AS MULHERES DA VIDA DE LOBATO

AS MULHERES DA VIDA DE LOBATO

AS MULHERES DA VIDA DE LOBATO

Por Cleo Monteiro Lobato

“A mulher não é inferior nem superior ao homem. É diferente. No dia em que compreendemos isso a fundo, muitos mal-entendidos desaparecerão da face da Terra.”

Esse pensamento reforça a tese de que o escritor Monteiro Lobato era de fato um homem muito à frente do seu tempo. Nascido em 1882, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, José Bento ou simplesmente ‘Monteiro Lobato’, era um visionário que valorizava a observação cuidadosa do ambiente que o rodeava, fruto da influência das teorias cientificistas do início do século XX e que tinha plena consciência do seu papel social. Em comemoração ao dia internacional da mulher, vamos conhecer um pouco das mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, que conviveram com o escritor: Anacleta do Amor Divino, avó materna; Olympia Augusta Monteiro, mãe de Lobato; Purezinha Monteiro Lobato, sua esposa; Martha Lobato Campos, filha mais velha; Ruth Monteiro Lobato, filha mais nova; e Joyce Campos Kornbluh, neta do escritor. Todas conheceram e conviveram com Lobato e apesar de nascidas numa sociedade extremamente patriarcal, sempre foram muito fortes, de opiniões marcantes e principalmente extremamente apaixonadas pela vida. As memorias a seguir me foram contadas em parte pela minha mãe, Joyce nesses últimos anos que venho me esforçando para colher o máximo das memórias da minha mãe sobre Lobato a minha familia.

Anacleta do Amor Divino

Mamãe sempre me contou que a avó materna de Lobato foi uma figura importante na história do escritor.  Ela não foi casada com o avô de Lobato, José Francisco, que mais tarde se tornaria o Visconde de Tremembé e era na verdade sua amante, num romance iniciado quando ele tinha 20 anos de idade. Juntos tiveram três filhos: a mãe de Lobato e mais dois irmãos.

Apesar de não ser casado com Anacleta, o Visconde reconheceu seus três filhos, garantiu a educação de todos e os fez herdeiros, sem se importar com as o falatório alheio ou as convenções da época.
Por não ser a esposa oficial do Visconde, Anacleta não pode estar presente no nascimento do seu primeiro neto, Juca (apelido familiar de Lobato), porque o Visconde já havia se casado com Maria Belmira de França Monteiro, que se tornou a Viscondessa de Tremembé. Mesmo assim, Anacleta manteve uma relação intensa e amorosa com a filha e com seu neto, trocando cartas regularmente e o vendo sempre que possível.
Apesar de todo o preconceito sofrido, ela foi professora, dando aulas particulares de primeiras letras em sua própria casa. A relação entre Anacleta, Olympia e seu neto Juca sempre foi muito amorosa e forte até ela falecer em 1906, quando Monteiro Lobato tinha 24 anos.

Por um daqueles absurdos que marcaram a nossa história, Anacleta não pode ser enterrada no cemitério oficial de Taubaté, pelo simples fato de ser mãe solteira e as regras da igreja não o permitirem na época. 
Mamãe sempre se refere a Anacleta como a mais forte da linhagem feminina que conviveu com o escritor, pois conseguiu viver de modo independente, constituiu carreira, juntou posses, manteve relacionamento com seus filhos e netos, além de ver seus filhos legitimados e seus três netos como herdeiros do Visconde de Tremembé. Sem dúvida, uma mulher formidável para o seu tempo.

Olympia Augusto Monteiro

Filha de Anacleta com o Visconde de Tremembé, Olympia nasceu em Taubaté, em 1856 e casou-se com José Bento Marcondes Lobato. Mamãe conta que a mãe de Monteiro Lobato, era extremamente amorosa, paciente e doce. Ensinou o filho e suas duas irmãs a ler cedo e manteve longa correspondência com seu filho, pois Olympia logo ficou doente de tuberculose e passou longos períodos convalescendo.  Olympia tocava piano e também tinha propriedades próprias.

