O caso Monteiro Lobato: por uma outra literatura infanto-juvenil brasileira

O caso Monteiro Lobato: por uma outra literatura infanto-juvenil brasileira

O caso Monteiro Lobato: por uma outra literatura infanto-juvenil brasileira

AUTOR: PALOMA FRANCA AMORIM

DATA ORIGINAL: 25 de jan de 2021 às 18:50

FONTE E CRÉDITOS: https://operamundi.uol.com.br/cronica/68260/o-caso-monteiro-lobato-por-uma-outra-literatura-infanto-juvenil-brasileira

Em algumas rodas de escritores corre a anedota, dizem, de que existe um purgatório para as obras que caem em desuso e esquecimento editorial no país, e que Monteiro Lobato está sempre na boca do guichê quando alguém o salva com mais um novo projeto a partir da coleção de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, então ele volta ao rabo da fila e fica mais algumas décadas marinando, não sem desconforto, o aguardo do próprio ostracismo.

Na última década, Monteiro Lobato viu autores e autoras negras, que estavam no purgatório, ressurgirem na vida literária brasileira, Maria Firmina dos Reis, o próprio Lima Barreto que ele mesmo editou nas primeiras décadas do século XX, Carolina Maria de Jesus, Dalcídio Jurandir, Lélia Gonzalez, dentre outros, e se assustou: como pode ser possível que esses, ainda poucos, negros sejam encorajadamente divulgados no contexto literário brasileiro? O que estará acontecendo no Brasil contemporâneo?

A campainha toca, Lobato é salvo novamente, dessa vez com uma reedição d'O Sítio na qual são suprimidas as falas racistas, Emília por exemplo nunca mais dirá que Tia Nastácia é negra por dentro mas branca fora, nunca mais dirá que é uma preta beiçuda ou até mesmo que lhe falta inteligência por causa da cor da pele.

Foi-se a violência racial contra Nastácia, mas por tabela, foi-se também Emília, afinal, o comportamento mais elogiado da boneca-gente é o que os críticos chamaram e chamam até hoje de atrevimento. Ora, esse atrevimento pode ser detectado através de suas ações preenchidas de ousadia e de suas palavras duras para com aqueles que preconizem alguma ordem de advertência ou de interdição aos seus desejos.

Nastácia, junto a Dona Benta, sua patroa, a quem a empregada alegremente chama de "Sinhá", sugerem a organização cotidiana e os pilares da educação e do bem-estar das crianças no Sítio, são a gota de realidade em contraste à presença de sacis, da cuca e das mitologias clássicas, universo onde Emília reina absoluta. O que chama a atenção é o fato de que no questionamento da realidade Nastácia é alvo da conduta racista de Emília e não de sua atitude transgressora como gesto de modificação, aliás, talvez para Emília, Nastácia e os demais pretos do Sítio sejam os únicos elementos que devam permanecer na mesma posição, uma vez que são os sustentáculos materiais das aventuras possíveis dos netos da Sinhá que vêm da capital para curtir as férias maravilhosas propiciadas somente pelo cenário fantástico da zona rural.