidade.

Lembrado até hoje, deixou uma legião de fãs e sonhadores, que se viam nos personagens inesquecíveis do Sítio do Pica-pau Amarelo, consolidando-se entre o público infantil também. E quem aí não se lembra?

Dona Benta, Tia Nastácia, Quindin, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa a bruxa mais malvada e lembrada com cara de crocodilo, Cuca e também boneca mais faladora que o Brasil já teve.

A revitalização de Monteiro Lobato se faz para atualizar as crianças e manter todos os fãs sempre atualizados, informados e em contato com o mundo que o escritor oferecia em suas obras.

Gostou? Temos muitas curiosidades para você que ama Lobato, clique aqui!

GSHOW: NETA DE MONTEIRO LOBATO NEGA QUE AUTOR TENHA SIDO RACISTA

Conversa Com Bial desta segunda-feira, 3/6, promoveu um debate sobre Monteiro Lobato e seu legado para a literatura brasileira. Setenta anos após a morte do autor, cresce o debate sobre expressões racistas usadas em seus livros, especialmente ao se referir a Tia Nastácia, e sobre uma carta escrita para a Ku Klux Klan, movimento norte-americano que defende a supremacia da raça branca. 

Pedro Bialrecebeu as escritoras do livro “Reinações de Monteiro Lobato: Uma biografia”, Lilia Moritz Schwarcz e Marisa Lajolo, além de Joyce Campos Kornbluh, neta de Lobato, e Rosa Marya Colin, última atriz a interpretar Tia Nastácia na série Sítio do Pica-Pau Amarelo, para o bate-papo.

CONFIRA A MATÉRIA NA ÍNTEGRA!

EXPOSIÇÃO SOBRE ARTISTA PLASTICO AMANTE DE FOLCLORE GANHA VIDA EM MAIO

A exposição com a Vida e Obra de Villin, além de apresentar obras, fotos, vídeos e instalações, tem uma programação de palestras bem bacana, com inscrições gratuitas e on line. Fique ligado e garanta sua vaga!

Local: Praça Cornélio Procópio, 174 Sede Social PFFC

Quem foi Villin?

Considerado um dos melhores ilustradores do Brasil, o francês naturalizado brasileiro, Jean Gabriel Villin tinha uma grande paixão por nossa cultura e nosso folclore.

Em 1925, aos 19 anos, Villin, o artista plástico especialista em cerâmica, desembarcava em Porto Ferreira para trabalhar como desenhista na Fábrica de Louças. Mudou-se para São Paulo, onde foi ilustrador, funcionário público e se dedicou também à publicidade.

Nunca se desligou de Porto Ferreira, pois casou-se com a professora ferreirense Nalzira Pinto Cortez e estava sempre na cidade para onde mudou-se depois de aposentado e onde morou até sua morte em 1979.

Textos  retirados do Facebook oficial do evento.

 

TAUBATÉ SHOPPING RECEBE SEMANA LITERÁRIA MONTEIRO LOBATO

Matéria original: Vale News

A Semana Literária Monteiro Lobato tem início nesta terça-feira (16) e segue até domingo (21), no hall da Moviecom Cinemas no Taubaté Shopping. O tema do evento deste ano são os 100 anos da publicação do livro “Cidades Mortas” e o centenário da historiadora taubateana Maria Morgado de Abreu.

 A SML 2019 tem diversos convidados especiais em sua programação, como Renato Teixeira, um dos maiores representantes da música brasileira e vencedor de dois Grammys Latinos; o cartunista Maurício Ricardo, roteirista e desenhista do site Charges.com.br; o jornalista Leonardo Neto, finalista do International Excellence Award; a poetiza nordestina Maria Galindo, que lança seu novo livro “A Poesia de Maria”; a travesti e doutora em crítica literária Amara Moira; o jornalista Rodrigo Casarin, do blog Página Cinco no site UOL; o professor de ética e filosofia política da USP e ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro; e ainda os escritores João Carlos Dória e José Carlos Sebe.

Confira a programação completa:

Terça-feira (16)

19h: Lançamento do livro “Poesia de Maria”, com a presença da autora Maria Galindo

20h30: Encontro de mestres, com o músico Renato Teixeira e José Carlos Sebe, escritor e um dos grandes intelectuais do país

Quarta-feira (17)

19h: “Faces de Lobato”, um bate-papo com o premiado biógrafo Vladimir Sacchetta

Mediação: José Carlos Sebe

20h30: Bate-papo sobre o retrato do mercado literário brasileiro – com Leonardo Neto, da Publishnews

Quinta-feira (18)

19h: “Cidades Mortas”, bate-papo entre Joaquim Botelho, Diego Amaro e Francisco Sodero

Mediação: Lilian de Paula

20h30: Bate-papo “Lobato Vivo”, com os herdeiros de Monteiro Lobato

Sexta-feira (19)

11h: Festival Sítio do Pica-pau Amarelo – seleção de desenhos animados, que serão exibidos no Moviecom Cinemas

14h: Debate “Ciclos econômicos; de Lobato a era digital”, com Edson Trajano e José Wellington de Souza.

Mediação: Rômulo Chagas

15h45: “Cerâmica popular de Taubaté”, um debate sobre as históricas figureiras

17h30: Bate-papo com Renato Janine Ribeiro – professor de ética e filosofia política da USP e ex-ministro da educação

19h30: Bate-papo literário com Rodrigo Casarin, Editor do Página Cinco (UOL)

Sábado (20)

11h: Festival Sítio do Pica-pau Amarelo – seleção de desenhos animados, que serão exibidos no Moviecom Cinemas

14h: Filme “Taubaté em foco” – longa de 1927, musicado ao vivo, que será exibido no Moviecom Cinemas

16h: “Reinações de Emília”, um bate-papo sobre a famosa personagem

17h30: Bate-papo e sessão de autógrafos com a travesti e doutora em crítica literária Amara Moira

19h30: “Tecnologia e educação”, mesa-redonda com Maurício Ricardo, Danielle Jogo e Marco Giroto

Domingo (21)

11h: Festival Sítio do Pica-pau Amarelo – seleção de desenhos animados, que serão exibidos no Moviecom Cinemas

14h: Feira de autores independentes – conheça a produção literária da nossa região

14h/15h/16h: Oficina Ciência Divertida, com Visconde de Sabugosa – no espaço Domingo Cultural

18h: Culinária Caipira da Paulistânia, com Carlos Alberto Dória, um dos principais nomes da alimentação e gastronomia no país.

SEMANA MONTEIRO LOBATO EM TAUBATÉ

 

Prefeitura de Taubaté apresenta programação da 66ª Semana Monteiro Lobato

Já está disponível a programação da 66ª Semana Monteiro Lobato, que vai de 17 a 22 de abril, com atrações para crianças, jovens e adultos. A abertura oficial do evento será no dia 17 (terça-feira), às 19h30 no Teatro Metrópole, com apresentação do Projeto Guri.

A apresentação tem entrada gratuita com distribuição dos ingressos uma hora antes do espetáculo, na bilheteria do Teatro. A recomendação etária é livre.

Conhecendo a importância de Monteiro Lobato para a literatura brasileira, a Semana Monteiro Lobato existe para homenagear o ilustre autor, ressaltando sempre sua visão e contribuição através da literatura infantil para a história do Vale do Paraíba e do Brasil.

A Semana tem cunho artístico, cultural e pedagógico e compreende sempre o dia 18 de abril, data de nascimento do escritor. Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor e editor brasileiro pré-modernista. Considerado um dos maiores autores de histórias infantis, sua obra mais conhecida é O Sítio do Picapau Amarelo, composta de 23 volumes.