Em cartas amorosas escritas à sua mãe, Lobato relata o período em que foi morar e estudar na capital paulista, com apenas 14 anos de idade, correspondência esta que mantiveram assiduamente até ela falecer ainda jovem, aos 40 anos, vítima de tuberculose em 22 de junho de 1899.

Menos independente, mais adequada às normas sociais da sua época, de saude frágil, Olympia cumpriu o propósito de produzir e criar um herdeiro para seu pai, o Visconde de acordo com a visão de minha mãe, Joyce.

Judith Monteiro Lobato

Mamãe sempre se refere a Judith, a irmã mais nova de Lobato, nascida em 1884, com admiração.  Ela era aventureira, apaixonada, sonhadora, romântica e muito bonita. Tanto Judith quanto Esther estudaram num colégio interno de freiras em Taubaté onde aprontavam terrivelmente e só não foram expulsas por que o Visconde pagava extra cada vez que as irmãs aprontavam.

Mamãe conta que Judith era muito namoradeira e sempre ficava na janela flertando. Certa vez se apaixonou por um estudante (ou seminarista, mamãe não tem certeza) que passava duas vezes por dia debaixo de sua janela. Importante frisar que namoro naquela época, era sempre da janela com olhares e bilhetinhos. Foi uma paixão intensa e proibida e logo o rapaz a convidou para fugirem juntos para bem longe de Taubaté a fim de viverem plenamente o amor. Mas os apaixonados decidiram fazer um pacto e morrer juntos para desfrutar daquele amor impossível em outro mundo, sem empecilhos. Mamãe conta que chegaram a acertar data e horário, mas no dia marcado, Judith perdeu a hora e não cumpriu com o combinado. Ela ainda foi até a casa do rapaz para tentar impedir o ato, mas não conseguiu chegar a tempo e ele de fato se matou. 

O Visconde teve de esconder Judith por um bom tempo, chegou a arranjar um casamento com um amigo seu, mais velho do que ela chamado Luis Cursino. Dessa união nasceram dois filhos que ela amava cuidar dos cachinhos e sempre os vestia como príncipes, com golinhas de renda.  Mas nem o casamento ou os filhos impediram Judith de viver uma vida cheia de ‘emoções’. Quando o marido estava na cidade e Judith na fazenda, ela conheceu um caixeiro viajante e abandonou seu esposo e seus dois filhos para fugir para a cidade de Santos. Com esse caixeiro teve mais um filho, Faustinho, que mamãe conheceu e com quem brincou.

Judith montou uma pensão em Santos e vivia de alugar quartos e fazer marmitas. Aparecia ocasionalmente. Certa vez, apareceu na casa de minha avó Martha (sua cunhada), pedindo dinheiro para pagar uma conta de luz com urgência. Martha emprestou o dinheiro e Judith saiu às pressas, voltando meia hora depois com um buquê de rosas lindo (mamãe se lembra do buquê) que deu de presente à Martha numa demonstração de gratidão pela ajuda recebida. Quanto a conta? Judith disse que não pagou e que se viraria depois.

Assim era Judith, mulher romântica e sonhadora, de acordo com as memórias de minha mãe. Apesar do caso do pacto de suicídio não ser confirmado, o restante desta narrativa é verídico, inclusive o fato de seu primeiro marido Luís Cursino ter ficado com toda a herança que o Visconde havia deixado para ela. Judith morreu muito pobre em Santos e ninguém da familia sabe onde fo enterrada.

Esther Monteiro Lobato de Moraes

Nascida em 1886, na cidade de Taubaté, Esther, ou Teca como todos a conheciam, era a irmã do meio de Monteiro Lobato. Mamãe a descreve como uma mulher durona, de raros sorrisos, que viveu de modo independente, costurando e cozinhando para fora, quitutes e doces que fizeram a sua fama de cozinheira de mão cheia. Era auto suficiente e feminista já naqueles tempos. A matriarca do seu ramo da familia.

