MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

Por: MARISA LAJOLO

Na Noite de 18 de abril de 1882 nasce em Taubaté o primogênito do proprietário das fazendas Paraíso e Santa Maria. O recém-nascido é o primeiro filho de José Bento Marcondes Lobato e de Dona Olímpia Augusta Monteiro Lobato.

Neto pelo lado materno de José Francisco Monteiro, visconde de Tremembé, o menino recebe na pia de batismal o nome de José Renata. A família o trata de Juca e Juca será para eles pela vida afora, mesmo depois que, por volta dos onze anos, decide mudar de nome: prefere José Bento, cujas iniciais coincidem com as letras encastoadas em ouro numa bengala de seu pai Juca cobiça a bengala, naquele momento tempo complemento indispensável à elegância masculina.

A situação é emblemática da força de vontade, do senso prática e da garra do menino que viria a ser o famoso escritor Monteiro Lobato.
No aconchego doméstico, decorre a infância comum de menino medianamente abastado do interior paulista, no fim do século. Vive com os pais e as irmãs menores, Teca, Judite, na fazenda Santa Maria em Ribeirão das Almas, nos arredores de Taubaté.

Entremeia a vida na roça com temporadas longas na casa que os pais mantinham na cidade e com visitas demoradas à casa do avô visconde, no meio da de uma chácara. Como todos os meninos de sua classe social, Juca tem um pajem que o acompanha nas brincadeiras.

Com as irmãs Teca e Judite faz bonecos e bichos de chuchu e tem muito medo de assombração. Sua infância é cheia de pescarias no ribeirão, de banhos de cachoeira, de tiros com sua espingardinha marca Flaubert, de passeios em seu cavalo Piquira.

Ao tempo dos calças curtas, trepa em árvores, chupa fruta no pé, aprende a gostar de circo, de pamonha, de içá torrada e de pinhão. Nas visitas à casa do avô – conta mais tarde – fascina-o a biblioteca: os livros, em particular os ilustrados, seduzem-no ainda mais do que a figura do imperador Pedro II, que conhece como hóspede do avô numa das últimas viagens imperiais a São Paulo.

Compensando a rigidez das relações afetivas com pai austero, Juca tem imensa ternura pela avó materna, a humilde professora Anacleta Augusta do Amor Divino, em tudo diferente da viscondessa legítima. Esta, a senhora Maria Belmira França, com quem o visconde se casará depois de ter tido dois filhos com Anacleta, será para sempre a visconda, na voz desdenhosa de Juca.

A dureza da forma de tratamento assinala a precoce compreensão de todo o preconceito que nascimentos ilegítimos e relações extraconjugais despertavam no século passado, tempo de convenções sociais bastante rígidas: a querida avó Anacleta morava em casinha bem menor e mais distante do que a casa da visconda.... As primeiras lições do menino Juca são em casa, com dona Olímpia, que o ensina a ler, escrever e contar.

Depois disso, como era uso no tempo, um professor particular – Joviano Barbosa – encarrega-se de sua educação. É só mais tarde que Juca frequenta as raras e efêmeras escolas particulares de Taubaté: o colégio do professor Kennedy, depois o Colégio Americano( escola mista dirigida por Miss Stafford, educadora irlandesa), depois o Colégio Paulista.

Nesse último, foi aluno do professor Mostardeiro, mestre que volta a procurar mais tarde, depois de formado, para com eles discutir as novas filosofias que tanto o fascinavam em São Paulo: Mostardeiro era positivista, o que era vanguarda para a época e o diferenciava na intelectualidade da pacata Taubaté. Juca frequenta, finalmente, o Colégio São João Evangelista. Ali, o diretor é o professor Antônio Quirino de Souza e Castro, que anos depois desempenha importante papel na história de Monteiro Lobato, pois é na casa do antigo mestre que o ex-aluno se aproxima da mulher será sua companheira de toda a vida, a neta do Velho Quirino.

Mas ainda não é tempo de amores. O tempo é de escolas, e com São João Evangelista aparece encerrada a vida escolar de Juca em colégios do interior paulista. O rumo é São Paulo. O Século XIX está chegando ao fim, e as malas de Juca estão prontas, com destino ao Instituto Ciências e Letras da capital, onde vai estudar as matérias necessárias ao ingresso no curso de Direito.

Chega à Paulicéia nada desvairada de 1895, mas é reprovado em Português e tem de arrepiar caminho: volta para Taubaté e para o Colégio Paulista. E é lá que que estreia em letra impressa como colaborador de O Guarany, improvisado jornalzinho estudantil.

O menino, Juca para a família, começa a ser para os leitores do jornaleco Josbem e Nhô Dito, pseudônimos, com que assina suas primeiras colocações: uma crítica a Enciclopédia do Riso de da Galhofa( espécie de almanaque, extremantes popular) e uma crônica dos acontecimentos diários da escola.