Atualmente, a Semana Monteiro Lobato é um dos principais acontecimentos dedicados à literatura infantil no país e oferece tradicionalmente ao público uma grande variedade de opções de informação e entretenimento.

Em Taubaté, cidade natal do escritor, a Semana Monteiro Lobato acontece no Sítio do Picapau Amarelo e em outras unidades culturais com programação variada, gratuita e indicada ao público de todas as idades. As atrações seguem divididas por dia:

Dia 17 (terça-feira)

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

ÁREA EXTERNA

das 09h às 11h e das 14h às 17h: Performance de Clown com os alunos de Teatro do Centro Cultural “Toninho Mendes” (Profº Gilson)

BRINQUEDOTECA

das 10h às 12h: Oficina Pedagógica Viseira dos Personagens do Sítio com V&A Produções

das 14h às 16h: Oficina Pedagógica “O Picapau Amarelo” com Cia. Philaderpho

TENDA CIRCO

10h / 11h / 15h / 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

PALCO

14h30: Balé do Projeto Esperança

15h30: Balé da Cidade

Dia 18 (quarta-feira)

Biblioteca Municipal de Taubaté (Parque Dr. Barbosa de Oliveira, s/nº, Centro)

das 09h às 11h: Contação de Histórias “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

Biblioteca do Quiririm (Rua João Botossi, nº 151)

das 14h às 16h: Contação de Histórias “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

Departamento de Ciências Sociais e Letras – UNITAU  (Rua Visconde do Rio Branco, nº 22, Centro)

19h30: Palestra “Algumas coisas a mais em torno de O Sítio do Picapau Amarelo” com o Profº Mestre Luzimar Goulart Gouvêa

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

PALCO

09h30: Coral Infantil (Fêgo Camargo)

14h30: Coral Infantil (Fêgo Camargo “Movidinhos a Corda”)

TENDA CIRCO

10h / 11h / 15h / 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

SALA ESCRITORES

10h: Lançamento do livro “Amor em Azul” da escritora Teresa Bendini

15h30: Performance de Arte Dramática da Escola Fêgo Camargo. Obra de Clarisse Lispector com Profº Denílson Campo

BRINQUEDOTECA

das 10h às 12h: Oficina Bilboquê Sapo Major-Agarra Engole Moscas  com Fabricando Arte Oficinas

das 14h às 16h: Oficina “Emília no Prato de Papel” com V&A Produções

Dia 19 (quinta-feira)

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

10h: Coral “Projeto Conviver”

14h30: Balé do Projeto Esperança

15h30: Balé da Cidade

BRINQUEDOTECA

das 09h às 17h: Projeto “Turma do Sítio em defesa do ECA” com PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil)

TENDA CIRCO

10h / 11h / 15h / 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

SALA ESCRITORES

15h30: Performance de Arte Dramática Escola Fêgo Camargo. Obra: “Capitães da Areia” de Jorge Amado com Profª Natasha

 

Dia 20 (sexta-feira)

 

Centro de Formação de Professores – Secretaria de Educação (Rua Emílio Winther, nº 108, Centro)

14h: Palestra “Os Desafios da Leitura na Escola” com o escritor Lucas Buchile

*Com entrega de certificados os participantes.

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

BRINQUEDOTECA

das 09h às 17h: Projeto “Turma do Sítio em defesa do ECA” com PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil)

TENDA CIRCO

10h / 11h / 15h/ 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

PALCO

10h: Integrarte Dança com Profª Andreia Garcia

14h30: Taubatechellos

15h30: Orquestra Dom Couto

Dia 21 (sábado)

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

PALCO

10h: Balé Infantil (Fêgo Camargo)

10h30: Coral “Vozes de Taubaté” sob regência da maestrina Denise Marques

13h30: Balé Infantil  (Fêgo Camargo)

15h30: Show “Monteiro Lobato Cantado” com Peu Júnior e Banda

BRINQUEDOTECA

das 10h às 12h: Oficina Pedagógica “O Picapau Amarelo”  com Cia. Philaderpho

das 13h às 15h: Oficina “Confecção de Chapéu do Peter Pan” com Fabricando Arte

das 15h às 17h: Oficina “Porta Retrato” com V&A Produções

TENDA CIRCO

10h / 11h / 14h / 15h/ 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

SALA ESCRITORES

14h: Encontro Literário com Academia Taubateana de Letras

Dia 22 (domingo)

Sítio do Picapau Amarelo (Av. Monteiro Lobato, s/nº, Chácara do Visconde)

PALCO

10h30: Orquestra Sinfônica de Taubaté

12h: Hora do Conto com Fabricando Arte

14h: Hip-Hop com o grupo Jeff Street Dance Company

BRINQUEDOTECA

das 10h às 12h: Oficina Pedagógica “O Picapau Amarelo”  com Cia. Philaderpho

das 13h às 15h: Oficina “Imã de Geladeira” com  V&A Produções

das 15h às 17h:  Oficina “Coroa da Branca de Neve e os Piratas” com Fabricando Arte

TENDA CIRCO

10h/ 11h / 14h/ 15h/ 16h: Teatro “O Mundo do faz de conta” com a Turma do Sítio

12h: Hora do Conto “As Fantásticas Histórias do Picapau Amarelo!” com Fabricando Arte

SALA ESCRITORES

14h: Bate-Papo e Lançamento do Livro “Um dia no Sítio do Picapau Amarelo” de Conceição Fenille Molinaro e do ilustrador Fábio Scarenzi

 

Exposições:

 

“Artes dos Alunos” com as turmas Experimental e Infantojuvenil da Escola Fêgo Camargo  (Profº Filipe Zandonadi).

Local: Sítio do Picapau Amarelo

de 17/04 a 30/04, de terça a domingo, das 09h às 17h

“JecaTotal”:  a trajetória do personagem Jeca Tatu nos livros de Monteiro Lobato

Articulação: Instituto de Estudos Monteiro Lobato, Magno Studio, CDPH/UNITAU

Local: Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (Rua XV de Novembro, nº 996, Centro)

de 18/04 a 18/05, das 09h às 12h e das 13h às 18h

“Reinações de Narizinho” (Técnica em Aquarela)

Pintor: Fábio Scarenzi

Local: Museu da Imigração Italiana de Quiririm  (Av. Libero Indiani,  nº 550, Quiririm)

de 13/03 a 30/04, de terça a domingo, das 09h às 17h

OBRA DE MONTEIRO LOBATO CAI EM DOMÍNIO E É ADAPTADA AO SÉCULO 21

Matéria original: Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

Desde o dia 1.º de janeiro, a obra de Monteiro Lobato está em domínio público, ou seja, os direitos autorais não mais pertencem exclusivamente aos descendentes. Isso acontece porque a proteção aos direitos é válida por 70 anos e termina a partir do primeiro dia do ano seguinte – como Lobato morreu em 1948, aos 66 anos, os direitos terminaram agora. Assim, é permitida a publicação da obra por qualquer editora, o que já resultou em um plano diversificado de edições (veja no quadro). Dentre todos os projetos, o mais ambicioso foi assumido pelo também escritor Pedro Bandeira, exímio conhecedor da obra lobatiana e que está ambientando para o século 21 as brincadeiras e ensinamentos da turma do Sítio do Picapau Amarelo.

“Minha adaptação protege o talento de Lobato”, assegura. “Autores geniais como Perrault, Andersen, Dumas ou Shakespeare têm sido adaptados sem parar. No caso de Lobato, quase toda sua linguagem e humor devem ser preservados e foi o que fiz. Mas tenho de mexer um pouquinho em detalhes como os xingamentos da Emília. Na época de Lobato, isso poderia parecer engraçado; hoje, porém, é um absurdo. Sua obra não perderá a qualidade se tirarmos, aqui e ali, xingamentos acachapantes como ‘sua negra beiçuda’.”