Teca se recusou a casar com todos os pretendentes escolhidos pelo Visconde e só se casou com um amigo de Lobato chamado Heitor de Moraes, que era poeta e jornalista em Santos. Entretanto, logo as diferenças entre os dois afloraram. Esther era uma mulher prática, enquanto Heitor era um sonhador que adorava frequentar os saraus literários da época, mas que sofria de depressão. Apesar disso, dessa união nasceu, em 1912, Gulnara de Moraes única filha do casal.

De acordo com mamãe o casal vivia muito acima de suas posses e gastaram toda a herança recebida por Teca, do Visconde. Sem recursos, ela recorreu a Lobato em busca de um emprego para o marido que começou a trabalhar como diretor de em cartório em São Paulo. A família se mudou para a capital paulista, mas Heitor não se adaptou com a nova vida longe dos amigos, das noitadas e sem tempo para escrever seus poemas. O relacionamento do casal piorou e a depressão de Heitor se agravou, até que em 1936 depois de uma briga terrível ele se suicidou com um tiro no peito.

Teca jamais se casou novamente. Passou a viver para sua filha Gulnara (que tambem ficara viuva de Edgard muito cedo) e seu neto Rodrigo. As duas se mudaram para Tremembé e Teca passou a sustentar a todos costurando fantasias de carnaval incríveis para uma clientela da alta sociedade e essas criações extraordinárias de vestidos diferentes e criativos lhe garantiam uma boa renda.
De acordo com mamãe, Teca foi responsável pelo namoro e casamento de sua filha Gulnara com Edgar, seu sobrinho, filho de Lobato. Tudo aconteceu porque logo depois de combater na Revolução de ’30 ou ’32, Edgard contraiu tuberculose e como a família inteira estava nos EUA por conta do trabalhou de Monteiro Lobato como adido comercial, Teca o acolheu e colocou sua filha Gulnara para tratar dele. Daí nasceu o namoro que logo virou casamento, mesmo a contragosto de Purezinha, mãe de Edgard.

Teca foi responsável por uma das melhores memórias de infância da minha mãe. Naquele tempo não era costume dar presente de aniversario, mas mamãe se lembra do melhor presente que ela ganhou na vida. Foi um cachorro deitado, feito inteiramente de fios de ovos por Tia Teca. 

Maria da Pureza Gouveia Natividade

Purezinha (nome que assinava em sua correspondência), esposa de Lobato, foi uma das mulheres mais fortes e marcantes da família com enorme influência sobre seu marido.
Nascida em 1885, de uma família tradicional de educadores homens, a professora Maria da Pureza de Gouvêa Natividade, era filha de Francisco Marcondes Gouvêa Natividade, professor em um curso Anexo à Faculdade de Direito em São Paulo e neta do famoso Dr. Antonio Quirino Souza, professor em Taubaté, que inclusive foi mestre de Monteiro Lobato.
Purezinha viveu cercada de professores, escritores, abolicionistas e intelectuais.

O magistério era considerado na época, uma profissão de vanguarda para as mulheres e a escolha pode ter sido resultado da influência do pai e do avô. Mas, talvez também se inclua, entre os fatores que levaram Purezinha a se tornar professora, um certo veio politicamente engajado de seu tio (irmão de seu avô Dr. Quirino), o abolicionista Antonio Bento (1843-1898), famoso pela luta contra a escravidão e a interceptação de escravos. 

Purezinha e Lobato se casaram em 1908 enquanto ele era promotor em Areias. Tiveram 4 filhos: Martha, Edgar, Guilherme e Ruth.
Purezinha deixou de lecionar para se dedicar aos cuidados da casa e à educação dos filhos, pois Lobato era incansável sempre com novos planos e mudanças.  De Areias se mudaram para a Fazenda do Buquira, herdada após a morte do Visconde e depois de vender a fazenda se mudaram para São Paulo, onde Lobato abriu a Companhia Editora Nacional e depois para o Rio de Janeiro. Ela tinha por hábito ler histórias para seus filhos e foi justamente observando essas experiências de leitura, que Monteiro Lobato se motivou para escrever um mundo de livros para meninos e meninas.

