Desmistificando Monteiro Lobato nos 100 anos da Semana de Arte Moderna

Desmistificando Monteiro Lobato nos 100 anos da Semana de Arte Moderna

Desmistificando Monteiro Lobato nos 100 anos da Semana de Arte Moderna

No ano do centenário da Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, não poderíamos deixar de fazer uma menção especial ao evento e principalmente desmistificar a história que injustamente insiste colocar o moderno Monteiro Lobato como um antimodernista.

Mas antes de nos aprofundarmos nessa história, até para esclarecer aos mais jovens resumidamente, cabe-nos contextualizar: esse foi um evento de música, dança, poesia e artes plásticas que inaugurou um novo movimento cultural no Brasil chamado de Modernismo, promovido pela elite cafeicultora paulista entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade de São Paulo.

Autor com reconhecidas características de vanguarda, Monteiro Lobato, apesar de todo o seu regionalismo e da denúncia da realidade brasileira presente em sua obra, acabou injustamente, sendo rotulado como um ‘antimodernista’.
Mas será que um sujeito considerado moderno, visto como alguém à frente do seu tempo por suas ideias e ações, era isso mesmo?

O PRINCÍPIO DE UM EQUÍVOCO HISTÓRICO

O início de todo esse mal-entendido entre o autor de Urupês e o movimento literário chamado Modernista, aconteceu alguns anos antes da Semana de Arte Moderna, em 20 de dezembro de 1917, quando Monteiro Lobato publicou um artigo no jornal O Estado de S. Paulo, intitulado "A Propósito da Exposição Malfatti", mas que distorcidamente passou a ser divulgado e debatido sob o título de "Paranoia ou mistificação?", que na verdade é uma citação que o escritor fez no texto (que pode ser conferido neste link: - arquivo PDF enviado), utilizado para criar um clima de polemica e animosidade entre Lobato e os chamados ‘modernistas’: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Anita Malfatti entre outros.

Nesse texto, o autor de “Urupês” e criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que também era crítico de arte e pintor amador, claramente faz uma crítica à artista, após visitar uma exposição individual de Anita, referente à estética de suas obras, fortemente influenciadas pelo que Lobato chamou de "extravagâncias" de Pablo Picasso e seus colegas. Como nacionalista convicto e preocupado em consolidar o conceito de Brasil nação, Lobato em 1917 era, sem vergonha alguma, um crítico voraz da exagerada influência europeia sobre artistas brasileiros e sobre o meio cultural da época. 

Apesar da crítica, Lobato nunca deixou de reconhecer e exaltar o talento artístico de Anita Malfatti, e o faz no mesmo artigo tão polemico.  Na verdade, ele questionava não a inovação contida na artista, mas o estrangeirismo, e por isso, de modo equivocado (ou quem sabe até propositalmente), foi feito um recorte para desqualificar o escritor e colocá-lo como uma figura conservadora, retrógrada e careta, o que a própria história de Lobato nos revela o contrário.

Ao fazer a leitura integral do texto, qualquer leitor desprovido de outros interesses, pode notar claramente que Lobato na verdade, chama atenção para a reprodução acrítica dos valores estéticos das vanguardas europeias. No ano seguinte ao polêmico artigo, através de sua Revista do Brasil, Lobato lança Urupês, livro que décadas mais tarde renderia um comentário bastante interessante do crítico Wilson Martins em A Literatura Brasileira: "poderia ter sido, ou deveria ter sido, o primeiro manifesto modernista".

Urupês é mesmo o reflexo literário do pensamento modernista de Monteiro Lobato. Das suas observações como fazendeiro, ele aprendeu sobre a vida do caboclo brasileiro e forjou o termo "jeca" para criar um dos maiores representantes da nossa cultura multifacetada, com a saude corroida por vermes e absolutamente explorado por interesses economicos. O jeca aparece como natural do interior do Brasil, mas tem sua sabedoria ampliada por essa abstração denominada "cultura nacional": é o embrião da antropofagia modernista vislumbrada nesse personagem, que é uma mistura de várias personalidades brasileiras.