 

O escritor e ativista Monteiro Lobato (1882-1948)

 

O escritor e ativista Monteiro Lobato (1882-1948) Foto: Acervo Estadão

Acusações de racismo, aliás, vêm figurando em diversas discussões sobre o texto de Lobato, especialmente o direcionado ao público infantil. Bandeira faz uma contextualização. “Em muitos de seus artigos para jornais e em suas cartas, ele demonstrou-se um ardoroso racista, um eugenista de marca maior, um cultor da superioridade dos eurodescendentes. Logo ele, que era baixinho, franzino e feio como a mãe da peste”, diverte-se Pedro Bandeira. “Na primeira metade do século 20, quem negasse diferenças entre africanos, chineses e europeus seria chamado de maluco. Todo mundo acreditava em diferenças raciais, em ‘superioridades’ e ‘inferioridades’, até a ciência. A magia de Lobato, sem seus pequenos deslizes racistas, é imensa e é isso que sonho preservar para as próximas gerações, para que se encantem como eu.”

Pedro Bandeira faz questão de citar um detalhe que passa despercebido: Narizinho tinha a pele negra. Afinal, Lobato a descrevia como “uma menina de 7 anos, com a pele da cor do jambo”. “O jambo é vermelho-escuro, mais escuro que uma ameixa”, observa ele, irritado com a imagem disseminada a partir dos desenhos de Voltolino que, na capa de A Menina do Narizinho Arrebitado, de 1920, cria uma Narizinho “como uma inglesinha gorducha e loura feito uma espiga de trigo”. 

É essa personagem, aliás, que, aos 7 anos, fascina Bandeira, justamente por não ser mais uma criança tampouco uma pré-adolescente. “É uma idade de transição, em que o ser humano é solitário e se alimenta de sua prodigiosa imaginação. Nessa idade, as meninas falam com suas bonecas e elas respondem.” Por outro lado, o escritor não esconde sua antipatia por Pedrinho, o menino que vivia na cidade grande e que passava férias no sítio.

“Acho que Lobato não gostava dos meninos”, comenta Bandeira. “Pedrinho nada traz da vida urbana, nada acrescenta, não fala de tecnologias, de progressos que não existiriam no sítio. Aliás, ele se porta como se sempre tivesse vivido no campo – sabe construir arapucas para passarinhos e vive com seu bodoque a dar ‘botocadas’ a torto e a direito.” Bandeira nota que a postura do personagem é a de um “machinho agressivo”. “Ele chega no sítio e mergulha direto nos sonhos da prima. Nenhuma das aventuras proveem de sua imaginação. Em O Saci, ele é apenas um ouvinte das narrativas folclóricas do menino de uma perna só. Em Caçadas de Pedrinho, o protagonismo o tempo todo é de Emília. Aliás, esse é um livro que eu não ofereceria às crianças.”

Personalidade de múltiplas facetas, movido por sonhos e utopias, Monteiro Lobato era um homem que tomava partido sobre todos os assuntos polêmicos de sua época, defendendo suas posições em cartas e artigos que publicava na imprensa, sobretudo noEstado. Assim, Bandeira engrossa o coro dos que criticam o prazo de 70 anos para o domínio público. “A obra de Lobato estaria tendo uma sobrevida muito melhor se já se pudesse estar mexendo nela há duas ou três décadas.”

*

O QUE VEM POR AÍ

Biblioteca Azul. Editora deverá lançar A Chave do Tamanho e O Picapau Amarelo, neste ano

 

Companhia das Letras. Em fevereiro, deve lançar nova edição de Reinações de Narizinho, além da biografia 

juvenil de Monteiro Lobato preparada por Marisa Lajolo e a historiadora Lilia Schwarcz 

 

Editora Moderna. Pedro Bandeira adapta obras do Sítio para o século 21

 

‘Urupês’. Márcia Camargos prepara uma versão para o público jovem do livro de contos

 

Mauricio de Sousa. Desenhista vai lançar o livro Narizinho Arrebitado com a turma da Mônica e adaptação

de Regina Zilberman

 

 

 

BABEL: GLOBO LANÇA TRÊS LIVROS DE MONTEIRO LOBATO ANTES DO DOMÍNIO PÚBLICO

Matéria original:

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

REEDIÇÃO
Globo lança três livros de Monteiro Lobato antes do domínio público

Depois de anos de brigas entre os herdeiros de Monteiro Lobato e a editora Brasiliense, que publicava suas obras, a família ganhou e levou, em 2007, 56 títulos do autor para a Globo. Até o dia 31/12, a casa tem exclusividade sobre a obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Na virada do ano, com Lobato entrando em domínio público, algo muito aguardado pelo mercado editorial, qualquer editora vai poder publicar seus títulos. Para aproveitar os últimos momentos do reinado, a Globo, por meio do selo Biblioteca Azul, manda para as livrarias uma edição de luxo de Viagem ao Céu, publicado em 1932, com ilustrações originais de quatro artistas (acima, de J. U. Campos). Outros dois serão lançados até o fim do ano: A Reforma da Natureza e Urupês.

NÃO FICÇÃO – 1
Livros de guerra
Por falar em 1932, a Panda Books lança, só em dezembro, um livro sobre a Revolução de 1932 – seus 86 anos serão lembrados na segunda-feira, 9.
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O autor, Ricardo Della Rosa, é publicitário, neto de dois ex-combatentes e um dos maiores colecionares do assunto. A obra traz o histórico do movimento armado, descreve as diferentes frentes de mobilização e mostra seu legado. E traz fotos, documentos, cartazes de propaganda, cartas, mapas e itens inéditos da coleção do autor. A edição será de luxo, para colecionadores, e sairá pelo selo Livros de Guerra.

NÃO FICÇÃO – 2
Israel e Palestina
A Boitempo publica, em setembro, A Palestina Nos Livros Escolares Israelenses: Ideologia e Propaganda na Educação, da israelense Nurit Peled-Elhanan. Professora da Faculdade de Educação da The Hebrew University of Jerusalem, ela perdeu a filha em um atentado terrorista suicida de um palestino e seus filhos, no exército na época, foram pressionados a vingar sua morte.
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Ela decidiu analisar os elementos ideológicos da representação palestina em livros didáticos israelenses nas áreas de geografia, história e estudos cívicos. Para ela, os conteúdos legitimam a exclusão e a discriminação de palestinos e preparam as crianças para o serviço militar obrigatório.

FICÇÃO – 1
De outros tempos
Uma das principais autoras de romance de época, a americana Julia Quinn lança em agosto, no Brasil, o best-seller Uma Dama Fora dos Padrões. É o primeiro de sua nova série Os Rokesbys, saga que antecede a popular Os Bridgertons. No catálogo da Arqueiro desde 2013, ela já soma 900 mil exemplares vendidos no Brasil – e 10 milhões no mundo.

FICÇÃO – 2
Trilogia + 1
FML Pepper, autora da série Não Pare! (60 mil exemplares e 66 mil e-books vendidos e 3 milhões de leituras no Kindle Unlimited), lança na Bienal Máscaras: Histórias da Trilogia Não Pare!. Pepper foi a primeira brasileira a ter um contrato híbrido: ela autopublica o digital e a Valentina cuida do livro físico.

POESIA
Sonetos escolhidos
A Editora da Unicamp está lançando 20 Sonetos, de Luís de Camões, em edição comentada pela professora Sheila Hue.