Muitos não sabem, mas Purezinha foi muito importante para a carreira do marido escritor. De forma imperceptível, ao longo dos anos, ela esteve presente na obra de Lobato. Lia seus textos, sugeria alterações e os corrigia com a crítica aguçada de uma professora. Ele escreve que a opinião de Purezinha era a única na qual confiava. Durante sua vida foi companheira integral de Lobato e mamãe conta o quanto ela “sofria” com a energia constante dele. Nos jantares que davam para conseguir investidores para sua companhia de petróleo, Lobato não se sentava, mas costumava andar em volta da mesa falando e gesticulando com seu garfo e de vez em quando pegando um pedaço de comida do prato de Purezinha. Esse é só um detalhe engraçado que demonstra a energia constante de Lobato. Porém o esforço de te cuidado de dois filhos que faleceram de tuberculose e ainda acompanhar a genialidade de Lobato em suas empreitadas, envelheceu minha bisavó muito cedo.

Durante sua vida colecionou e organizou todas as matérias de jornais que saiam sobre Lobato e depois de sua morte, doou seus famosos álbuns de recortes de jornais, além das roupas, chapéu, costela, mesa e outros pertences para a Biblioteca Monteiro Lobato. Alem disso após a morte do meu bisavô, passou a lutar junto com os amigos de e sua filha mais nova, Ruth,  para conseguir que a Semana Monteiro Lobato se tornasse realidade. 
Ela faleceu aos 73 anos, de câncer no cérebro no dia 27 de abril de 1959 e foi enterrada ao lado do marido no Cemitério da Consolação em São Paulo, tendo conseguido ver o legado do escritor consolidado na Semana Monteiro Lobato em 1955.

Martha Lobato Campos

A filha mais velha de Lobato, nasceu em 1909 e foi a única dos filhos que descobriu um jeito de sobreviver à exaustiva genialidade e à loucura produtiva de seu pai.
Martha construiu um mundo paralelo de romance, namoricos e fofocas, onde viveu por toda a vida, sem jamais se preocupar com dinheiro ou com questões tidas como ‘mais importantes’. Minha avó Martha não completou o ensino secundário pois na época a família se mudou para Nova York e ela jamais aprendeu inglês.

Se casou escondida de sua mãe Purezinha, aos 17 anos, com Jurandir Ubirajara Campos, logo após se conhecerem em Nova Iorque, onde Lobato foi ser adido comercial e menos de um ano depois deu a luz a mamãe, Joyce Campos. Sempre fez questão de deixar claro que não tinha jeito para a maternidade e continuou levando a vida como se não tivesse uma filha, cabendo ao meu avô, Jurandir e a Purezinha, assumir o papel materno.
Teve uma relação muito complicada com minha mãe que teve que conviver com essa rejeição. Martha adorava fazer palavras cruzadas em italiano e em português e até escreveu um livro de palavras cruzadas que foi editado pela Companhia Editora Nacional. Vivia na rua, adorava fumar, jogar cartas (pôquer, canastra, tranca, buraco, paciência, crapô, qualquer coisa com baralho) e conversar longas horas ao telefone para saber das notícias. Gostava de reunir seus amigos e parentes em casa para o almoço de domingo e rodadas de pôquer. Quando pergunto a mamãe sobre suas memórias de minha avó, mamãe costuma dizer que vovó só fazia palavras cruzadas, ou então se lembra de sua mãe vestindo e fazendo maquiagem para sair para ir passear.

Das mulheres da família que conheceram Lobato, eu tenho a impressão que minha avó Martha foi certamente a menos ambiciosa e a mais alienada de todas. Jamais trabalhou, sempre viveu de direitos autorais. O casamento ainda jovem, foi o modo que encontrou para resolver o seu problema de independência e assim viver no seu mundo paralelo até falecer em casa em 1995, aos 86 anos de idade.

Gulnara Monteiro Lobato de Morais Pereira

Sobrinha de Monteiro Lobato, filha de sua irmã, Esther (Teca) e do poeta Heitor de Morais, nasceu em 1912. Era três anos mais velha que sua prima irmã Martha, com quem cresceu, eram muito amigas, pularam juntas muitos carnavais.

