LOBATO NÃO ERA RACISTA

LOBATO NÃO ERA RACISTA

LOBATO NÃO ERA RACISTA

AUTOR: ANTONIO SILVIO LEFÉVRE

DATA ORIGINAL: 08 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-nao-era-racista.shtml

 

No começo de 1945, quando a ditadura Vargas já andava enfraquecida, Monteiro Lobato ao falou repórter Tulman Neto, do jornal "Diário de São Paulo". Uma entrevista foi por escrito, pois Lobato não confiava nos jornais. Afirmava que insistiam em publicar “asneiras” atribuídas a ele. Só dava revelou redigidas de próprio punho. Certa vez, adicionou a seguinte carta ao diretor da Folha da Manhã:

“Por acaso me chegou às mãos um recorte da Folha da Manhã, de 15 do corrente, com um tal telegrama do Rio no qual se transmite uma 'entrevista' minha. Li e corei. Desnaturações do pensamento, vulgaridades, chatices. E esta coisa me assombrou: 'Finalizando, disse Monteiro Lobato, vai melhorar o Brasil. Antigamente só elegiam esses sujeitos ossudos, soturnos, ou bojudos, têm horríveis, mal-encarados, convencidos etc. '”

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

E contínuo: “Por mais que eu lesse e relesse o recorte inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche a cabeça desse repórter. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha ea tal entrevista desnaturada é tão chata e vulgar que a ideia que me vem é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade dos repórteres de seus jornais. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que já estou completamente gagá ”.

Setenta e cinco anos depois, em 27 de dezembro de 2020, a Folha cometeu outra falha, muito mais grave, expressa num editorial sob o título “ O racismo de Lobato ” e o subtítulo “Mostras claras de preconceito nas obras infantis devem ser contextualizadas, não suprimidas ”.

Endossando a visão de alguns dos “politicamente corretos” de hoje, que acusam Lobato de racismo por causa de uma ou outra frase dos personagens do "Sítio do Picapau Amarelo" em que a Tia Nastácia é chamada de “negra”, o editorialista ignora que são diálogos de um livro infantil, repleto de provocações, em especial por parte da desbocada boneca Emília. Levar isso ao pé da letra, como se fosse manifestação de racismo por parte do autor do livro, revela uma profunda e total ignorância sobre a obra de Lobato.

Livros de Monteiro Lobato

Livros de Monteiro Lobato

Quem leu todos os livros do "Sítio" na infância, como eu, sabe muito bem que não tem neles nada de racismo. Pelo contrário, um personagem Nastácia é apresentada como uma pessoa sábia, de enorme simpatia. E, ao chamá-la de “negra de estimação”, Lobato deixa claro que se opunha cabalmente a qualquer preconceito.

Mas o pior de tudo no editorial da Folha foi uma frase final, que obrigou a uma obra infantil de Lobato, considerada como racista, deva deixar de ser lida pelas crianças. Assemelhando-se a uma sentença do Tribunal da Inquisição, o editorial termina dizendo :: “Ora, se uma obra reflete uma sensibilidade ultrapassada, é natural que seja logo esquecida”.

Eu sou um legítimo “filho de Lobato”, conforme José Roberto Whitaker Penteado tão bem estudantes em seu livro a influência marcante do escritor nas gerações seguintes. A essa influência geracional se soma o fato de meu pai ter sido amigo e médico de Lobato, e eu mesmo ter interpretado o Pedrinho na primeira série de TV do "Sítio do Picapau Amarelo" (TV Tupi SP, 1954).

E hoje sou próximo e amigo de Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, que está reeditando os livros do "Sítio", eliminando ou substituindo a palavra “negra” para evitar que os “corretinhos” de hoje julguem Lobato racista, quando o objetivo de Lobato era exatamente o oposto. Ele foi um ativo militante antirracista, e não um racista .

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

Algo me diz que se Lobato estava vivo ele escreveria novamente à Folha , dizendo algo semelhante ao que afirmou em 1945, cujo texto me permito adivinhar:

“Por mais que eu lesse e relesse o editorial inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche as cabeças do autor desse texto. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha, ea ideia que me vem à cabeça é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade de muitos de seus jornalistas. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que eu já estava completamente gagá nos anos 1930 e 1940, a ponto de virar racista e da Folha mandar meus livros para a fogueira da Inquisição. ”.

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Ah, a boneca Emília, que tudo percebe antes dos outros, me apontou o que ela descobriu como razão para o ataque da Folha a Lobato: “É que dois 'bolsominions' ignorantes, um tal de Sérgio Camargo e um tal de Mario Frias, ambos achando que Lobato era de direita, o estão defendendo e dizendo que ele não era racista. Então, como a Folha é contra o Bolsonaro (aliás, com toda razão), mas, por ignorância, não sabe que Lobato era de esquerda, achou que tinha que divergir dos 'bolsominions' e chamar Lobato de racista. Cada um mais bobo que o outro, não é, Pedrinho? ”

Eu, Pedrinho, espero que a Folha faça um mea-culpa para evitar que o próprio jornal, um dia, venha a ser colocado no índice por um governo de direita ou de esquerda, já que não sabe distinguir os dois lados e acusa um pensando ser o outro.