EVENTO FRANCÊS VAI DISCUTIR O FUTURO DA EUROPA E ANALISAR OBRA DE LOBATO

Matéria original:  

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

A escritora e pesquisadora Márcia Camargos fala sobre Monteiro Lobato (1882-1948) nesta sexta, 15, no Salão do Livro de Paris. A partir das 17h (13h de Brasília), a pesquisadora fará uma apresentação sobre o escritor brasileiro, cuja obra caiu em domínio público neste ano. No evento, Camargos vai analisar qual o lugar do negro na obra de Lobato. “Foram traduzidos para o francês alguns textos: uma das primeiras e últimas cartas de A Barca de Gleyre, além de Oblivion, de Cidades Mortas e Negrinha. Também lerei um trecho traduzido de Reinações de Narizinho”, diz a pesquisadora, que divide a mesa com Rodrigo Lacerda.

Esse será apenas um dos diversos eventos do Salão que, neste ano, celebra a Europa. Isso porque, em maio, cidadãos dos 28 países-membros da União Europeia vão votar para escolher a Europa do futuro. “Os desafios que a Europa enfrenta nos próximos anos são numerosos”, dizem os organizadores do Salão, em comunicado oficial. “O continente deve olhar para o seu futuro e consolidar uma base comum para construir um modelo sustentável.”

Assim, a programação foi montada seguindo esse raciocínio. Autores cuja obra contribuem para esse debate estarão presentes nos encontros, que acontecem até segunda, 18, com nomes como o espanhol Javier Cercas, o italiano Erri de Luca e o filósofo alemão Peter Sloterdijk.

HÁ 6 ANOS PROJETO LEVA ALEGRIA E SUPLEMENTO PARA CRIANÇAS EM TRATAMENTO NA SANTA CASA E OUTROS HOSPITAIS

Matéria original do site O bom da Notícia

O projeto das Emílias, oriundo da Companhia do Sorriso de Mato Grosso, formado apenas por voluntários, há 6 anos leva alegria e esperança para crianças portadoras de doenças graves, como o câncer, e que estão em fase de tratamento. Alguns desses pequenos internados na Santa Casa de Cuiabá, correm o risco não ser mais atendidos, por conta do fechamento da unidade anunciado na segunda-feira (11).

Membro titular do projeto, a ex-corretora de seguros Carla Soler, fala com “amor” da causa, que comercializa bonecas Emílias – alusivo a personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo – com objetivo de ajudar famílias de crianças carentes, por meio da entrega do suplemento alimentar Ensure. O produto que tem custo elevado é consumido pelas crianças que estão em tratamento.

“Uma pessoa para ser voluntária é preciso muita coisa. Tem que trabalhar por amor, porque é um trabalho muito sofrido. A gente sai à noite nas ruas para vender as bonecas, muitas vezes as pessoas que já compraram falam assim: ‘nossa, mas eu já tenho uma coleção’. Então precisa ter autoridade para fazer isso”, explicou Carla.

Durante o dia, os voluntários fazem a visitação nos hospitais. O papel do voluntário além de atuar como ambulante, é fazer com que os pacientes se sintam mais esperançosos, dando amor e carinho. O momento de dor é transformado em alegria com a atuação desses voluntários vestidos de Emília.

O projeto não tem fins lucrativos. A ideia é vender as bonecas para angariar recursos para compra de ao menos três ou quatro caixas do suplemento por semana. No mercado, cada lata de Ensure de 900 gramas, custa R$100. No entanto, além de arcar com as despesas dos produtos, o Emílias oferece uma ajuda de custo para os voluntários, que deixam suas casas, muitas vezes abandonam a profissão, como o caso da ex-corretora Carla, para viver em benefício da comunidade.

“Eu trabalhava como corretora no banco do Bradesco. Tinha uma profissão. Hoje eu não consigo mais conciliar essas duas atividades, porque o projeto precisa quase que 100% do meu empenho. Além disso, tenho casa, filhos, marido e uma série de particularidades para gerenciar. Mas eu não terei coragem jamais de dizer não a essas famílias. Faço tudo por amor, voluntariado. A gente não ganha nem um real dentro do hospital, é um trabalho feito por amor. Já o trabalho de Emília a gente ganha uma gratificação, esse é o meu sustento”, contou a reportagem.

Carla enfatizou que está acompanhando a situação da Santa Casa de Cuiabá. Ela frisa que muitas mães estão preocupadas, com medo de serem despejadas. Por isso, o trabalho dos profissionais que compõe o projeto tem sido dobrado, para que esses pacientes, não sofram ainda mais em virtude das mudanças.

Desde a sua criação, em 2013, o Emílias sobrevive de doações e de recursos próprios. Para ajudar nessa causa, o interessado pode estar entrando em contato por meio dos telefone (65) 9 9297-6012 ou através da página no Facebook. Lá também estão disponíveis maiores informações.

Santa Casa fechada

A Santa Casa de Cuiabá suspendeu as atividades na última segunda-feira (11). A direção alega a falta de recursos para urgência e emergência na ordem de R$ 3,6 milhões que, deveriam ter sido repassados pela Prefeitura Municipal.

Devido a isso, os atendimentos em praticamente todos os setores da unidade foram suspensos, inclusive do Sistema Único de Saúde.

Conforme apurou O Bom da Notícia, a unidade segue apenas atendendo pacientes internados, em fase hemodiálise, e em tratamento de câncer.

Por: Karollen Nadeska, da Redação

NO SALÃO DE PARIS, PESQUISADORA ANALISA O LUGAR DO NEGRO NA OBRA DE LOBATO

Materia original do site Terra

Devido ao seu poder transformador, literatura é abismo. A máxima de Antonio Candido cabe como uma luva em Lobato. Tanto na sua produção para adultos, quanto no Sítio do Picapau Amarelo, ele subverte a ordem e questiona princípios. Da invenção do Jeca Tatu, que desmistifica o caipira romantizado, à quebra de hierarquia na república feminista e libertária de Dona Benta, os conceitos são impiedosamente sacudidos.

Agora que sua obra caiu em domínio público, com livros impressos às fornadas, ressurge a polêmica do suposto racismo permeando seus textos. Uns abordam as incursões pela eugenia, perceptível no único romance saído da sua pena. Outros citam os famosos adjetivos usados por Emília, que chama Tia Nastácia de "negra beiçuda". Indício de preconceito?

Ora, conhecemos o caráter provocativo da boneca, que desacata filósofos, cientistas e, às vezes, inclusive a própria avó. Feita de pano, extrai o melhor dos dois mundos, usufruindo as vantagens dos humanos, sem os compromissos da vida real. Longe de desqualificar a cozinheira, sua falas, verossímeis para a época, são um recurso estético necessário numa narrativa fincada na oralidade e na linguagem coloquial. Além disso, ao resgatar as origens africanas de Nastácia, Lobato valoriza seu papel na cultura brasileira. Ao lado de Tio Barnabé, ela incorpora o viés popular, o saber empírico, as tradições ancestrais. É com este repertório que Nastácia, empoderada, salva-se até das garras do Minotauro. Saciado graças aos seus célebres bolinhos, o monstro desiste de comer gente. Aliás, não podemos esquecer que, de suas mãos mágicas, nasceu a irreverente Emília.