Em 1934, Gulnara se casou com o irmão de Martha, filho de Lobato, chamado Edgard e quatro anos depois nascia Rodrigo Monteiro Lobato, fruto dessa união. Edgard faleceu muito cedo, vítima de tuberculose, no ano de 1943, quando Gulnara tinha apenas 31 anos e seu filho Rodrigo apenas 6.

Foi um período difícil para todos e Esther, com a sua força, sustentou a família, costurando e cozinhando para fora.

Logo após a morte de Edgard a família de Lobato passou por um período voltado ao espiritismo, onde todos se reuniam na chácara de Tremembé para fazer sessões espíritas na tentativa de se comunicarem com Edgar e Guilherme (também falecido). Nessas sessões era Lobato quem fazia as atas.

Cerca de três anos após ter ficado viúva, Gulnara se casou com o escritor Antonio Olavo Pereira com quem teve outro filho, Tolavito (Antonio Olavo Pereira Jr) e conviveu por quarenta anos, morando no bairro da Aclimação, em Sao Paulo pertinho de nós.

Gulnara dominava o idioma inglês e ajudava Lobato nas traduções e revisões de textos junto com Ruth, continuando a trabalhar como tradutora após a morte do escritor.
Em 1982 ela escreveu uma biografia de Monteiro Lobato chamada ‘O Menino Juca’, que foi publicada com belíssimas ilustrações de Rui de Oliveira.
Faleceu em São Paulo, no dia 27 de agosto de 1986.

Ruth Monteiro Lobato

A filha mais nova de Lobato e Purezinha, nasceu em 1916 em meio a Primeira Guerra Mundial.
Dos filhos do casal, mamãe conta que Ruth foi a que herdou a inteligência, o dinamismo a curiosidade e a energia de seu pai. Foi a primeira mulher da família a aprender a dirigir, teve diversos carros, usava calça comprida, fumava muito, e absolutamente não gostava de crianças. Mamãe adorava Ruth e a seguia por toda parte, quase a enlouquecendo, afinal era 14 anos mais velha que ela.

Mamãe conta que Ruth teve muitos namorados, mas sempre inventava uma razão para não se casar. Dizia que queria morar em casas separadas após o casamento ou que só poderia casar depois que a mãe morresse.
Ruth morou com os pais a vida toda e após a morte de Lobato, quando tinha 32 anos de idade, continuou a morar com sua mãe, Purezinha, passando a ajuda-la a tomar conta dos direitos autorais de Lobato. Os móveis do Visconde que haviam acompanhado Lobato desde que herdara a fazenda passaram para o apartamento de Ruth.

Com o falecimento da mãe, em 1959, Ruth continuou a morar sozinha na Rua das Palmeiras, tendo apenas a companhia de sua gata e se manteve como responsável pelos direitos autorais de Lobato, enquanto Martha, sua irmã mais velha, fazia a parte pública de aparecer nas celebrações e homenagens ao escritor.

Na opinião de minha avó, Ruth tinha “doenças de homem” porque trabalhava demais e estava sempre estressada. De qualquer maneira ela teve um infarto aos 52 anos de idade, e depois um derrame aos 54 (do qual ela não se recuperou). Deprimida, se suicidou com apenas 56 anos, em 1972, com um revólver que havia pedido para um primo comprar.
Ao longo da vida, Ruth talvez não tenha encontrado espaço para viver a sua sexualidade, extrapolar a sua inteligência, nem a sua independência e autorrealização.