Lobato ofereceu o jeca aos olhos do público e da crítica, um novo caboclo, um herói multifacetado como a cultura brasileira e de costumes antropofágicos, filho de miscigenações e de portugueses degradados, mas o movimento Modernista não teve olhos para reconhecê-lo.

Seu nacionalismo sempre o manteve conectado aos que se interessavam pela questão cultural brasileira. Ainda em sua fazenda, Lobato enumerava admirações por alguns autores que mais tarde se consagrariam na Semana de Arte Moderna, publicando inclusive, vários desses autores em sua revista. Se um equívoco o separou do movimento modernista, esse mesmo equívoco o deixou livre para contestar o que lhe parecia errado no movimento.

Enquanto em texto o autor analisava a identidade nacional (aproximando-se, assim, de umas das principais propostas modernistas), o homem Monteiro Lobato aventurou-se em projetos empresariais no mundo literário. Em 1918, ele comprou a já famosa Revista do Brasil, em que havia publicado contos e críticas. A revista teve vida longa e foi ilustrada por nomes importantes da literatura brasileira.

Seu empreendimento também pode ser visto como modernizador das relações do artista com os negócios. O Estado, até então, era o novo mecenas das artes, e as negociações com editoras eram precárias. Monteiro Lobato fundou sua própria editora e inaugurou uma nova relação do artista com seu negócio. A literatura é vista, assim, como um produto próprio e pronto a ser negociado. Como afirma o escritor e crítico Silviano Santiago, "é através da caracterização do papel social e político do livro entre nós que se pode conhecer, com maior propriedade, o sucesso do projeto elitista e o fracasso do projeto populista dentro dos contornos da estética modernista”. Começou, então, com Monteiro Lobato, a era moderna nas relações autores-editores no Brasil.

PARA OS PRÓPRIOS MODERNISTAS, LOBATO ERA UM DELES

O escritor Oswald de Andrade, um dos principais nomes do movimento modernista, foi pelo mesmo caminho de Monteiro Lobato, quando escreveu o Manifesto Antropofágico.

Esse manifesto literário, publicado em maio de 1928, onze anos depois do famoso artigo de Lobato, tinha o objetivo de repensar a dependência cultural brasileira, demonstrando assim, que não havia contradição entre ele e o escritor.

Dois anos antes, em 1926, Lobato havia escrito um texto chamado ‘Nosso Dualismo’, no qual deixava clara a importância do movimento modernista: “Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valerá por um 89 duplo — ou por um 7 de setembro”, diz Lobato.

O autor sempre esteve próximo a Oswald de Andrade, que ele próprio considerava uma das mentes mais brilhantes do modernismo brasileiro e sobre o qual afirmou: “...o futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência de um rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade”, que, como “turista integral, sentiu melhor que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la”.

Claramente não houve rompimento radical entre Lobato e os modernistas. O que ocorria é que, ao contrário dos modernistas – que discutiam questões formais e estéticas - Lobato queria modernizar o país no plano da economia e da saúde, por exemplo. Queria modernizar um país arcaico, evidenciando ainda mais assim a sua conexão com o movimento modernista.

Mas voltando a falar de Oswald de Andrade, ele próprio eliminou qualquer embaraço que ainda pudesse existir entre Lobato e os modernistas, no aniversário de 25 anos de “Urupês” com seguinte texto:
“Você foi culpado de não ter a sua merecida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas definitivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22. Você foi o ‘Gandhi do Modernismo’, jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores, a mais eficaz resistência passiva de que se pode orgulhar uma vocação patriótica (…) Sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa pobre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana”.

Mário de Andrade foi outro que anos mais tarde, ao rever o movimento que integrou, cita Lobato como um dos seus, reconhecendo a importância do escritor em toda aquela novidade:
“O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. (…) Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato”.

De fato, Monteiro Lobato era um grande editor naquela época e reforçando: no ano da Semana de Arte Moderna, editou vários modernistas, comprovando que não se tratava de um opositor ao movimento, mas sim de um interlocutor, alguém que discutia a forma com que o modernismo estava se estabelecendo no nosso país.

Por fim, essa confusão com os modernistas terminou fazendo de Lobato um injustiçado pela história. Mas não se pode negar a sua inestimável contribuição para a literatura brasileira e para o próprio movimento modernista.