Quanto ao Presidente Negro, ficção científica inspirada em H. G. Wells, também pairam suspeitas de racismo. Os Estados Unidos, que Lobato ainda não visitara, é o núcleo do enredo. Pelas lentes do porviroscópio, viajamos ao ano de 2228, quando a escolha do 88.º presidente divide os eleitores. Emerge então um Lobato provocativo, que rema na contramão do politicamente correto. Ele abraçou as teses difundidas entre a intelectualidade nacional por Renato Kehl, que trocou cartas com o escritor e cujo livro, Problema Vital, de 1919, ele prefaciou. No entanto, mesmo neste embate, Lobato surpreende, ao dar voz ao oprimido. Prestes a apoiar um dos candidatos, o protagonista relembra as humilhações sofridas pelo seu povo: "Viu, muito longe, esfumado pela bruma dos séculos, o humilde kaal africano visado pelo feroz negreiro branco, que em frágeis brigues vinha por cima das ondas qual espuma venenosa do oceano". E recordou o suplício da travessia. A fome, a sede, a doença, o sangue derramado. Acima do convés do tumbeiro, rumores de vozes: "Branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria….".

A trama cresce quando o herói resolve, ele próprio, concorrer à Casa Branca. Suas chances de vitória levam os antigos adversários a unirem-se num complô maquiavélico, urdindo uma manobra "científico-ideológica" de consequências devastadoras. Ao longo da história, a comunidade negra é impelida a assumir a fisionomia dos brancos. E Lobato, opositor visceral da imitação, defendia que ignorar as raízes significava converter-se em cópia malsucedida. Ou seja, ao abrir mão das suas características étnicas, o negro, fragilizado, tornava-se vulnerável às manipulações. Assim, em lugar de fazer apologia da pureza racial, o autor constrói uma metáfora sobre segregação e aculturação, retratando a sociedade norte-americana do período, distante da democracia racial depois conquistada, após o árduo processo de luta pelos direitos civis.

Já em terras tupiniquins, a denúncia da mentalidade escravocrata, que persistia entre as elites nostálgicas, explode com violência em Negrinha. O mais pungente conto do volume lançado em 1923, ao qual dá o título, o drama da órfã desamparada, vítima da senhora frustrada pela abolição, revela seu traço de crítico social. Nele, Lobato expõe a perversidade da patroa, endossada pela hipocrisia do vigário. De um lado, a virtuosa dama, esteio da religião e da moral, "gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, com lugar certo na Igreja e camarote de luxo no céu". Do outro, a criança indefesa, "magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados". Negrinha é submetida a surras, roda de tapas e à vara de marmelo flexível, cortante, para "doer fininho".

Afinal, não se pode negar que Lobato flertou com o eugenismo, mas o fez da mesma forma como apreciava Le Bon, antes de descobrir Nietzsche, e como encantou-se pelo fordismo, espiritismo ou comunismo. Não era um feixe coeso de ideias e atitudes, mas, antes, um espírito inquieto, atravessado de incoerências e contradições. Contudo, sem meias-tintas, sua obra arranca o leitor da zona de conforto, trazendo a questão da negritude e do racismo para a pauta do dia. Instigante, convida ao debate atual e urgente no País.

MÁRCIA CAMARGOS É ESCRITORA E PESQUISADORA

GOVERNO BRASILEIRO ESPERA LANÇAR PRÊMIO MONTEIRO LOBATO NESTE ANO

O governo brasileiro espera ter concluído o processo legislativo relativo à criação do Prémio Monteiro Lobato de Literatura para a Infância e a Juventude até Junho, para lançar "imediatamente" a primeira edição, disse esta terça-feira o secretário especial da Cultura.

"Esperamos que até metade do ano esteja concluído o processo legislativo, para que possamos imediatamente iniciar esse processo de escolha e das premiações, tanto na área da escrita como da ilustração", afirmou o secretário especial de Cultura, José Henrique Pires, em declarações à Lusa, em Lisboa, no final de uma reunião com a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca.

O acordo para a criação do prémio foi assinado pelos titulares da pasta da Cultura de Portugal e Brasil, em 5 de Maio de 2017 — respectivamente Luís Filipe Castro Mendes e Roberto Freire —, durante a X Reunião dos Ministros de Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que decorreu na cidade brasileira de Salvador.

Em Janeiro deste ano, o Presidente da República Portuguesa ratificou a resolução parlamentar que aprova o protocolo de criação do prémio.

De acordo com José Henrique Pires, há "muita expectativa em relação ao prémio".

"E, por isso, justifico uma certa demora brasileira em concluir o processo, porque queremos que este prémio efectivamente se torne uma política de Estado, não de governo, que seja perene como o Prémio Camões", afirmou.

O secretário especial da Cultura do Brasil referiu ainda que "o Congresso Nacional, eleito no ano passado tomou posse a 18 de Fevereiro e já duas comissões aprovaram a entrega desse prémio".

José Henrique Pires lembrou que a distinção, "homenageia um grande escritor brasileiro, que este ano completa 70 anos do seu falecimento e com base disso entra em domínio público".

"Prevemos este ano muitas publicações de Monteiro Lobato", disse.

O governo português, referiu Graça Fonseca, "gostaria muito que 2019 pudesse ser o primeiro ano em que se anuncia o prémio".

O prémio Monteiro Lobato, concebido nos "mesmos moldes do Prémio Camões", como foi então anunciado, terá atribuição bienal, em duas categorias, autor e ilustrador, sendo aberto a autores de todos os membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O prémio tem uma componente monetária, com o valor a ser acordado pelos governos dos dois países responsáveis pela iniciativa.

O nome do prémio vem do escritor brasileiro José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), o criador de O Sítio do Picapau Amarelo, figura precursora da literatura infantil e juvenil brasileira.

A Menina do Narizinho ArrebitadoHistória do Mundo para as CriançasEmília no País da Gramática e da AritméticaGeografia de Dona BentaD. Quixote das Crianças e Histórias de tia Nastácia são outros títulos que firmaram o nome de Monteiro Lobato Monteiro Lobato no universo da literatura infantil.

O Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República Portuguesa e a República Federativa do Brasil, que enquadra constituição do prémio, foi assinado em Porto Seguro, em 22 de Abril de 2000.

A reunião desta terça-feira entre o Secretário Especial da Cultura do Brasil e a ministra portuguesa da Cultura realizou-se no âmbito de uma visita de José Henrique Pires a Portugal, iniciada na segunda-feira.

Na reunião, explicou Graça Fonseca, os dois governantes estiveram a fazer "um ponto de situação das diversas iniciativas que unem os dois governos", como o Prémio Camões, o Prémio Monteiro Lobato, o protocolo de cooperação na área do cinema e do audiovisual e a participação de técnicos portugueses na recuperação do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que perdeu grande parte do acervo num incêndio em Setembro do ano passado.

Texto original: ípsilon

INSPIRE-SE EM FESTAS COM TEMA DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

Quem aí gosta de fazer festa de aniversário? Atualmente, essa data tão especial subiu de nível, apresentando novidades que fazem com que o aniversariante se sinta imerso em um mundo novo, baseado no tema escolhido para a decoração de sua festa. E o que é melhor do que viver no mundo de Pedrinho, Emília e Narizinho e toda a galerinha do Sítio do Pica-pau Amarelo?!

O mercado de aniversário é amplo e atende a todos os tipos de renda, além do mais, quem gosta de soltar a criatividade e colocar a mão na massa pode facilmente preparar uma festa de qualquer tamanho de forma artesanal. E por isso viemos aqui trazer algumas dicas e inspirações para você que pretende fazer uma festa perfeita e dentro do tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

As cores escolhidas, geralmente em tons com predominância laranja, azul, amarelo e verde, trazem energia e alegria ao ambiente. O tema do sítio do Sítio do Pica-pau amarelo também permite que os docinhos tragam os melhores sabores brasileiros, com uma diversidade espetacular.

As lembrancinhas vão desde tubetes personalizados com imagens, aos que remetem aos personagens de forma indireta, como esse milho bem feito e detalhado, preparado com juta, tubete e docinho. O Visconde de Sabugosa se sentiria honrado com essa festa de aniversário, com certeza!

