Depoimento do primeiro (verdadeiro) Pedrinho na TV: Antonio Silvio Lefèvre

Depoimento do primeiro (verdadeiro) Pedrinho na TV: Antonio Silvio Lefèvre

Depoimento do primeiro (verdadeiro) Pedrinho na TV: Antonio Silvio Lefèvre

Vejam só como eu virei Pedrinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, que foi na TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de TV do Brasil, recém-inaugurada.  Era então 1953, eu tinha 10 anos de idade, e o casal Julio Gouveia e Tatiana Belinky, grandes admiradores de Lobato, tinham começado há pouco a levar o Sítio na TV.  Eles eram muito amigos de meu pai Antonio Branco Lefèvre (que tinha sido médico de Lobato) e de minha mãe, Dorothy Fineberg. Tatiana e Julio tiveram que começar do zero, criando uma escolinha de teatro para crianças (Teatro Escola São  Paulo), pois não havia então atores infantis disponíveis. Para arranjar alunos, convidaram os filhos dos amigos... E foi assim que treinaram lá um Pedrinho para os primeiros episódios da série e que, na verdade, não fui eu... mas sim o Sergio Rosemberg, filho de outro amigo do casal.  Mas não deviam estar gostando muito da atuação dele porque logo começaram a procurar outro para o papel. E um belo dia, em visita à nossa casa, Tatiana olhou bem para mim e para meus pais e disse: “Esse é o Pedrinho que eu quero”. Assim, após um breve teste, eu me tornei, de fato, o primeiro Pedrinho “de verdade”, pois fiquei por um ano no papel. Meus pais logo tiveram que comprar um aparelho de TV, pois não o tinham. Aliás, quase ninguém tinha TV na época, pois eram importadas, custavam muito caro... e não havia quase nada para assistir... Eu me espantava ao notar que nenhum colega da minha classe, no Mackenzie, tinha me visto na TV. Eles tinham um colega que, se fosse hoje, seria uma celebridade, e nem sabiam...

Para o papel de Narizinho o casal Gouveia logo tinha encontrado uma ótima intérprete, a Lidia Rosenberg,  que apesar do sobrenome quase igual, não era parente do Sergio Rosemberg e sim filha de outro amigo da família. Para os papéis mais difíceis eles conseguiram atores profissionais, mais experientes. Isto porque a TV era ao vivo e não se podia errar muito... Em primeiro lugar para o papel da boneca Emília, que foi brilhantemente interpretado pela atriz de teatro Lucia Lambertini...  e também para os de Dona Benta (Suzy Arruda), de Tia Nastácia  (Zeni Pereira) e de todos os outros, até do Saci Pererê, interpretado pelo mesmo Paulo Matozinho que fez este papel no filme “O Saci”, da Cinematográfica Maristela, cujo diretor era meu avô materno, Benjamin Fineberg.

Mas para os papéis coadjuvantes, como os convidados para as festas no Sítio, que deviam ser crianças, os Gouveia continuavam a apelar para os seus próprios filhos (Ricardo e André), para os filhos dos amigos e os irmãos e amigos deles, como meu irmão Fernando, que cuspiu fora, ao vivo, a (horrível....) marmelada marca Peixe que patrocinava o programa... e meu irmão menor Marcelo que, fantasiado de anjinho para o episódio da viagem ao céu e com medo da altura, gritou, desesperado, ao vivo: “Socorro, me tirem daqui!”.  E logo foi substituído como anjinho pela menina Lia Rosenberg, irmã da Narizinho.... Até meu amigo de infância, o depois cineasta Jorge Bodanzky, veio num episódio, fantasiado de mexicano.

Este Pedrinho que eu era adorava os ensaios no TESP e as apresentações ao vivo na TV. Nos ensaios eu conheci Verinha Darci, mais novinha que eu, e que logo ficou famosa como intérprete do seriado "Pollyanna”, também dirigido pelos Gouveia e que teve um enorme sucesso. Tanto que meu avô Benjamin a convidou para umas férias no Grande Hotel de São Pedro, que ele administrava, como forma de atrair mais hóspedes. Ele anunciava que “Pedrinho e Pollyana estarão no hotel!”... E nos estúdios eu conheci de perto outros artistas que por lá atuavam, alguns já começando a ficar conhecidos... como o Lima Duarte, que mal podia adivinhar que um dia viria a ser considerado como o melhor ator da TV brasileira de todos os tempos....

Tudo maravilhoso, eu já com um ano de “carreira” (1953/54), com o caminho aberto para me tornar um ator, quem sabe até “global” nos anos que viriam... quando minha mãe resolveu me tirar da TV... “Esse negócio de televisão está atrapalhando os estudos do menino”, disse ela, complementando: “E para que serve isso se ninguém tem esse aparelho de TV em casa? Melhor ler os livros de Lobato...”
Para o papel de Pedrinho, Julio e Tatiana arranjaram um  substituto imediato, Julinho Simões, que não deu certo, mas logo tiraram a sorte grande, botando como Pedrinho o David José, ator super talentoso, que lá ficou até o final do Sítio na Tupi. Ele sim, ficou famoso de verdade e com muita justiça!