Joyce Campo Kornbluh

Joyce, minha mãe foi quem substituiu minha bisavó Purezinha como o esteio emocional da família. Mamãe virou a matriarca do meu ramo familiar, a pessoa que todos procuram para resolver problemas e especialmente conselhos depois que Ruth se matou.
Nascida em 1930, a única neta de Lobato (filha de Martha), teve que conviver com a rejeição da mãe.
Muito independente desde criança, sendo a líder da turma da rua, batendo nos meninos, para não apanhar em casa do pai, Joyce foi uma criança super levada, daquelas que subiam em árvores, caíam, se machucavam, mas não reclamavam. Certa vez, foi desafiada por sua melhor amiga para juntas colocarem a mão dentro da jaula de um urso no zoológico da Aclimação. O animal acabou mordendo a mão e quase decepando o dedo da amiga, que foi salvo graças a um anel. Fugiu de casa diversas vezes, apanhou muito, mas teve um convívio intenso com Monteiro Lobato, dormindo junto na mesma cama que ele e Purezinha quando era criança e ouvindo suas histórias.
Além de Lobato foi a primeira da família a fazer faculdade sendo uma das cinco mulheres de sua turma a se formar em Arquitetura no Mackenzie, onde conheceu meu pai Jerzy Kornbluh, judeu polonês não religioso, refugiado de guerra, que tinha chegado ao Brasil aos 11 anos de idade em 1941, escapando, com sua mãe, pai e irmã do Holocausto na Polônia. Se casou com ele aos 28 anos de idade.

Numa família onde todos eram católicos e Lobato não tinha batizado os filhos, casar com um judeu foi um ato de extrema rebeldia, reforçando a independência e a criação lobatiana que Joyce recebera.
Fato é que o casamento trouxe transformações negativas na vida da neta de Lobato. Da menina das histórias de aventuras, viagens e independência, surgiu uma mulher que sofria constantemente com enxaqueca, dor nas costas e depressão. Assumiu a função de mulher de um executivo, resumida a cozinhar, apoiar o marido e fazer tudo para ele progredir na carreira. Mesmo após meu pai se aposentar e passar a ser o representante da família para assuntos de Monteiro Lobato minha mãe não conseguiu se liberar. Somente após a morte do meu pai em 2015 foi que minha mãe passou a me contar sua verdadeira história, seus medos e frustrações. 

Mamãe foi sempre uma mulher à frente do seu tempo, que recebeu uma educação simultaneamente liberal e não convencional por parte de Lobato e de seu pai Jurandyr, mas ao mesmo tempo totalmente conservadora por parte de sua mãe, Martha.

Essa dicotomia interior talvez tenha dificultado muito a vida dela, que sempre se descreveu e se mostrou forte para os outros mas não conseguiu transcender o conservadorismo de sua época, suas contradições internas, nem as expectativas de ser neta de Monteiro Lobato. 

Sem conseguir encontrar sua voz ou sua independência financeira, optou por tentar se encaixar nos padrões de esposa e mãe dedicada, arcando assim com as consequências de um papel que talvez não devesse ser o seu.
Hoje, aos 92 anos, a neta de Lobato vive em Americana, no interior de São Paulo com sua cachorrinha Petit e está orgulhosa do trabalho que eu venho realizando.

Essas são as mulheres que conheceram e que tiveram a experiência única e indescritível de conviver não apenas com o pai da literatura infantil brasileira, mas sobretudo com o homem, o ser humano Monteiro Lobato.
Mulheres que como ele, estavam a frente de seu tempo, pelo modo como viveram suas vidas enfrentando e quebrando tabus, derrubando preconceitos e provocando reflexões sobre temas que poderiam passar despercebidos à época, mas que hoje se mostram atuais e são incansavelmente debatidos.

As mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, lidaram com os traumas e as expectativas de serem relacionadas com uma das grandes personalidades do nosso país, além das mudanças sociais que ocorreram durante o século XX.

Todas sofreram, conviveram com seus traumas, algumas conseguiram transcender as limitações do contexto temporal, outras não. Mas sem dúvida todas elas foram corajosas, liberais e simultaneamente, extremamente conservadoras, cheias de contradições e medos.

A primeira vista pode parecer que as mulheres da vida de Lobato viveram em função dele ou à sua sombra. Mas a verdade é que cada uma delas, ao seu tempo, escreveu ao seu modo a sua própria história, com doses enlouquecedoras do DNA lobatiano, e sobretudo com a essência única e desafiadora de ser mulher em um mundo que ainda hoje insiste em seu machismo descabido.

Parabéns a todas as mulheres que ainda ousam sonhar além!