Aposte em muita cor em tudo, peças rústicas que remetam ao sítio, ou se inspire em livros como Viagem ao Céu para algo mais voltado ao universo. E quem sabe se você buscar algo mais educativo, se inspirar em Emília no País da Gramática com várias letrinhas e ensinamentos para a criançada, e porque não, para os adultos também?!

O que não falta no universo do Sítio do Pica-Pau Amarelo, criado pelo Monteiro Lobato, é inspiração. Uma dica bem especial para vocês que amam e querem incentivar a leitura de todos ao redor é usar como lembrancinhas de aniversário, livros, sinopses, marca-páginas e diversas obras do autor.

Esperamos que essa inspiração tenha surtido efeito em vocês e aguardamos ansiosamente pela sua festa de aniversário com tema do Sítio 

do Pica-pau Amarelo. Aproveite cada momento desta da preparação da festa, chame a criançada para ajudar e conhecer esse incrível mundo. Até a próxima, pessoal!

BOLO DE FRUTAS TIA NASTÁCIA

Sabe quando você sente vontade de provar um bolo mesmo ele aparecendo apenas em um DESENHO? Acontece quando a gente vê o Bolo de Frutas da tia Nastácia no episódio de nome “Bolo de Tia Nastácia”. Pois é, só de olhar esse episódio tem gente que se sente tão borocochô quanto a Emília por não poder sentir esse sabor que o Pedrinho, a Narizinho e obviamente o nosso querido e engraçado Marquês de Rabicó, tanto amam.

O que você precisa saber antes de iniciar o preparo de qualquer receita, principalmente as da tia Nastácia, é que elas devem ser feitas com todo o amor. E esse é o ingrediente mais mágico de todos e também faz a maior diferença.

Bom, o gosto a gente não tem problema de não sentir (que dó da Emília), então vamos aprender a preparar essa delícia e acabar com essa vontade DE UMA VEEEEEZ! Depois corre lá para as nossas páginas e comenta o que achou, hein?

Os ingredientes para a massa do Bolo de Frutas da Tia Nastácia são:

 

250 gramas de açúcar cristal;

240 gramas de farinha de trigo;

1 copo de iogurte sem sabor;

1 pitada de sal;

3 ovos;

80 ml de óleo;

1 colher de chá de bicarbonato de sódio;

2 colheres de chá de fermento.

 

E o recheio e cobertura, que fazem grande diferença nesse Bolo de Frutas deliciosos precisa de:

100gr de morangos picados (deixe alguns inteiros para a decoração);

150gr de amoras;

100gr de framboesas;

2 potes de geleia ARTESANAL de amora, morango ou frutas vermelhas.

100gr de morangos picados (deixe alguns inteiros para a decoração)

1 caixa de creme de leite;

3 colheres de açúcar refinado;

150 g de iogurte natural.

Preparação da massa:

Bata os ovos e o açúcar até obter o ponto “neve”, adicione o óleo e o iogurte e continue o processo. Em um outro refratário, misture a farinha de trigo, o fermento, o bicarbonato e a pitada de sal e junte à mistura cremosa (em neve). Continue a bater.

Em duas formas forradas com papel vegetal, despeje duas medidas iguais de massa e asse em fogo pré-aquecido a 180°C por volta de 40 minutos.

O primeiro recheio é bem fácil:

Misture as amoras, framboesas e a geleia. Reserve.

Para o segundo recheio, bata o creme de leite até que forme um chantilly, depois adicione o iogurte e o açúcar até formar um creme, reserve na geladeira até o bolo esfriar.

Montagem

Corte os bolos ao meio e faça uma montagem intercalada: bolo, creme de chantilly, geleia com frutas. Após acabarem as camadas do bolo, cubra o bolo com o creme de chantilly, despeje o restante da geleia (ou a quantidade à gosto) sob o bolo e decore com as frutas vermelhas.

 

1 ETAPA ENCERRADA!

@juhbaldotto@alc.antara  e @camilalouiseevangelista nossos caçadores de saci já passaram pela primeira fase fiquem ligados nas dicas. Nossos sacis correm enloquecidos pelo feed, storie e Reels com as dicas…

Dia 22/03 te dica nova

VOLTA ÀS AULAS COM LEMBRANCINHAS INSPIRADAS NO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

A volta às aulas é um momento que pode causar ótimas impressões durante o restante do ano! Por isso a gente pensou na melhor forma de demonstrar o carinho pelos alunos de forma simples, mas incentivadora. E o sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, foi a base que utilizamos para usar como dicas para alegrar ainda mais o início de ano da criançada, tonando esse momento especial em um incentivo ao estudo e a leitura por meio de lembrancinhas!

Aqui vão algumas dicas inspiradoras para introduzir um pouco da literatura brasileira aos pequeninos:

Se está liberado um docinho, que tal usar um caldeirão da cuca para mostrar que ao invés de fazer uma gororoba ela se inspirou na tia Nastácia e preparou um delicioso brigadeiro mágico para as crianças conseguirem se concentrar mais ainda nas aulas e aprenderem com mais facilidade?

E que tal se aventurar nas ponteiras de lápis para deixar os baixinhos ainda mais interessados nas aulas e em praticar a escrita? Esse modelo de ponteira é feito em biscuit, mas existem diversos outros materiais que você pode utilizar, inclusive papel EVA e papel cartão. Usando algum desses outros materiais você pode até convidar os alunos a fazerem sua própria lembrancinha de primeiro dia com os seus personagens favoritos do Sítio!

Os “dedoches”, além de fazerem qualquer criança rir ou ficar curiosa com esse nome, são um ótimo presente e consegue manter a criançada entretida e interessada em sua história! Use tecidos mais durinhos, além de canetas para tecido para os pequenos detalhes. Aproveite, e caso queira, auxilie os pequenos a fazerem os seus dedoches, e ao invés de mexer com linha e agulha, busque uma cola antialérgica, a diversão é garantida!

Quem gostou das dicas e vai colocar em prática, corre lá para as nossas redes sociais e mostre os trabalhos feitos por você e seus alunos com a temática Sítio do Pica-pau Amarelo. Adoramos ver as obras de Lobato serem passadas adiante, e melhor ainda, com a ajuda da criançada na escola em uma aulasuper dinâmica.

O PODER DAS PERSONAGENS FEMININAS DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

Dona Benta é uma mulher forte, dona do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ela é quem manda e resolve grande parte das questões do sítio e fomenta a curiosidade de seus netos, de quem cuida com todo o carinho. Apesar de morar no interior, é uma mulher bastante atualizada e politizada, muitas vezes trazendo conhecimentos diversos aos seus netinhos. Desde astrologia até gramática, Dona Benta mostra que as mulheres podem ser liberais, livres, modernas e espertas, como no caso do livro O poço do Visconde, no qual um investimento na extração de petróleo em sua terra traz diversos lucros!

Sugerimos que você que deseja entender mais sobre como Dona Benta ajudava as crianças a embarcarem em diversas aventuras cobertas de conhecimento leia livros como: Emília no País da Gramatica e Viagem ao Céu.

Além dos dons culinários de encher os olhos de vontade e a nossa boca de água, Tia Nastácia carrega bastante conhecimento, principalmente sobre histórias de nosso Brasil. Assim, a segunda avó de Pedrinho e Narizinho mescla seu conhecimento com o de Dona Benta, que é em grande parte Europeu. Devido à doce tia Nastácia, sabedoria popular completamente rica e brasileira é apresentada ao público de Lobato.

Que tal apreciar esse conhecimento no livro Histórias de tia Nastácia?

Narizinho vive no Sítio, criada pela avó Dona Benta e a Cozinheira Tia Nastácia, a garota demonstra seus valores baseados na gentileza, inteligência e respeito. Quase um espelho de sua avó, a garota apresenta uma linguagem rebuscada e demonstra uma mentalidade à frente de seu tempo e idade. Algo que demonstra isso é dar a Emília a autonomia para decidir se queria ou não casar.

O livro no qual podemos conhecer mais sobre o comportamento maduro e inteligente de Narizinho é o Reinações de Narizinho.

Por fim temos a personagem Emília. A boneca de pano feita por Tia Nastácia, melhor amiga de Narizinho, após ganhar vida por meio de uma pílula falante dada pelo doutor Caramujo, desembesta a contestar, falar, perguntar. A boneca é ácida, sagaz e completamente independente e passa longe da submissão a qualquer um.

Uma boneca humana, com falhas e que está sempre aprendendo algo novo e conquistando sempre o que quer!

Emília está sempre se destacando em todos os livros do Sítio do Pica-pau Amarelo, mas vale a pena conferir os que levam seu nome, como Memórias de EmíliaAritmética da Emília A História de Emília.

Conhece alguém com as personalidades citadas acima? Conte para a gente nas redes sociais!

QUITUTES DA TIA NASTÁCIA – COCADA MÁGICA BRANCA

Você sabia que a nossa ilustre tia Nastácia, além da rainha dos quitutes brasileiros, deu conta de inventar três tipos de cocada? Pois, é, se uma já é deliciosa, imagina 3? Ai, ai…. Tem a amarelinha, a branca e a rosa. E foi difícil escolher qual ensinaríamos a você hoje, porém, a tia Nastácia certamente começou pelo clássico, por isso, a mágica cocada branca foi a escolhida!

Vamos aos ingredientes. Pode se tranquilizar que é bem facinho, mas tem que se lembrar de fazer com muito amor!

1 coco de aproximadamente 450 gramas;

3 xícaras de chá de açúcar;

2/4  xícara de chá de leite condensado;

1 ½ xícara de chá de água de coco (preferivelmente natural);

 

Óleo

Poucos ingredientes e uma receita maravilhosa, vamos ao modo de preparo da cocada mágica da tia Nastácia.

Unte uma assadeira com o óleo e reserve. Em uma panela em fogo alto coloque a água de coco e o açúcar e cozinhe até formar uma calda em ponto fio médio. Despeje o coco ralado na calda e mexa enquanto acrescenta o leite condensado. Continue misturando até que a cocada esteja no ponto de se desprender do fundo da panela.

Retire a cocada mágica do fogo e, com uma colher do tamanho desejado, coloque as porções de cocada na assadeira, reserve até esfriar e retire da forma. Está pronta para servir! Prove e  nos diga o que achou dessa delícia.

10 LIVROS PARA DAR DE PRESENTE DE NATAL

Publica-se uma quantidade imensa de livros todo ano no Brasil. Para você ter uma ideia, no ano passado foram impressos pouco menos de 400 milhões de exemplares, segundo pesquisa do setor (Fipe-CBL-SNEL). Só de infantis mais juvenis foram 36 milhões de exemplares. Ao mesmo tempo, o mercado vive uma crise profunda, pois as duas maiores cadeias de livrarias do país (Cultura e Saraiva) pediram recuperação judicial. Iniciou-se, então, uma campanha para que as pessoas comprem livros para dar de presente. Ora, essa ideia é ótima sempre, não apenas no Natal (veja Dia das crianças? Dê livro! e Dez motivos para dar livros de presente).

Então, a coluna entra na campanha e sugere alguns títulos que podem ser ótimos presentes de Natal, de Ano Novo, de Carnaval etc. etc.

Para crianças até 6 anos:

Para crianças acima dos 6:

por Luciana Pinsky em colunasler com os pequenos.

Semanalmente Luciana Pinsky* dá dicas de livros para ler com os pequenos. É jornalista, editora da Contexto e escritora (autora do romance Sujeito oculto e demais graças do amor e do blog http://lucianapinsky.blogspot.com/ ). Cresceu cercada de livros e seus dois filhos apalpam, folheiam, escutam, veem e leem pequenas e grandes obras todos os dias.

Matéria original Estadão Online.

Escritora dará vida a universo de Monteiro Lobato em Paris

Por Stephan Rozenbaum

 

A RFI conversou com Marcia Camargos, escritora, jornalista e historiadora brasileira, radicada em Paris desde 2016. Tem 27 livros publicados e foi coautora de "Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia", que obteve os prêmios Jabuti e Livro do Ano de 1998. Marcia Camargos é também curadora da obra de Lobato, tendo escrito as apresentações e quarta capa de todo os livros, tanto infantis quanto para adultos, das obras completas do autor, lançadas pela Editora Globo. No sábado (15), ela estará em um evento voltado para o universo do Sítio do Picapau Amarelo na Maison de la vie associative et citoyenne do 14° distrito de Paris.

 

“O evento é grátis e crianças e adultos poderão participar de leituras e encenações de trechos dos livros infantis do Monteiro Lobato, com a presença do Visconde de Sabugosa e da Emília. As crianças poderão se fantasiar com as roupas dos habitantes do Sítio do Picapau Amarelo, tornando a tarde ainda mais divertida”, conta Marcia Camargos. “Não posso esquecer de falar dos bolinhos de chuva da tia Anastácia, que nós preparamos especialmente para a ocasião”, ressalta a escritora.

 

A ideia de juntar pequenos e grandes em torno da obra de Lobato aconteceu após conversas com a associação Sol do Sul. “A ideia era comemorar a época de natal com gostinho brasileiro. A associação me convidou para participar do evento, tendo em vista o centenário da obra Urupês. Com a ideia de oferecer às famílias brasileiras que moram na França a oportunidade de entrar nesse universo tão gostoso do Monteiro Lobato, que tem a ver com a brasilidade, com as nossas raízes nacionais.

 

Obra centenária

 

Marcia Camargos é referência quando o assunto é Monteiro Lobato. Recentemente ela escreveu uma coluna no jornal Estado de São Paulo para falar da obra Urupês e do personagem Jeca Tatu. “Eu não canso de me surpreender ao ver como ele ainda é muito atual. Em 1914, ele publicou um artigo no Estadão, chamado 'Uma velha praga', seguido por Urupês, um mês depois, que causaram muita polêmica porque ele denunciava as queimadas no Vale do Paraíba, onde ele tinha uma fazenda herdada do avô. Era a maneira mais fácil de limpar um terreno para o plantio, mas, ao mesmo tempo, destruía totalmente as árvores centenárias, os animais silvestres, empobrecia o solo. Lobato dizia que o Vale do Paraíba se transformava em um braseiro, totalmente em chamas”, conta a escritora.

 

“Isso mostra a preocupação de Lobato com a questão do meio ambiente, da ecologia, da preservação, dos recursos naturais, naquele tempo, no começo do século 20. Vemos hoje com muito espanto, indignação e medo essa possibilidade de vermos a Amazônia cada vez mais destruída, que é o grande pulmão do planeta. Com certeza, Monteiro Lobato, se estivesse em vida, estaria denunciando essa ideia de se desmatar cada vez mais”, afirma Marcia.

 

Desculpas a Jeca Tatu

 

Além da ecologia, Lobato também se preocupava com outros setores da sociedade. “O Urupês dá vida ao personagem símbolo Jeca Tatu, que foi visto primeiramente como o caipira indolente, para quem nada paga pena, preguiçoso, sempre de cócoras, a fumar seu pitozinho, e que plantava somente para sua sobrevivência mínima. Lobato criticou essa postura do caipira pois chegou na fazenda disposto a implementar técnicas agrícolas moderníssimas que não se desenvolviam naquele solo exaurido, esgotado, do Vale do Paraíba”, explica a escritora.

 

“Ele num primeiro momento colocou a culpa na preguiça do caipira. Só que depois, ele entra em contato com estudos de saúde pública, e descobre que o caipira não era assim, ele estava assim. Porque ele era vítima das endemias, da falta de saúde pública, do abandono do governo, que só dava atenção aos caipiras nas épocas das eleições. Depois de tudo isso, Monteiro Lobato acaba pedindo desculpas ao Jeca Tatu, porque ele fala que ele era um jardim zoológico de protozoários. Ele realmente se retrata, dizendo ‘você não é assim, você está assim'”, completa Marcia.

 

Notícia original em RFI.

Link para o vídeo AQUI.

QUITUTES DA TIA NÁSTACIA – BOLINHO DE CHUVA

Só de ouvir falar em Bolinhos de Chuva eu já penso na querida Tia Nastácia, personagem dos livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato. E vale muito a pena levar em consideração que só de assistir ou ler alguma cena na qual a cozinheira das mãos mágicas entrava em ação, a boca ficava cheia d’água e aposto que não apenas as crianças, mas também os adultos, ficavam imaginando qual o gostinho daquela receita.

Agora você vai conhecer a receita dos Bolinhos de Chuva e também pode apresenta-los a alguma criança, além de, é claro, embalar esse momento com a leitura do livro Histórias de Tia Nastácia!

Vamos aos ingredientes:

2 ½ xícaras de chá de farinha de trigo;

1 colher de sobremesa de fermento em pó;

180 gramas de açúcar;

2 colheres de manteiga e margarina;

2 ovos;

1 pitada de sal;

½ colher de canela em pó;

1 xícara de chá de leite;

preparação é bem simples:

Em um recipiente, bata o açúcar e a margarina até que se forme uma pasta, logo após adicione um ovo de cada vez, sem deixar de bater. Peneire junto dessa pasta, a farinha, a canela e a pitada de sal e misture, alternando com o leite, até que se forme uma massa só.

Jogue a massa com uma colher de sua preferência no oléo quente, de modo que ele doure completamente dos dois lados dos bolinhos e os deixe escorrer em um recipiente coberto de guardanapo de papel.

Está prontinha a receita dos bolinhos mais famosos do nosso Brasil, certamente todos vão aprovar, então corra para nossas redes e nos diga o que achou dessa maravilha que a Tia Nastácia nos ensinou!

REPRESENTATIVIDADE FEMININA NO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

A importante trajetória literária de Monteiro Lobato se mostra completamente atemporal em diversas maneiras. Um dos assuntos mais tratados da atualidade é a igualdade entre homens e mulheres e a visão onde uma garota possa ter forte participação e dividir espaço com garoto sem tornar sua feminilidade uma fraqueza. Pensando nisso, podemos chegar à conclusão de como as obras de Monteiro Lobato são importantes para mostrar a igualdade entre meninas e meninos.

Muito tem se falado sobre o empoderamento feminino e a retratação das mulheres em obras (crianças, adolescentes, adultas), e as obras de Monteiro Lobato acabam se destacando como um divisor de águas nessa questão. Diferente de muitas outras narrativas infantis, em muitas histórias vistas ao redor do Sítio do Pica-pau Amarelo, nos deparamos com uma diferença e desconstrução de padrões de personagens femininas.

Em grande parte das histórias narradas pelo autor, sempre com pensamentos à frente de seu tempo, Narizinho e Emília dividem com personagens masculinos como o inteligente Vísconde de Sabugosa e o aventureiro menino da cidade, Pedrinho, os ganhos e perdas que vivem em seus momentos. Os personagens das obras de Monteiro Lobato chamam bastante atenção das crianças, que mergulham em um novo mundo onde veem os personagens com dilemas reais e que agregam valores àqueles que os leem em suas aventuras.

A importância da literatura infantil apresentada por Monteiro Lobato, além de toda sua crítica, passada às crianças de uma maneira que nelas sejam despertadas muitas emoções e pensamento críticos, é que ambos os gêneros possam criar um vínculo de respeito e mutua ajuda em suas jornadas. Em um momento de desenvolvimento, onde a mentalidade é formada vale a pena considerar uma leitura que te dispõe, por meio de personagens com tantas qualidades, mas também muitos defeitos, aprender e entender o que há de errado em tais situações.

Por meio da curiosidade e irreverência de uma boneca de pano que se torna uma garota que conquista tudo o que quer devido à sua persistência, força de vontade e até a ambição ou da inteligência de uma garota do nariz arrebitado com valores, completamente madura e totalmente independente, Monteiro Lobato passa sua mensagem de que desde criança as mulheres têm bastante força. A respeito disso temos Dona Benta, uma mulher do campo, que gerencia seu próprio sítio e ainda tem tempo para estudar sobre política e assuntos diversos, os passando para seus netos, também temos uma forte mulher, Tia Nastácia, que retrata o interesse pelo nosso belo país e sua história.

Incentivar a leitura é sempre bom, ainda mais quando nos leva a um caminho de liberdade e possibilidades de sermos melhores para os outros e para nós mesmos. Confira em nosso site as obras de Monteiro Lobato, leia Monteiro Lobato para uma criança, incentive a igualdade!

GLOBO REPÓRTER_ 100 ANOS DE MONTEIRO LOBATO (1982)

https://youtu.be/ozrWJz-btl0

Primorosa reportagem de Rodolfo Gamberini. Taubaté de 1982, Emílio Amadei Beringhs, D. Dinorah Guisard, José Carlos Sebe falando, entre outras, sobre a queima de livros de Lobato em praça pública, instigada pela Igreja. Um presente de Celio Moreira para Taubaté, via Ademar Moyano, que já foi locutor da Difusora, hoje radicado na Bahia e exercendo a direção técnica de uma emissora de tv.

É COM IMENSO PRAZER QUE ENVIAMOS O CONVITE PARA A EXPOSIÇÃO ‘O MUNDO DAS MARAVILHAS DE MONTEIO LOBATO’

Serão ambientes repletos de personagens do Sítio do Picapau Amarelo, registros de outras obras literárias, além de passagens da vida do autor paulista. Confira abaixo a divisão dos ambientes:

  • Túnel do Pirlimpimpim– A marquise que liga a entrada da praça à biblioteca é transformada em um túnel colorido, cujo teto vai diminuindo de altura para dar a sensação de que o público está ficando pequeno, voltando a ser criança.
  • Sítio do Picapau Amarelo– Um gigante livro pop-up aberto, no qual o público pode entrar no sítio de Lobato e interagir com seus personagens. Confeccionados em madeira bidimensional, saltando das páginas do livro, personagens como Narizinho, Emília e Pedrinho têm o tamanho de uma pessoa real, assim como o cenário.
  • Livros expositivos– No foyer da biblioteca, cinco livros gigantes, abertos na vertical, servem como espaço expositivo sobre a vida e a obra do autor. 

1º de Julho das 10hs às 19hs (Abertura) a 01/12/2018

  • Segunda a Sexta das 8h às 18hs
  • Sábados – 10h às 17hs
  • Domingos – 10hs às 14hs

Venha conhecer este mundo encantado!

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Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Rua General Jardim, 485 – Vila Buarque, São Paulo, SP.

Horários de Funcionamento: 

Segunda – Sexta, das 8h00 às 18h00

Sábados, das 10h00 às 17h00

Domingos, das 10h00 às 14h00

Telefone: (11) 3256-4122

bcsp.mlobato@prefeitura.sp.gov.br 

https://www.facebook.com/bijmlobato/

www.bibliotecas.sp.gov.br